O peso do instinto materno e a urgência da corresponsabilidade

Sobrecarga, ausência paterna e o desafio de transformar a maternidade em um compromisso coletivo

Escrito por
Eliziane Correia eliziane.correia@svm.com.br
Legenda: Cuidar de uma criança não é um talento exclusivo das mulheres, mas uma obrigação compartilhada. Paternidade não é presença esporádica, é participação ativa
Foto: Maliutina Anna/Shutterstock

Desde a primeira vez que segurei minha filha nos braços, ouvi a frase: ‘mãe sabe o que fazer’. Como se a maternidade viesse acompanhada de um manual infalível, pronto para me guiar em cada passo. Ninguém me contou, porém, sobre o peso dessa expectativa. Sobre o medo de errar, sobre a cobrança de perfeição e sobre a solidão que acompanha esse papel.

O mito do instinto materno é um dos maiores geradores de sobrecarga para as mulheres. A ideia de que a mãe “nasce sabendo” o que fazer não só ignora a realidade do aprendizado diário, como também diminui a responsabilidade paterna.

Maternar não é dom natural: é compromisso, entrega e construção contínua.

A psicóloga Judith Berenstein lembra como hábitos culturais reforçam a sobrecarga materna: “A sociedade ainda coloca a mulher na posição de que a obrigação é dela. É possível ver homens viajando a trabalho ou a lazer com total tranquilidade. Agora, quando a mulher faz o mesmo e deixa o filho com o pai, isso muitas vezes se torna uma polêmica, até mesmo dentro da própria família”.

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A solidão por trás da “mãe batalhadora”

Não existe ajuda na maternidade: existe corresponsabilidade. A chegada de uma criança exige presença, partilha e divisão de tarefas. Ainda assim, o que vejo é muita confiança depositada na mulher, como se fosse natural que ela desse conta de tudo. Mas essa mãe também precisa confiar que haverá alguém para olhar por ela, para compreender, intervir e sustentar quando necessário.

Crescemos ouvindo cobranças de perfeição. Desde cedo, aprendemos que a mulher deve ser forte, resiliente, cuidadora por excelência. Termos como “mãe batalhadora”, por exemplo, soam hoje para mim como “mãe solitária”. Porque não foi escolha, foi necessidade. Além de não receber reconhecimento, essa mãe carrega dores e cicatrizes que nem sempre têm espaço para serem elaboradas.

“Esse padrão masculino, que diz ‘eu participo com dinheiro, mas não estou para cuidar, dar carinho ou dar banho’, é um padrão que não se sustenta mais. Porque isso não cria laços afetivos, não constrói relação nem serve de modelo para a criança. O pai é tão responsável quanto a mãe pela criação do filho, ajudando-a a se orientar no mundo”.

Paternidade como presença ativa

Por outro lado, é preciso falar sobre os pais. O fato de não saber executar determinada tarefa - resultado da própria cultura em que foi criado - não os isenta de responsabilidade. Cuidar de uma criança não é um talento exclusivo das mulheres, mas uma obrigação compartilhada. Paternidade não é presença esporádica, é participação ativa.

E não se trata apenas do casal. A rede de apoio - família, escola, poder público e sociedade - precisa assumir sua parte nesse cuidado. Porque uma criança não cresce apenas nos braços da mãe, mas na força de uma comunidade que se envolve e se responsabiliza.

“Existem questões importantes que ainda estão muito arraigadas e são profundamente culturais. Chama-se reunião de pais na escola, mas quem geralmente comparece são as mães, né? Então, eu acredito que hoje, principalmente o poder público e as escolas, precisam trabalhar essa questão, reconhecendo que a família é um núcleo fundamental. Os dois - pai e mãe - são igualmente importantes. É preciso começar a olhar para isso, falar sobre isso enquanto poder público e escola, e ir disseminando esse conhecimento”.  Judith Berenstein - Psicóloga

Um chamado ao cuidado coletivo

Às mães que vivem a maternidade como uma batalha diária, deixo um abraço de acolhimento. Vocês não nasceram para serem heroínas incansáveis, mas mulheres inteiras, que também precisam de cuidado e espaço para existir além da maternidade.

E aos pais, que compartilham dessa jornada, desejo sabedoria e coragem para assumir sua parte. Porque a maternidade nunca deveria ser um fardo solitário: é um espaço de afeto, responsabilidade e construção em conjunto. No fim, o cuidado com uma criança não é de uma só pessoa, mas de todos nós.

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