Huberto Cabral, um guardião da memória do Cariri

Memorialista foi testemunha de bastidores que guardaram a origem de episódios marcantes.

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues (o PH) producaodiario@svm.com.br
Legenda: Memorialista e jornalista Huberto Cabral faleceu aos 89 anos.
Foto: Elizângela Santos.

Francisco Huberto Esmeraldo Cabral dedicava cada dia dos seus 89 anos a uma missão: guardar a memória do Cariri, especialmente do Crato, cidade onde nasceu, viveu e morreu. Fazia isso com tanta disciplina que a sua presença tornou-se obrigatória em qualquer solenidade que se levasse a sério. 

Em inaugurações, podiam ser dispensados o corte da faixa e o descerramento da placa, mas jamais Huberto Cabral. Ele precisava subir ao palco para conduzir e atestar a importância da data, do local, das pessoas que ali estavam e das que estiveram antes de nós.

Até porque, em alguns casos, ele era a única testemunha viva, graças à sua longevidade brindada com uma memória intacta e invejável.

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Toda vez que havia uma cerimônia, o mestre chegava de forma discreta, geralmente vestido em suas mangas de camisa; educado, falava baixo, com aquela dicção característica que exigia mais atenção de quem o ouvia.

À mão, trazia uma ou mais páginas com linhas sobre o evento da vez. Independentemente do lugar no Crato em que se estava, Cabral sempre tinha o que dizer e sobre o que escrever na sua máquina de datilografia nunca abandonada por um computador.

Trago um exemplo: a Praça da Sé. Quem tivesse a sorte de encontrar Cabral passando com seu caminhado ligeiro pelo centro e perguntasse sobre o cartão-postal, logo ouviria: em 3 de maio de 1817, neste local, a heroína Bárbara de Alencar e seus filhos proclamaram a república, cinco anos antes do Brasil se tornar independente de Portugal.

Eram muitos fatos, nomes e datas, repertório construído através da leitura de livros e jornais e da coragem de trabalhar. Cabral tinha faro para a notícia e segurança para apontar o microfone no tempo em que se usava apenas gravador de fita.

Grupo de pessoas reunidas na entrada de um prédio público com paredes amarelas e laranjas. À direita, um homem idoso de camisa social listrada de mangas compridas e calça cinza observa o evento de pé ao lado de um arbusto com flores vermelhas.
Legenda: Independentemente do lugar no Crato em que se estava, Cabral sempre tinha o que dizer.
Foto: Elizângela Santos.

Dos causos contados por ele, gostava de recordar a vez em que entrevistou o seu quase xará Humberto (com M) Castello Branco, que veio ao Crato para o bicentenário de emancipação dias após assumir o governo implantando com o golpe de 1964.

"Arranjei um crachá da Casa Militar e entrei no avião, enquanto tinha mais de 100 jornalistas na pista, esperando para entrevistá-lo. Quando entrei, ele me reconheceu. Porque ele tinha vindo ao Crato em 1953 e nós nos conhecemos", contava em suas entrevistas, dando aqui outra lição: o cultivo da fonte, a educação no trato pessoal, que comove até o interlocutor de coração mais pedregoso.

Além da memória excelente, Cabral era um repórter de dar inveja a Forrest Gump, sempre presente em momentos cruciais, testemunha de bastidores que guardaram a origem de episódios marcantes.

Um que gostava de contar era sobre o gibão de vaqueiro que o empresário Assis Chateaubriand fez vestir o premiê inglês Winston Churchill em 1953.

Antes de ir à terra da Rainha Elizabeth II, então recentemente coroada, Chatô havia passado pelo Crato, onde inaugurou uma rádio do seu conglomerado. Na solenidade aqui, sob o olhar curioso do jovem Cabral, o empresário ganhou a indumentária. Tempos depois, apareceria com ela para causar em Londres.

Presença insubstituível

Desde que adoeceu, as solenidades no Crato estavam menos interessantes. Cabral já fazia falta. A Expocrato deste ano, agora a festa da padroeira Nossa Senhora da Penha, começávamos a sentir a ausência do mestre, que estava hospitalizado. Torcíamos pela sua recuperação. Queríamos mais tempo com Cabral, na esperança de novos aprendizados.

Porém, veio a despedida nesse 24 de agosto, que, parafraseando o mestre, lembro tratar-se também do Dia Nacional da Infância e do Artista e ainda do suicídio do presidente Getúlio Vargas.

Quantos jornalistas, como eu, recorreram à sua sabedoria para contar histórias deste Cariri. Muitos de nós tivemos o prazer de prosear com ele e de ouvi-lo.

Huberto Cabral foi exemplo da inteligência natural que máquinas fracassam em tentar imitar, memória viva só construída por seres de carne, osso e alma. Descanse em paz e muito obrigado.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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