Ceará

Aviação solidária doa horas de voos em aeronaves privadas para transportar órgãos

Thatiany Nascimento thatiany.nascimento@svm.com.br
22/09/2026 - 06:00 (Atualizado em 22/09/2026)

Esperar meses, anos e até décadas por um transplante. Finalmente, conseguir um doador. Mas, depois que o procedimento é autorizado, surge outra questão: fazer órgãos e equipes chegarem ao destino no tempo adequado.

Em um país de dimensões continentais, a distância pesa na corrida. No Ceará, a Central Estadual de Transplantes, vinculada à Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), coordena esse processo. Quando o deslocamento é por via aérea, aeronaves da Casa Civil ou da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer), que integra a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), são acionadas. Mas há outras formas de garantir esse transporte?

No Brasil, uma iniciativa de aviação solidária, que ainda opera vinculada apenas ao Estado de São Paulo, tem disponibilizado aeronaves privadas para o transporte de órgãos e ajudado a agilizar as operações. Criado em setembro de 2024, em São Paulo, o TransplantAR conecta, de forma voluntária e gratuita, proprietários e operadores de aeronaves particulares à logística de captação de órgãos.

Escute o terceiro episódio do podcast “Entrelaçados”:

Em entrevista ao Diário do Nordeste, o comandante Francisco Lyra, que é presidente do Instituto Brasileiro de Aviação (IBA) e idealizador do TransplantAR, explicou como funciona, quais os impactos e o que é preciso para expandir a iniciativa.  

No Ceará, a Central de Transplantes, segundo a orientadora do órgão, Eliana Barbosa, além de definir o destino dos órgãos conforme a lista de espera do Sistema Nacional de Transplantes, articula uma ampla rede para viabilizar também o transporte. No Estado, os hospitais que fazem transplantes estão concentrados em Fortaleza, portanto, a captação pode ocorrer no interior, mas eles são levados à Capital. 

Nesses deslocamentos, a Central aciona aeronaves da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer), da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), ou uma disponibilizada pela Casa Civil. Nos voos, são transportadas tanto as equipes de captação quanto os órgãos. Quando o destino é outro estado, a Central coordena o embarque em voos comerciais, junto às companhias aéreas. Se não houver uma opção compatível com o tempo disponível, o Estado pode ceder aeronaves próprias. 

Essa realidade é compartilhada por inúmeros estados brasileiros, e ciente dela, o programa TransplantAR foi idealizado. A iniciativa, que tem cerca de 50 empresários proprietários de aeronaves cadastrados, atua em cooperação com o Sistema Único de Saúde (SUS) e já transportou, desde 2024, mais de 74 corações, 17 pulmões, 26 fígados e 2 pâncreas.

No programa, os empresários devem disponibilizar voos mensais - arcando o custo do piloto, combustível e taxas - para o transporte organizado pela Central Nacional de Transplantes (CNT), cuja chegada ou partida seja o Estado de São Paulo. 

O Diário do Nordeste veicula neste mês a série de reportagens multimídia “EntreLaçados, a rede que move transplantes no Ceará” e revela bastidores de um processo que, guiado pela ciência, entrelaça para sempre pessoas, profissionais e sensações como esperança, solidariedade, luto, dor, amor e vitória. Além de reportagens no site, o especial traz um mini documentário focado no tempo e no processo das esperas por transplante, publicações nas redes sociais, episódios de podcast e uma newsletter. 

Clique aqui para conferir todos os conteúdos do “Entrelaçados, a rede que move transplantes no Ceará”.

Confira entrevista completa com o comandante Francisco Lyra:

Legenda: Francisco Lyra é presidente do Instituto Brasileiro de Aviação (IBA) e idealizador do TransplantAR.
Foto: Arquivo pessoal

Diário do Nordeste: Vou começar perguntando o óbvio que é sobre o início do projeto. Entendo que o senhor tem uma relação com esse tema, e quero pedir para explicar como nasceu essa ideia. Por que fazer isso? 

Francisco Lyra: Muito bem, eu sou empresário do setor de aviação executiva há muitos anos, tenho 50 anos de aviação. E na formatação de uma startup que nós estávamos começando, há uns anos, eu contratei um consultor empresarial para nos ajudar a elaborar os processos e treinamento de equipes, coisas de uma startup. Num coffee break perguntaram a esse consultor a idade e ele disse que tinha 9 anos de idade. O que seria impossível, né? Mas ele contou que ele começou a contar a idade novamente a partir do transplante de fígado. 

