De santas a amante, Ceará tem ao menos 11 cidades com nomes que homenageiam mulheres

Conheça as localidades e a história por trás de cada tributo.

Escrito por Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
18 de Outubro de 2026 - 14:00
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Legenda: Santas são as figuras mais homenageadas pelos municípios cearenses.
Foto: Divulgação/Aprece.

Das 184 cidades do Ceará, ao menos 11 homenageiam diretamente figuras femininas no nome. Os topônimos 一 substantivos próprios dados às localidades 一 variam desde tributos a santas, passando por matriarcas e uma suposta amante. 

As localidades estão espalhadas pelas regiões do Vale do Jaguaribe, Centro Sul, os sertões dos Inhamuns, de Crateús e de Sobral, além do Cariri. Esta última concentra a maioria delas: quatro; sendo seguida pela penúltima, com dois. 

Fazem referências a mulheres os seguintes municípios do Estado:

  • Antonina do Norte
  • Aurora
  • Barbalha
  • Catarina
  • Graça
  • Iracema 
  • Madalena
  • Quiterianópolis
  • Santa Quitéria
  • Santana do Acaraú
  • Santana do Cariri

O número de municípios cearenses com homenagem às mulheres é menor do que aos pelo menos 16 que fazem referências a homens. 

Essa proporção é reflexo de uma estrutura que silencia as memórias femininas ao longo da história, enquanto privilegia quem ocupa espaços de poder, analisa ao Diário do Nordeste a especialista em História das Mulheres, Luiza Helena Amorim, coordenadora do Laboratório Mulheres nos Mundos da Arte. 

Essas nomeações de espaços geográficos, mais do que identificar um lugar, são um espelho das relações de poder e de interesses patriarcais que selecionaram e determinaram que memórias e que personagens deveriam ser preservados para a posteridade. [...] As figuras masculinas se sobressaem porque a escrita da história foi hegemonicamente elaborada por autores masculinos.” 
Luiza Helena Amorim
Especialista em História das Mulheres

Outra característica da formação do Ceará que pode ser observada nos logradouros é a influência do catolicismo, já que a maioria homenageia santas. Para a pesquisadora, isso é resultado da construção de uma memória que privilegia modelos femininos de santidade, maternidade e pureza, em detrimento de figuras que tiveram atuação em outros campos, como intelectual ou político.

“Enquanto homens são lembrados por seus feitos políticos ou administrativos, as mulheres aparecem, com maior frequência, associadas à religião, à família ou a atributos considerados ‘virtuosos’”, completa. 

Em contrapartida, algumas mulheres que possuíam papel de destaque dentro de famílias fundadoras ou representaram os valores da cultura local também são homenageadas por topônimos no Estado. Amorim analisa que, muitas vezes, essas figuras possuem parentesco com coronéis ou proprietários rurais ou ainda com famílias que doaram terras para igrejas ou para a formação de núcleos urbanos.   

“Ou seja, um reconhecimento chancelado por um homem de poder, muitas vezes uma extensão do prestígio masculino e não da importância da homenageada para a comunidade.”

A seguir, o Diário do Nordeste detalha a história por trás do nome da cada localidade.

Aurora: de homenagem a amante a sugestão da Princesa Isabel

Senhor Menino Deus é o padroeiro do município.
Legenda: Senhor Menino Deus é o padroeiro do município.
Foto: Reprodução/MPCE.

O termo "aurora" faz referência à claridade que precede o nascer do sol, conforme o Dicionário Michaelis. Entretanto, no município da região do Cariri cearense, uma lenda diz que o topônimo seria uma homenagem à amante do coronel Francisco Xavier de Souza, fundador da Fazenda Logradouro, que originou a localidade, conforme a Prefeitura e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, essa versão é contestada pelo presidente de honra da Academia Aurorense de Letras e Artes (AALA), o professor da Universidade Regional do Cariri (Urca) João Calixto Júnior, que explica ao Diário do Nordeste que o então povoado de Venda fora batizado como Aurora cerca de 35 anos após o falecimento do coronel.

“A sugestão partiu de um desejo dos próprios moradores, já que a igreja matriz e o núcleo urbano estão voltados para o nascente”, justifica.

O aurorense acrescenta ainda que o nome teria sido proposto pela própria Princesa Isabel, filha do imperador do Brasil, Dom Pedro II, a um antigo escravizado do coronel Xavier — na época já alforriado — sob pretexto da ausência de locais com este nome.  

“Essa denominação caiu no gosto popular, e os deputados provinciais a aprovaram por meio do decreto 2.047 de 10 de novembro de 1883”, detalha. 

Santa Quitéria e Graça: tributo às padroeiras

Os dois municípios partilham mais do que as fronteiras entre as regiões e têm nomes com origens semelhantes: ambos são homenagem à própria padroeira. 

