Casa de Patativa do Assaré restaura memória da infância no Interior

Residência que abrigou e inspirou o poeta é símbolo da vida no Sertão.

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues (o Ph) producaodiario@svm.com.br
Legenda: Quarto onde viveu o poeta cearense Patativa do Assaré.
Foto: Darlene Barbosa.

Casas de taipa talvez tenham sido uma arquitetura comum na infância dos leitores, em especial os que têm mais de 40 anos. Tivemos avós ou bisavós que viviam dessa forma, mesmo em cidades como Fortaleza e Juazeiro do Norte, onde os arranha-céus deixam esse passado ainda mais distante. 

Para quem ainda não puxou da memória, faço referência àquelas casas da zona rural do Nordeste, com quatro ou menos cômodos, geralmente banheiro do lado de fora. Residências, que, em vez de tijolos, têm paredes construídas com madeira entrelaçada preenchida por barro, algumas vezes cobertas com palha de palmeiras nativas, como babaçu. 

Nesta crônica, trago fotos de uma casinha desse mesmo tipo e que fica na zona rural de um município do Cariri: a moradia do agricultor e poeta Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), o Patativa do Assaré.

Veja também

A residência que fica na Serra de Santana, a 18 quilômetros da sede, acaba de ser restaurada e está sendo mobiliada com objetos do cotidiano rural: cabaça, caçuá, fogão a lenha, pote de barro. Esse universo sertanejo inspirou o poema Casinha de Palha: 

Lá naquela casinha de palha 
Rodeada de pé de fulô 
Reina a parte melhor do meu sonho 
Foi lá onde nasceu meu amor 
Eu não dou a casinha de palha 
No palácio do imperador 

Uma vista interna de uma sala de jantar simples dentro de uma casa de taipa com paredes de barro caiadas de branco e um telhado de madeira e palha exposto. Uma mesa de madeira com uma toalha de renda e quatro cadeiras está no centro. Uma lanterna a querosene está pendurada no telhado. Há uma pequena janela de madeira e um oratório na parede.
Legenda: Detalhes da casa de Patativa fazem eco a milhares de residências no interior do Ceará.
Foto: Darlene Barbosa.

E não deu mesmo. Patativa morou nela até se casar, em 1936. A residência de taipa ficou com a família do irmão mais velho dele, depois com herdeiros, até ser adquirida ano passado pela Universidade que leva o nome do poeta, com o objetivo de restaurá-la e transformar em centro cultural: 

“É uma casa de grande valor histórico e sentimental, tanto para admiradores como para a família, berço da poesia, casa onde o poeta recebia os repentistas de toda a região, casa onde o poeta e irmãos cresceram, casa onde ele pôde viver os poucos anos que teve na presença do pai”, conta o poeta Daniel Gonçalves, neto de Patativa, que recorda que o avô perdeu o pai quando tinha apenas 8 anos.  

O motivo do apego de Patativa àquela casinha talvez esteja eternizado nestes versos de Casinha de Palha: 

Ela é a maior testemunha 
Do meu tempo feliz que passou 

Essas casinhas de palha dos nossos antepassados foram a alternativa viável para famílias de baixa renda num tempo em que cimento, telha e tijolo eram quase inacessíveis. A urbanização, com o crescimento da indústria da construção civil e o surgimento de programas de habitação popular, é principal motivo do desaparecimento desse tipo arquitetura.

Uma fotografia ao ar livre sob um céu azul brilhante e sol intenso mostra uma casa de taipa com telhado de cerâmica. Várias pessoas estão reunidas e sentadas ao longo da base da casa, que tem paredes de barro e portas de madeira. O chão à frente é de terra batida vermelha. Árvores e palmeiras cercam a propriedade.
Legenda: Restauração da casa de Patativa do Assaré foi inaugurada em julho de 2026.
Foto: Darlene Barbosa.

Outra questão envolve saúde pública, o combate à doença de Chagas, como explica Simone Freitas, pesquisadora da Fiocruz Piauí, cujo avô morava em casa de taipa na localidade do Amaro, também na zona rural de Assaré: 

“A associação da casa de taipa com o barbeiro é porque é o tipo de moradia mais comum em localidades rurais. E os barbeiros são insetos que vivem naturalmente na mata, eles aparecem mais comumente nas casas de localidades rurais".

"O que acontece é que ele é um inseto que tem hábito alimentar noturno, ficando escondido em abrigos durante o dia. Então, a casa de taipa favorece esse esconderijo. Mas eles ficam em casa de alvenaria também, desde que possam se esconder.” 

Foi nessas moradias que nordestinos construíram suas famílias, criaram seus filhos e viveram os anos de infância e juventude.

É uma arquitetura que, como bem disse o poeta, testemunhou o modo de viver que, apesar de precário, deixou saudade a muita gente. Filha de Patativa, Inês Cidrão Alencar, aos 87 anos, compartilhou memórias da vida na casinha: 

“A gente foi muito pobre, naquela época era trabalhando no roçado. A gente ia com ele, e ele dizia que a gente fosse na frente e ele ficava atrás. Ele tirava todo o tempo da roça trabalhando também nas poesias dele. Quando era à noite, depois da janta, ele chamava todo mundo para se sentar perto. E ia declamar o poema que tinha feito durante o trabalho”, disse em entrevista à repórter Darlene Barbosa, da TV Verdes Mares Cariri. 

Um retrato em close de uma idosa com cabelos brancos presos, sentada em uma cadeira de madeira e couro ao ar livre. Ela usa uma blusa azul marinho e tem a mão direita estendida, com a palma voltada para cima, como se estivesse gesticulando. Ao fundo, vê-se a parede de uma casa de taipa com telhas de cerâmica sob luz solar e árvores.
Legenda: Inês Cidrão Alencar é filha de Patativa do Assaré.
Foto: Darlene Barbosa.

Patativa compunha mentalmente as suas estrofes, como explicou em entrevista a Jô Soares em 1993: 

“Faço meu verso pensando e deixando retido na memória. Pode ser um poema de 30 estrofes. Eu saio pensando, deixo uma, a segunda, a terceira, quando eu terminar o poema, eu recito para mim mesmo.” 

E ele tinha como inspiração o viver, o fazer e o lugar em que estava. Na mesma entrevista ao Jô, explicou que a distância da casinha para a sede fez parte das circunstâncias que o levaram a compor a famosa poesia da "Prefeitura Sem Prefeito", após três tentativa de encontrar o gestor, versos que o levaram a ser detido para prestar esclarecimentos. 

Ainda que alguém me diga 
Que viu um mudo falando 
Um elefante dançando 
No lombo de uma formiga 
Não me causará intriga 
Escutarei com respeito 
Não mentiu esse sujeito 
Muito mais barbaridade 
É haver numa cidade 
Prefeitura sem prefeito 

E aí está a genialidade de Patativa, que ganhou o apelido por lembrar a espontaneidade do canto do pássaro: ele viveu na roça e usou seu talento para narrar em versos a vida dos nossos antepassados. 

“Nós tivemos a preocupação de preservar. O telhado permanece o mesmo, o reboco com a mesma estrutura e cor. Nosso objetivo foi manter a integridade histórica e a simplicidade que definem a vida do poeta” disse Francisco Palácio Leite, diretor cultural da Patativa do Assaré em entrevista à TV Verdes Mares Cariri.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

Assuntos Relacionados