Projeto Terra de Sabidos é apoiado por:

Sair de Messejana, da Parquelândia, do Bairro Ellery, da Sapiranga, da Barra do Ceará, em Fortaleza, ou até de Caucaia, na Região Metropolitana para ir, de segunda a sexta-feira, rumo ao Centro da Capital. O destino: uma escola pública de quase 100 anos que, tombada provisoriamente pelo município, marca a história da educação no Estado e, em paralelo, dentre outros feitos, é precursora da experiência do tempo integral na rede pública no Ceará. 

Desde agosto de 2006, o Colégio Estadual Justiniano de Serpa, que já foi a Escola Normal (instituição de formação de professores) no século passado, vivencia o modelo de jornada ampliada. Quando iniciado o processo, há 17 anos, os alunos permaneciam no local das 7 às 17 horas. 

Hoje, com cerca de 300 estudantes, a unidade que é referência histórica e também pioneira nesta oferta, reafirma a escolha e a continuidade do formato. Na prática, vê a renovação e os ganhos gerados por essa aposta que, em 2023, alcança mais de 70% das escolas da rede pública estadual.

Veja também

Esta matéria integra a segunda edição da série de reportagens especiais, "Terra de Sabidos - escola de todos os tempos", que conta a história de estudantes, professores e gestores de unidades estaduais do tempo integral, discutindo o impacto desse modelo de ensino na vida dos alunos e de toda a comunidade escolar, assim como de cidades inteiras. 

Na atualidade, os estudantes, ao menos, 4 dias da semana permanecem na escola das 7h15 às 16h40. Na instituição, paredes, portas, colunas, escadas, pisos e tantos outros elementos evidenciam a dimensão histórica do lugar.

fachada da escola Justiniano de Serpa
aluno de escola pública ceará brincando com bola
letreiro na entrada da escola justiniano de serpa
Legenda: 1. Fachada do Justiniano de Serpa. 2. Alunos na área interna. 3. Letreiro na entrada.
Foto: Thiago Gadelha

Administrativamente a unidade é registrada como sendo de jornada ampliada e, no cotidiano, iniciativas estão implementadas para configurar uma transição rumo ao modelo concebido formalmente hoje como tempo integral. 

São muitos os componentes da memória no local, dos quadros com as fotos de todos os diretores da unidade no hall de entrada à placa que, por décadas está fixada na passagem que garante acesso ao pátio, com a mensagem: “somente pela educação do povo manteremos o Brasil unido, forte e livre”.

A área interna abriga 2 memoriais (da Educação e do Estudante) que remontam aos trajetos dos processos educacionais no Estado. Lá é possível conferir documentos, carteiras, mesas e uniformes antigos, além de fotografias e quadros. Um acervo demarcando aquilo que já passou e sendo acrescido a cada novo período. 

Salas de aula do Justiniano de Serpa
Salas de aula do Justiniano de Serpa
Salas de aula do Justiniano de Serpa
Legenda: Salas de aula do Justiniano de Serpa
Foto: Thiago Gadelha

No futuro, quem sabe, poderá agregar o referencial do tempo presente no qual o modelo com jornada ampliada, apesar dos desafios, tem sido um diferencial e feito da escola um lugar no qual a palavra “pertencimento” faz efetivamente sentido, para alunos, professores e gestores, conforme os próprios testemunhos.  

Pioneirismo do Justiniano

Construído entre 1922 e 1923 para sediar a Escola Normal em Fortaleza, o prédio teve essa função até 1958. Em seguida, tornou-se o Instituto de Educação Justiniano de Serpa. Muitas décadas depois, já como Colégio, diz a placa na recepção: “iniciou em agosto de 2006 a primeira experiência no Ceará de funcionamento de tempo integral para alunos do ensino médio”. 

Naquela época, o Justiniano foi o precursor do formato no Ceará e, conforme registrado pelo Diário do Nordeste, à época, alunos e professores vislumbravam ali a possibilidade da jornada ampliada garantir um reforço em português e matemática e aprofundar outras disciplinas como informática e artes. 

$image.meta.caption
$image.meta.caption
Legenda: 1. Recepção da escola com fotos dos diretores da unidade. 2. Memorial da Educação na área interna
Foto: Thiago Gadelha

O pioneirismo não veio sem dilemas. E assim permanece. A extensão de jornada traz junto, dentre outros, demandas por adaptações, sejam elas da estrutura física, de modo que se torne mais adequada para um tempo maior de permanência, ou da organização interna, do planejamento e também dos hábitos do público inserido no modelo. 

O prédio foi tombado provisoriamente pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Fortaleza (Comphic), em 2015, junto a um conjunto de outras edificações no seu entorno: o Colégio Imaculada Conceição, a Igreja do Pequeno Grande e a Escola Jesus, Maria e José. Mas segue aguardando o tombamento definitivo. 

$image.meta.caption
$image.meta.caption
$image.meta.caption
Legenda: 1. Área interna do Justiniano de Serpa 2. Desfile no 7 de Setembro. 3. Alunos na escola
Foto: Thiago Gadelha

Conexão dos alunos com a escola

No Justiniano há alunos de muitas origens. Há aqueles que sempre estiveram na rede pública, como a adolescente Irlley Luíza Melo, 16 anos, aluna do 2º ano que defende: “O tempo integral ajuda a gente ter uma responsabilidade a mais de acordar cedo, entregar trabalhos e provas. E tem também a questão das provas do Justiniano que são que nem as do Enem. Isso prepara a gente”. 

Há também os que vieram da rede particular, como Wendel Rocha, 17 anos, aluno do 1º ano. “Sempre estudei em escola particular. E vim para o Justiniano de Serpa. Eu queria sair, vir estudar no Centro, ver os monumentos, as bibliotecas. Queria andar, conhecer.  E no tempo integral vi que se fosse só meio período não ia ser a mesma coisa. No tempo integral o laço que é criado é muito mais forte.” 