Fundada às margens do riacho Cascavel, no Sertão de Crateús, Santa Quitéria nasceu da Fazenda Cascavel, propriedade fundada pelo português João Pinto de Mesquita e Sousa. Ao visar o desenvolvimento da área, ele decidiu doar terrenos para a construção de casas, conforme detalha o Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará (Inesp). 

Então, com o crescimento da população, surgiu a necessidade da instalação de uma capela na localidade. Para isso, a família do latifundiário cedeu mais terras, além de patrimônio ao templo, que foi erguido em homenagem a Santa Quitéria. Com a construção, o então povoado adotou o nome da figura católica, e até hoje ela é a padroeira local. 

Igreja Matriz de Santa Quitéria em 1984.
Legenda: Igreja Matriz de Santa Quitéria em 1984.
Foto: Reprodução/IBGE.

A cidade de Graça, no Sertão de Sobral, tem uma origem semelhante ao da localidade da região vizinha. Ainda conforme o Inesp, o topônimo deriva de Nossa Senhora das Graças 一 um dos títulos por qual a Virgem Maria é conhecida 一, a quem foi dedicado a primeira igreja do município, e que até a atualidade ocupa o lugar de padroeira.

Santana do Acaraú e Santana do Cariri: mesma santa, regiões diferentes

O nome de duas cidades cearenses fazem referência à Sant'ana, ou Santa Ana, suposta mãe da Virgem Maria, apesar de a Bíblia não confirmar o parentesco, conforme explica o portal Vatican News. 

A mãe de Jesus teria nascido após Ana passar cerca de 20 anos tentando engravidar. A gestação aconteceu somente depois que o marido dela, São Joaquim, passou cerca de 40 dias e noites no deserto, suplicando, entre jejuns e lágrimas, para que Deus lhe desse descendentes, enquanto a esposa se manteve em oração pela graça da maternidade. 

Em Santana do Acaraú, no Sertão de Sobral, a primeira imagem da santa chegou ainda no século XVII, entre os pertences do Frei Cristóvão de Lisboa, que havia se refugiado na localidade, então nomeada de Olho D'água, enquanto era perseguido por indígenas tapuias, de acordo com informações do Inesp.

Mais de cem anos depois, uma capela em homenagem à santa foi erguida no território, e quando o povoado de Olho D'Água assumiu o status de distrito do município de Acaraú, adotou o nome de Santana. Posteriormente, quando ascendeu para vila, adquirindo autonomia política, passou a ser chamado de Santana do Acaraú. A mãe de Maria também é a padroeira da cidade. 

Nossa Senhora Sant'Ana é a padroeira do Município do Sertão de Sobral.
Legenda: Nossa Senhora Sant'Ana é a padroeira do Município do Sertão de Sobral.
Foto: Reprodução/IBGE.

Separada por mais de 570 km, Santana do Cariri compartilha uma história parecida com a xará do Sertão de Sobral, pois também homenageia a santa, que se mantém como padroeira até a atualidade, ainda segundo o Inesp.  

No entanto, originalmente, o território era conhecido como Brejo Grande. A figura católica só entrou na história da localidade com a construção da primeira capela da região, sob a invocação da santa. 

Quando o distrito se tornou vila, em 1885, mudou a denominação, adicionando a referência religiosa, e passou a ser chamado de Santana do Brejo Grande. Então, em 1896 abandonou a alusão ao nome primitivo e adotou Santana do Cariri.  

Quiterianópolis, Catarina e Barbalha: onde matriarcas são eternizadas

Quiterianópolis, Catarina e Barbalha homenageiam mulheres que, direta ou indiretamente, contribuíram para a fundação ou para a cultura das cidades das regiões do Sertão dos Inhamuns, do Centro Sul e do Cariri, respectivamente. 

Originada da fazenda Santa Quitéria, pertencente ao casal Quitéria Gonçalves de Lima e tenente José Nunes Batista, a localidade do Sertão dos Inhamuns poderia até ser uma referência à mártir da Igreja Católica, porém, é um tributo à própria Quitéria de Lima.

A honraria foi concedida após ela doar parte dos seus bens e terras para a criação de um cemitério e da primeira capela da localidade. Erguido em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, o santuário existe até hoje e é a igreja matriz da cidade.

Com o fim das obras no templo, Quitéria ainda "presenteou" a santa, que se tornou a padroeira local, com cerca de uma légua de terreno em quadro 一 equivalente a 6.000 m². É nessa área que se encontra praticamente toda a zona urbana do município até a atualidade, conforme informações da Prefeitura de Quiterianópolis. 

Já em Catarina, apesar da origem controversa, a teoria mais aceita é a contada pelo tabelião José Feitosa Chaves, que, segundo dados do IBGE, afirma que o nome da localidade está ligado a Catarina Cardoso da Rocha Macrina. 

