O Sertão ainda vai dar trabalho à museologia
Exposições reúnem trabalhos em diferentes linguagens, como xilogravura, pintura e escultura.
Janeiro de 2008. Redação da Folha de S.Paulo, na alameda Barão de Limeira, área central da capital paulista. Havia assumido posição de redator na Ilustrada, o prestigiadíssimo suplemento de cultura, um dos poucos que ainda restam no jornalismo brasileiro, tão fático e pouco contemplativo.
Deslumbrado, satisfeito ao conviver com aqueles colegas que tanto admirava, ofereci uma pauta: a exposição "Marilyn Monroe - O Mito e Telma Saraiva - A Procura de um Mito", realizada numa galeria em São Paulo entre 26 de janeiro e 23 de março daquele ano, com curadoria de Diógenes Moura. Ao apresentar a sugestão, uma colega disse que considerava aquelas fotos “bregas”, “cafonas”, sem lastro para uma reportagem.
Sim, em plena Pauliceia Desvairada, terra de Mário de Andrade, não haveria espaço para a antropofagia artística de Telma Saraiva, fotógrafa inovadora na técnica da fotopintura. Nasceu, viveu intensamente e morreu no Crato. Apaixonada pelo cinema, pintou autorretratos em que aparecia como divas da sétima arte, incluindo Monroe. Sugiro aos leitores que assistam a docficção "Todas as Vidas de Telma", de Adriana Botelho, e visitem o museu dedicado à artista, sobre o qual já escrevi aqui.
O nome da colega da Folha? Esqueci-me. A fala dela, não.
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Porque esse episódio me remete a uma discussão formulada por intelectuais que estudam as marcas do colonialismo em nossas sociedades, a exemplo de Eduardo Galeano no seu clássico "As Veias Abertas da América Latina".
Essas hierarquias também se reproduzem na cultura: o eurocentrismo se sobrepõe às referências culturais brasileiras, enquanto olhares sulista e sudestino frequentemente subjugam nortistas e nordestinos. Estes, por sua vez, a partir de suas capitais banhadas pelo Atlântico e inspiradas em Miami (nem todas), também reproduzem hierarquias e subjugam os viventes do Sertão. E assim segue o ciclo.
Apesar de incômoda, essa constatação vem sendo criticada em diferentes segmentos. Está, por exemplo, naquele diálogo de "Bacurau", longa-metragem dos pernambucanos Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, em que um casal de brasileiros do Sul se apresenta como branco diante de estrangeiros, que respondem que eles não são brancos como eles.
Corta.
Crato. Centro Cultural do Cariri Sérvulo Esmeraldo, homenagem ao artista plástico cearense reconhecido por suas esculturas geométricas. Entro na galeria "Encandear", uma das três que compõem a exposição "Cariri: corpo, terra e cultura".
Adivinha quais são as primeiras fotos que vejo? Telma Saraiva, ela mesma, não seus autorretratos. A fotógrafa aparece divertindo-se no Carnaval do Crato Tênis Clube e em outros registros, um deles ao lado de uma amiga, sentada na praça Francisco Sá, conhecida pelo nome de seu monumento, Cristo Rei.
Ao lado, fotografias trazem à luz famílias originárias de quilombos, questionando a afirmação, repetida pelo senso comum, de que no Ceará não haveria pretos. Chama a atenção também um retrato do saudoso Jonathan Kiss, promotor de eventos. São histórias que precisavam ser contadas, trajetórias que mereciam preservação na memória coletiva.
Entre essas histórias, está a de Dona Gilbertina das Neves Carvalho. Mulher preta, mãe de dez filhos, trabalhadora da saúde e defensora da educação, Dona Gil nasceu em Saco dos Cansanção, em Araripina, Pernambuco, e chegou ao Crato ainda criança. Durante 36 anos, trabalhou como servidora pública da saúde, passando pelo posto da Grota, pela unidade da avenida Teodorico Teles e pelo Sandu.
A filha Verônica Carvalho afirma que Dona Gil pode ter sido a primeira mulher assumidamente preta a concluir um curso superior na Faculdade de Filosofia do Crato, que deu origem à URCA.
Gostava de viajar, comer bem e ouvir rádio. Levava um pequeno aparelho de pilha na bolsa e caminhava da Vila Alta até o trabalho acompanhada pelas notícias. Dona Gil acreditava na luta antirracista e foi secretária do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec). Aos filhos e às filhas, repetia uma máxima: “Melhor morrer de pé que viver de joelhos”.
São muitas as fotografias nessa galeria. Para o curador adjunto Francisco Pereira, a "Encandear" parte da luz como evidência concreta e símbolo, que resplandece no Cariri, ajudando a compreender movimentos culturais, como a Romaria de Nossa Senhora Candeias, em Juazeiro do Norte.
A exposição "Cariri: corpo, terra e cultura" reúne mais de 170 artistas e aproximadamente 2.300 itens, distribuídos em três núcleos: "Anunciação", "Encandear" e "Abrir com Mãos Afiadas o Caminho".
Diretora do Centro Cultural do Cariri, Rosely Nakagawa afirma que a exposição é resultado de quatro anos de escuta e investigação:
“Saber chegar ao território, construindo um tempo de compreensão, no sentido de entender e fazer parte, de ter empatia e conexão entre razão e emoção, consideramos esta mostra a culminância deste tempo de convivência com a cultura dos 29 municípios do Cariri.”
Para o curador Bitu Cassundé, o projeto era um desejo antigo da gerência de Patrimônio e Memória e resulta de programas desenvolvidos nos últimos quatro anos, entre eles "Corpo, Terra e Cultura" e "Gira de Terreiro", que serviram de alicerce para a mostra.
Ao lado de "Encandear", está "Anunciação", que, nas palavras do curador, apresenta um Cariri clássico, com o espaço organizado em quatro núcleos: a festa, o sagrado, a oralidade e, por fim, a vida e a natureza.
A terceira galeria abriga "Abrir com Mãos Afiadas o Caminho", que reúne trabalhos de artistas contemporâneos e tradicionais em diferentes linguagens, como xilogravura, pintura e escultura.
Nestes 44 anos de vida, atuando como jornalista em diferentes cidades de três regiões brasileiras (Sul, Sudeste e Nordeste), tive a oportunidade de visitar museus e apreciar exposições na Pinacoteca de São Paulo, no Masp, no Margs e no Iberê Camargo, além das Bienais de São Paulo e do Mercosul.
Ter a oportunidade de apreciar uma exposição tão generosa no Centro Cultural do Cariri é sinal de que a luta decolonial está vencendo algumas batalhas.
Nosso Sertão ainda vai dar muito trabalho à museologia e à curadoria das artes, para o encantamento de todos nós, brasileiros da Caatinga ao Pampa, da Mata Atlântica ao Pantanal, da Amazônia ao Cerrado, almas viventes deste país continental, onde cabe a Europa toda e ainda sobra espaço.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.