Ele teve uma hepatite que evoluiu para um câncer no fígado e quando diagnosticaram o câncer, estimaram que ele teria 10 semanas de vida, a menos que conseguisse um transplante. E bom, graças a Deus, ele mesmo pesando 40 kg nessa fase, conseguiu o transplante, sobreviveu e voltou à atividade de consultoria. 

E ele passou a dedicar uma parte dessa consultoria gratuitamente para o SUS e para a Central Nacional de Transplantes. Ele contou isso e eu conversei com meus sócios e resolvemos ajudar doando voos, porque todas as pessoas estão muito conscientes do drama que é a doação de órgãos ser insuficiente para a demanda, mas existe um segundo drama que pouca gente conhece: 30% dos órgãos efetivamente doados são desperdiçados porque ninguém vai buscar, ou seja, questões de logística de transporte aéreo. 

Então, já temos um funil enorme que é a pouca doação de órgãos e a gente não pode se dar o luxo de desperdiçar eles por uma questão de logística aérea. Aí fui me educando sobre o problema. 

Isso em um país muito grande…E como é feito esse trabalho?

Existem duas dinâmicas bem diferentes. Os órgãos que têm um tempo de isquemia muito longo, que podem ficar fora de circulação sanguínea durante muitas horas, que é o fígado, os rins, pâncreas, tecidos, a córnea. Então, as empresas aéreas, através da sua associação (a ABEAR - Associação Brasileira das Empresas Aéreas), fazem um brilhante trabalho transportando milhares de órgãos. Mas são os órgãos que podem ficar muito tempo sem circulação sanguínea. As empresas aéreas não transportam nenhum coração e nenhum pulmão, e esses são órgãos que podem ficar fora de circulação apenas quatro horas.

E a gente pode até achar que quatro horas são suficientes, mas não são. Porque começa a contar esse cronômetro do momento que o cirurgião pinça a veia aorta (artéria do sistema cardiovascular) na retirada até o momento que ele sutura no coração do receptor e o coração volta a ter irrigação com o sangue do receptor.

Então, são 50 minutos até sair do hospital. Aquelas 4 horas já viraram 3 horas e 10 minutos, e o mesmo processo acontece no receptor. Até você terminar a cirurgia e suturar as artérias e veias no peito, são mais de 50 minutos. Portanto, sobra muito pouco.

Tem também o transporte terrestre entre o hospital e o aeroporto, nas duas pontas, e o próprio voo em si. Então, sobra líquido para voar menos de duas horas. Em média, isso torna o desafio do coração e pulmão muito grande. O programa TransplantAR surgiu então para isso, para tentar apoiar a FAB (Força Aérea Brasileira), que é organização que estava ajudando nesse processo, além das PMs locais e os bombeiros que, muitas vezes, têm helicópteros e aviões. Mas muitas vezes nem são suficientes para a demanda.

Aí, por outro lado, a aviação executiva tem milhares de aeronaves disponíveis porque um avião executivo só decola quando o proprietário tem alguma viagem de negócios. Um avião executivo fica 80% do tempo parado no hangar aguardando uma demanda do proprietário. 

Então, a lógica do nosso programa é que: os proprietários já pagam o custo fixo mensalmente, não importa o que ocorra, ele vai ter que pagar o salário dos pilotos, o hangar onde fica o avião, a manutenção, o seguro, então qual é o custo incremental? É o que só acontece quando existe o voo, o combustível e as taxas aeroportuárias. Portanto, para o proprietário do avião, é um incremento marginal de custos e ele faz o bem. 

Então apesar de o sistema não ter nenhum incentivo governamental, já que as doações são 100% por conta do proprietário dos aviões, a gente ainda encontra muitos proprietários dispostos a ajudar, assim como eles foram dispostos a ajudar também na crise do Rio Grande do Sul das enchentes, onde centenas de helicópteros e jatos particulares doaram voos para atender o Rio Grande do Sul.