Casada com Francisco Alves Feitosa, pioneiro na exploração da região, ela teria sido a primeira mulher a habitar aquele território, pioneirismo posteriormente homenageado por um descendente, o Coronel Leonardo Feitosa. 

Ao tomar posse da sesmaria — porção de terra concedida pela Coroa de Portugal — do rio do Jucá, no século XVIII, ele decidiu nomear uma das estruturas geológicas do território de serra de Santa Catarina. Apesar de recorrer à mártir católica, o latifundiário teria escolhido o nome em referência à familiar. 

Então, por volta de 1880, a localidade, que originou o município, passou a também adotar a nomenclatura de Santa Catarina. Com o passar do tempo, o substantivo religioso caiu, ficando apenas “Catarina”. 

Outra versão é que a cidade homenagearia outra mulher: Catarina de Albuquerque. Ela seria fruto da união entre Jerônimo de Albuquerque e a indígena Maria do Espírito Santo Arcoverde, filha de Arcoverde, cacique da etnia Tabajara, de Pernambuco.

Entretanto, essa sugestão é tida como controversa, conforme o IBGE, já que o nome possui origem latina e supostamente, no século XIX, não haveria possibilidade de uma nativa ser batizada com um termo que não fosse da família linguística tupi-guarani.

Diferentes das outras duas, Barbalha não homenageia uma matriarca fundadora, mas, sim, uma das primeiras moradoras da localidade do Cariri. De acordo com o turismólogo Edson Neto, guia de turismo da cidade, o nome é uma referência a Dona Barbalha, uma mulher dona de um albergue às margens do Rio Salamanca. 

Pela sua hospitalidade, ela teria se destacado na região e esse traço foi o motivo que fez ela ser escolhida para nomear o município, segundo a Secretaria Municipal de Turismo. A homenagem destacaria um traço cultural do local: a recepção caseira. 

Antonina do Norte: uma quase homenagem ao Santo Antônio

Inicialmente, a população do então município de Mocambo — referência à fazenda homônima que deu origem ao local — desejava que o novo topônimo local homenageasse o padroeiro: Santo Antônio. Entretanto, devido a alguns impedimentos, não foi possível usar o nome do frade português, conforme informações do Inesp. 

Igreja Matriz de Antonina do Norte, dedica ao padroeiro Santo Antônio.
Legenda: Igreja Matriz de Antonina do Norte, dedica ao padroeiro Santo Antônio.
Foto: Reprodução/IBGE.

Diante do impasse, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) adotou para a localidade o nome Antonina, por sugestão do então deputado estadual e ex-governador Plácido Aderaldo Castelo. A escolha foi uma referência ao nome da mãe dele: Antonina Aderaldo Castelo. 

Já o complemento “do Norte” foi adicionado à localidade para diferenciá-la da cidade paranaense de Antonina, na região Sul do País, de acordo com a prefeitura. 

Madalena: inspirada por uma vítima da seca

Em Madalena, uma vítima da seca e da fome é quem inspira o nome da localidade.
Legenda: Em Madalena, uma vítima da seca e da fome é quem inspira o nome da localidade.
Foto: Reprodução/Ana Francinete Pinho.

Uma vítima da estiagem e da miséria teria inspirado o nome da cidade do Sertão de Canindé. Ao Diário do Nordeste, a professora do município, Kadira Dias, detalha que uma das teorias locais é que o topônimo faz referência a uma mulher que faleceu ao passar pela localidade durante um período de seca intensa.

Sem acesso a água e a alimentos, ela teria morrido. Quando o corpo dela foi encontrado verificaram que se chamava Madalena, e assim teria nascido o nome da cidade. Inclusive, a localidade onde a moça foi supostamente encontrada é conhecida até hoje como Madalena Velha.  

Iracema: das páginas de José de Alencar ao mapa do Ceará

Originalmente povoado por Paiacus e Carati, da etnia indígena Tapuia, segundo o Inesp, a localidade do Vale do Jaguaribe teve influência da cultura indígenas nos nomes que adotou ao longo da história. 

O primeiro deles foi Quixoassú ou Quixó-açú — que significa caça grande —, posteriormente mudado para Quixoacó, ou Quixoxó e, por fim, Caixa-só, detallha Márlio Fábio Pelúcio Falcão no livro “Pequeno dicionário toponímico do Ceará”. 

A referência à população nativa seguiu no topônimo quando a povoação foi elevada à vila, em 1890, e adotou o nome de Iracema, inspirada pela obra homônima do escritor cearense José de Alencar, lançada cerca de 25 anos antes, conforme dados do portal da prefeitura local. 

No romance, a indígena Iracema vive uma história de amor com o aventureiro português Martim. A obra é uma representação do “mito fundador da nação brasileira” ao mostrar o encontro entre o colonizador português e os colonizados nativos, assim como também reflete a origem do Ceará, conforme afirma ensaio escrito por Vagner Camilo, professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP). 

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