Mães que carregam sozinhas o que deveria ser compartilhado
Quando a ausência paterna transforma cuidado em sobrecarga e silencia a dor de quem fica
Esses dias, me deparei com um relato que ficou ecoando. Era uma mãe, visivelmente esgotada, tentando explicar por que continuava sustentando, para a filha, a imagem de um pai que não estava presente.
Mesmo diante da ausência, das falhas na pensão e da falta de participação nas datas mais importantes, ela inventava justificativas. Na Páscoa, por exemplo, montou sozinha uma cesta de chocolates e disse à filha que o presente era do pai. Fez isso pela filha. Porque a menina ama o pai. E porque ela não teve coragem de contar a realidade.
O vídeo viralizou. E, nos comentários, a pergunta que não tem resposta fácil: contar ou não a verdade? Até que ponto vale sustentar uma narrativa para proteger uma infância?
Mas, enquanto esse debate se concentra na criança, outra camada se impõe: o que acontece com essa mulher que sustenta tudo sozinha?
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A sobrecarga invisível
Para o psicólogo clínico e especialista em terapia familiar, Álvaro Rebouças Fernandes, essa situação não é isolada, ela reflete uma construção social profunda.
“Existe uma construção em que a responsabilização da mulher é sobre o afetivo, sobre o cuidado, enquanto a do homem fica mais ligada ao provimento material. Isso não se sustenta na realidade atual, mas ainda influencia muito as relações"
Sustentar a imagem de um pai presente pode, nesse contexto, ser também uma tentativa de preservar um ideal de família, mesmo que ele não exista na prática. Álvaro explica que, muitas mulheres carregam a ideia de que não podem falhar e, por isso, tentam compensar ausências que não são suas.
“Essa mãe está tentando exercer uma função que não é só dela. E isso gera um desgaste enorme, porque ela precisa da participação de alguém que não quer ou não consegue participar.”
E quem cuida de quem cuida?
Ao tentar proteger os filhos, mulheres silenciam suas próprias frustrações e o direito de viver esse luto. Reconhecer limites, buscar rede de apoio e entender que não é possível dar conta de tudo sozinha são passos importantes, ainda que difíceis.
“As necessidades não atendidas dessa mulher vão aparecer como estresse, sobrecarga e sofrimento emocional. O autocuidado não é luxo, é necessidade - inclusive para que ela consiga cuidar do filho”, reforça o psicólogo.
Quando a ausência também é uma questão de justiça
Além do impacto emocional, a ausência paterna também precisa ser olhada sob o ponto de vista jurídico. A advogada de família Ana Zélia Cavalcante explica que, quando não há cumprimento dos deveres parentais, o caminho pode ser a judicialização.
“Não é só pagar. É participar da rotina, levar ao médico, acompanhar a escola. Quando isso não acontece, há uma sobrecarga injusta sobre a mãe.”
A sobrecarga feminina é enorme. Não é por acaso que o maior índice de afastamento das mulheres do mercado de trabalho está ligado a essa realidade. Em 2025, foram mais de meio milhão de licenças concedidas por transtornos mentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Esse cenário de adoecimento e ausência pode, inclusive, gerar consequências legais.
“A mãe pode pedir revisão da guarda, aplicação de multa por descumprimento e até compensação financeira pela ausência no dever de cuidado. Se não cuida, precisa responder por isso.”
A advogada também chama atenção para a violência vicária: quando a criança acaba sendo colocada no centro de conflitos e negligências que ultrapassam a relação parental, atingindo diretamente o equilíbrio emocional da mãe. Uma dinâmica silenciosa, mas que amplia o sofrimento.
Entre a proteção e a verdade
Não existe fórmula pronta para dizer quando ou como contar a verdade para uma criança. Cada história tem seu tempo, seu contexto e sua forma. Mas talvez seja importante ampliar o olhar: proteger a infância não deveria significar anular completamente a mãe.
Sustentar sozinha uma história que não existe também cobra um preço. E ele quase sempre recai sobre quem já está fazendo tudo.