Então o programa nasceu da doação da minha empresa inicialmente, e aí nós ficamos pensando em como fazer para dar escala, porque aquela história né, uma andorinha só não faz verão. Não adiantava apenas a minha empresa doando voos, a gente tinha que pensar num tema em que muitas empresas e muitos proprietários pudessem doar voos.

Aí nós fomos à ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) para que a ANAC desse um parecer, se isso, se essa ideia que a gente tinha, se sustenta juridicamente. E a ANAC passou um bom tempo estudando e voltou com um documento endossando totalmente a nossa ideia e apoiando. 

E isso levou muito tempo?

Para você ter ideia, a ANAC ficou em análise durante nove meses com o nosso processo. E por que eles queriam fazer uma análise bem rigorosa? Para que o processo ficasse sempre protegido e blindado, contra qualquer interpretação que fosse um táxi aéreo clandestino ou alguma coisa assim que ocorre na aviação. 

De lá nós fomos ao Ministério da Saúde porque a pretensão do programa sempre foi de ser de âmbito nacional e nós estivemos com a ministra Nísia Trindade, que à época era ministra da Saúde, e ela ficou entusiasmada, mas ela estava também enfrentando a crise da dengue, depois acabou saindo do ministério e não houve uma tração no Governo Federal. 

Aí nós levamos o projeto à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo porque São Paulo representa uma proporção significativa de todos os transplantes.

Foi feito um convênio entre o instituto que eu presido, que é o Instituto Brasileiro de Aviação, e a Secretaria de Estado da Saúde. Hoje, o convênio que nós temos permite que a gente faça captação em qualquer cidade do Brasil, desde que o destino do transplante seja São Paulo, ou vice-versa, a gente pode captar em São Paulo e oferecer para outro estado, porque esse é o termo do convênio que temos. 

E há manifestação de algum outro estado para expansão da iniciativa? 

Diversos estados nos procuraram querendo expandir o programa, então o Paraná já nos procurou, Santa Catarina, e é interessante que são dois estados do Sul, que têm índices de doação de órgãos similares ao da Europa. Existe uma conscientização muito grande nesses estados sobre doação de órgãos. E isso vai diminuindo quanto mais a gente se afasta. São Paulo já não é tão grande e vai diminuindo.

Já houve uma manifestação também do Ceará e de Pernambuco de levar o programa. E nós estamos totalmente à disposição de falar com qualquer secretaria de Estado da Saúde, porque em cada região existe uma frota de aviões particulares que são baseados nessas regiões.

O estado de Goiás também nos procurou porque tem uma aviação executiva muito forte em Goiás decorrente do agronegócio. Então, onde tem aviação forte, como Fortaleza, Recife, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo, com núcleos importantes de aviação executiva, são lugares onde esse programa poderia prosperar e fazer a diferença, porque como eu falei no começo, a Força Aérea faz um trabalho incrível de doar os voos para atender, mas não é a única missão da Força Aérea.

A Força Aérea tem inúmeras missões, tem controle de fronteiras, tem abastecimento de populações indígenas no meio da Amazônia, tem defesa aérea. São tantas as funções que muitas vezes eles não dispõem do equipamento para fazer o voo. 

Comandante, no programa não está em jogo, digamos, esse custo financeiro, mas tem como estimar, por exemplo, quanto é gasto em um deslocamento para quem doa, claro que considerando as diferenças de aeronaves e distâncias?

Olha, depende. O voo mais longo de captação já feito no Brasil foi feito por nós. Nós tivemos uma oferta de um órgão pediátrico, um coração infantil, em Araguaína que fica no norte do Estado de Tocantins próximo ao Pará, e a receptora estava internada em São Paulo; e nós fizemos um voo de 2 mil km em duas horas ou seja uma média de mil quilômetros por hora, porque foi feito no jato executivo mais veloz que existe que é o Ghost 3650. 

Para você ter uma ideia, um avião desse custa para o proprietário 10 mil dólares por hora, e ele voou quatro horas, ou seja, o próprio proprietário nesse voo gastou 40 mil dólares. Do outro lado tem voos em aviões muito menos onerosos e voos muito mais curtos. Tem avião que custa 4 mil dólares por hora, tem helicóptero que custa 2 mil dólares por hora. Então, o que a gente faz é de acordo com a missão, procura identificar qual é o tipo de aeronave que melhor se adequa. 