Dentre os diferenciais do modelo, os alunos defendem que a alternância entre um rol de disciplinas convencionais e aquelas que ampliam o currículo, gera o saldo da expansão da formação. “Aqui não é só para ensinar a tirar 10 em tal matéria, é pra gente aprender o que vai fazer na vida. Como nós realmente vamos seguir”, completa Wendel. 

$alt
$alt
$alt
$alt
$alt
Legenda: 1. Grupo de alunos. 2 Wendel Rocha. 3. Irlley Luiza. 4 Ruan Lucas. 5. Larissa Nascimento
Foto: Thiago Gadelha

Na questão emocional, creio que em toda escola de tempo integral criamos um sentimento de amizade e formas de ajudar uns aos outros. A questão emocional é delicada. Quando estamos com muitas dúvidas sobre coisas da vida, coisas que não sabemos explicar direito, os professores estão abertos a conversar. Temos a formação cidadã com nosso Professor Diretor de Turma. A gente conversa, vê como melhorar as notas, vê o que está acontecendo, como está em casa e como se planejar melhor.

Para Ruan Lucas, 17 anos, aluno do 3º ano e morador do bairro Messejana, as expectativas eram altas antes de ingressar no Justiniano, devido a “boa fama da escola” e hoje , no que ela chama de “preparatório para a vida adulta”, diz que “as expectativas bem altas estão sendo cumpridas agora. Tanto na questão de estudos, como alimentação e qualidade do tempo que eu passo aqui”. 

O foco do adolescente, relata, é ingressar no ensino superior. Para isso se prepara para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e para o vestibular da Universidade Estadual do Ceará (Uece). O desejo é cursar Psicologia. 

Além disso, a escola de tempo integral tem gerado outros objetivos, conta: “Tenho um irmão mais novo e sempre estudamos em escola de meio período. Depois que entrei no Justiniano, minha mãe passou a me acompanhar mais, a meta é colocar meu irmão também no tempo integral. 

Situação semelhante é vivenciada pela estudante Larissa Nascimento, 17 anos, do 1º ano. Com toda a trajetória escolar na rede pública, ela narra o ingresso no Justiniano: “Minha irmã que me colocou aqui. Ela me colocou porque meu primo estudou aqui e sempre achamos que era muito bom”. O propósito ao finalizar o ensino médio, destaca, é seguir rumo ao curso de Direito.  

Testemunhas das transformações

As mudanças geradas pelo novo modelo, no qual estudantes passam os dois turnos na escola, são testemunhadas e avaliadas de perto pelo professor Marcelino José Fialho, que dos 65 anos vividos, 42 anos foram atuando na unidade. O docente hoje trabalha no setor de multimeios e já lecionou as disciplinas de inglês e português. 

O ingresso no Justiniano foi na década de 1980, em uma época que, relata ele, “a escola chegou a ter 5 mil alunos e tinha três turnos, manhã, tarde e noite”.

Hoje, estamos em tempo integral e eu não chamo nem de escola, eu chamo é de universidade. Nós temos aulas convencionais, natação, aulas nos laboratórios de física, química e informática, biblioteca funcionando a todo vapor e professores, na grande maioria, com mestrado e doutorado. 

A diretora da Justiniano, Carla Freitas, há 4 anos atua na gestão escolar da rede estadual, estando à frente da escola há alguns meses. Ela rememora que em 2006 quando a unidade inaugurou o modelo no Estado “profissionais da Justiniano migraram, no momento dessa formatação, para outros estados para que fosse feito estudos, para ter equipes técnicas e pudessem ser feitos os desenhos”. 

O coordenador pedagógico, Maike Wanderson de Sousa, destaca que a escola recebe “um público muito diversificado" e exemplifica apontando que alguns são oriundos da rede particular “porque as famílias já reconhecem algumas escolas públicas com bons resultados", outros “vêm por questões financeiras” e há ainda aqueles em “condição mais vulnerável”. Para esses últimos, ressalta ele, “por exemplo, as três refeições regulares fazem uma grande diferença”. 

Ele também argumenta que o modelo de escola de tempo integral possibilita trabalhar outras questões que não apenas os conteúdos tradicionais, como as competências socioemocionais.

$alt
$alt
$alt
Legenda: 1.Professor, Marcelino José e alunos 2.Diretora, Carla Freitas 3.Coordenador, Maike Wanderson
Foto: Thiago Gadelha

“Para além do português, da matemática, da física, da história, temos esse momento de conversar com eles e atender demandas que, muitas vezes, as próprias famílias não atendem e eles buscam acolhimento dentro da escola".

Maike reitera um elemento evidenciado pelos alunos: a sensação de pertencimento. “Nas escolas de tempo integral, por passar a semana inteira dentro da escola, eles desenvolvem vínculos, sensação de pertencimento, identidade, se sentem parte de um grupo, se apegam”.

Eles têm um sentimento muito bonito de orgulho pela escola. E algumas coisas que são muito culturais dos próprios alunos. Eles têm alguns movimentos bem engajados, de liderança, com o grêmio, com o movimento de ter a banda musical da escola. 

O coordenador também menciona o projeto Professor Diretor de Turma, desenvolvido no Ceará desde 2008, no qual os docentes se responsabilizam por uma determinada turma em que eles conhecem os estudantes individualmente, para atendê-los de forma mais direcionada. 

“Esse professor tem momentos de formação com os alunos. Tem abertura para conversar sobre as questões socioemocionais. Então, a gente trabalha, além do cognitivo, o aprender a conviver, aprender a ser em conjunto. Isso faz muita diferença no desenvolvimento”, completa.