E quais são os tipos de aeronaves incluídas na iniciativa?

Quando o raio é próximo entre o local de captação e onde vai ser o implante, muitas vezes, a gente pede doação de helicópteros, então já salvamos muitas vidas com helicópteros, porque são helicópteros que voam por instrumentos, ou seja, voam com qualquer tempo. São helicópteros biturbina, têm uma camada a mais de segurança de voo e que podem voar à noite, porque por exemplo a PM de São Paulo oferece muitos voos no seu Águia, mas o Águia é monoturbina, não voa por instrumentos e não pode voar à noite também. 

Quando a missão requer que tenha voo por instrumentos ou voo noturno, é o TransplantAR que atende. Agora tem, por exemplo, aviões turbo-hélice, que podem pousar em pistas não pavimentadas. Às vezes, um avião turbo-hélice é o mais adequado porque o local onde está o doador é um local remoto, porque que existe a necessidade de transporte, porque o doador pode estar em qualquer cidade do Brasil, mas o receptor está sempre em um grande centro. 

Normalmente, ele está internado em condições críticas. Nós já atendemos diversos receptores que estavam já no finalzinho da sua jornada, ou seja, se o transplante demorasse um pouco mais, possivelmente ele não iria resistir. Gente já com coração artificial extracorpóreo ou com uma bomba dentro do coração, ou seja, pessoas em estado muito grave, entubadas, em que se não houver o transplante, possivelmente ela não resiste mais do que uma ou duas semanas. 

Portanto, o que a gente faz é tentar mobilizar empresários para se sensibilizarem com essa demanda e eu penso particularmente que o Ceará é um candidato perfeito para isso porque existe uma frota muito importante de aviões executivos e a gente tem que desenvolver soluções regionais. 

Todo mundo pensa em aviação executiva como sendo uma coisa de luxo, mas o problema é que a aviação executiva no Brasil ela supre uma deficiência das empresas aéreas. No Brasil tem 5.670 municípios. Sabe quantas cidades têm voos regulares de empresa aérea? 120 cidades, não chega a 2%, o que significa dizer que 98% das cidades não têm transporte aéreo regular. Então, até para o fígado e para o rim, por exemplo, que são órgãos que resistem e que podem ser transportados pela empresa aérea, essa abrangência é limitada. 

Se você tem uma rede de varejo, por exemplo, seja banco, seja loja, seja farmácia, a única forma de gerenciar isso em escala nacional é através da aviação executiva, por causa da capilaridade. E essa mesma capilaridade que está agora apoiando o SUS, a Central Nacional de Transplantes, que por por sua vez, passa para o plantão da Secretaria da Saúde de São Paulo que nos aciona. 

Vocês são acionados através da Central? 

Então, quando existe uma morte cerebral, que é a condição que viabiliza um transplante, a pessoa pode resistir aí uns dois ou três dias em morte cerebral antes de ter falência dos outros órgãos. Então esse é o tempo que a gente ganha para poder fazer a captação. Se a família topar, a Central Nacional de Saúde começa um procedimento.
 
Quando oferecem para São Paulo, por exemplo, vai para o plantão da Secretária da Saúde, que nos aciona e aciona também a FAB, para ver se a FAB tem aeronave ou se nós temos aeronave. Esse é o rito e nós só somos acionados depois que tem um hospital de origem e um hospital de destino e precisa saber se a gente precisa levar os médicos. 

Pronto, vocês tanto transportam as equipes de captação como o órgão em si?

Na maior parte das vezes, a gente leva a equipe, porque, especialmente no caso de coração e pulmão, são poucas equipes no Brasil que têm expertise para fazer essa captação. Quando é fígado e rins que já são transplantes que ocorrem em número muito maior, às vezes o próprio hospital de origem tem uma equipe que sabe como fazer a extração e a captação. Então para coração e pulmão o mais frequente é que nós levamos a equipe de especialistas.

Aguardamos lá o tempo de cirurgia, três, quatro horas, e depois o trazemos de volta para o centro transplantador. E tem centros transplantadores em diversas cidades aqui no estado (de São Paulo). Tem Barretos, Botucatu, Sorocaba.

E já buscamos órgãos no Rio de Janeiro, já levamos transplante de medula óssea para Paulo Afonso na Bahia, fizemos diversas em Goiânia, em Brasília, em Blumenau, em Santa Catarina. Então, a gente tem uma amplitude bem grande já. Mas como o convênio que nós temos por enquanto é apenas com a secretaria de saúde de São Paulo, São Paulo tem que ser origem ou destino.

Nos outros estados, estamos em diversos estágios de interlocução até o próprio chefe de gabinete da secretaria de São Paulo se ofereceu para ajudar outros estados que queiram implantar ou transplantar, porque também na Secretaria de Estado de São Paulo passou um bom tempo no jurídico, na Procuradoria, para avaliar a regularidade de tudo isso. 

Eles achavam sempre muito estranho que o empresário dava tudo de graça, achavam que era impossível por ser muito caro, mas o caro é relativo. A maior parte dos proprietários me procura depois de um voo para nos agradecer.

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Legenda: O TransplantAR conecta, de forma voluntária e gratuita, donos de aeronavas ao sistema de saúde
Foto: Divulgação TransplantAR

O cadastro é por empresário? São quantas pessoas cadastradas e quantas aeronaves?

Temos aproximadamente 50 aeronaves cadastradas que são recorrentes, e depois tem outros tantos que, às vezes, fazem apenas um voo ou fazem esporadicamente. Mas os regulares que já fizeram, temos empresários que já doaram 20 voos, por exemplo, e empresário que doou apenas um. E a premissa é sempre a mesma: se houver disponibilidade, naturalmente, então a aeronave tem que estar ociosa.

Ela não pode estar em missão, em voo com o proprietário, ela não pode estar em manutenção, a tripulação não pode estar fora fazendo treinamento ou de férias. A condição é que o avião esteja ocioso. Se hoje o helicóptero está ocioso, hoje é uma grande oportunidade de salvar uma vida.

E a quantidade de empresários?

Basicamente o mesmo número de aeronaves, porque na maior parte das vezes tem apenas uma aeronave. Às vezes, tem o helicóptero, às vezes tem o avião, alguns poucos têm helicóptero e avião, mas via de regra, cada um tem uma aeronave. 

Comandante, e quando vai fazer esse voo, tem alguma sinalização especial? O piloto comunica às instituições de controle que está transplantando órgãos, tem alguma prioridade?

Temos um time de voluntários que são especialistas em logística de transporte de aviação executiva, e a gente comunica todos os dados do voo para o Departamento de Controle do Espaço Aéreo e para o Centro de Gerenciamento Nacional de Tráfego Aéreo. É emitido um documento formal da Aeronáutica declarando que aquele voo tem prioridade absoluta sobre qualquer outro voo.

O único voo que tem prioridade maior que um voo humanitário como esse é o de missão de guerra. Então, só ocorre se o Brasil estiver em guerra. Então, esses voos, por conta do período de isquemia ser tão curto, eles têm prioridade. É comum a gente acompanhar, às vezes, um voo do TransplantAR chegando em Congonhas, e o controle de tráfego aéreo está desviando os aviões da ponte aérea para que o nosso voo pouse antes.

Às vezes, a gente combina um voo de jato, por exemplo, chega em Congonhas, tem que levar para o Incor (Instituto do Coração da Criança e do Adolescente), aí a gente consegue a doação, às vezes, de um helicóptero para fazer essa última milha em São Paulo. Você ir de Congonhas até o Incor demora 40 minutos de carro; a gente tem regularmente feito em três minutos de helicóptero.

O senhor pilota, já alguma vez transportou órgão? Já participou de alguma operação do tipo? 

Já. Já sim. E é uma emoção imensa. É uma emoção, uma satisfação. E ver o sistema que a gente colocou para funcionar é uma sensação indescritível. Uma vez, uma repórter me perguntou por que a gente faz isso. O que vocês ganham em troca? A gente ganha felicidade. É uma sensação incrível poder ajudar, porque eu sempre me ponho na posição da família que está esperando, do paciente que está esperando.

Quando a gente se coloca na posição deles, a perspectiva muda. Começa a enxergar o mundo pelos olhos de quem está na lista com uma sentença de morte. E sabe que, se demorar muito, não vai resistir.

Créditos

Thatiany Nascimento, Repórter | Ismael Soares, Produtor Audiovisual | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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