Bispo de Sobral suspende uso de IA em paróquias da Diocese; entenda

Decisão ocorre, segundo Pascom, diante de erros em edições de artes e ‘para evitar riscos’.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
22 de Agosto de 2026 - 07:00
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Legenda: Igreja da Sé, em Sobral, um dos principais pontos da cidade.
Foto: Marcelino Júnior.

Está temporariamente suspensa a criação de artes e imagens com auxílio de inteligência artificial (IA) nas publicações oficiais da Diocese de Sobral e suas paróquias vinculadas. O comunicado, anunciado na última terça-feira (18) nas redes sociais da própria diocese, é assinado pelo bispo, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, e compreende comunidades e demais organismos diocesanos.

A medida, conforme o texto, permanecerá em vigor “até a realização de uma formação específica, que orientará sobre o uso responsável, adequado e consciente da Inteligência Artificial na comunicação da Igreja”. A data da formação ainda será informada. Até lá, o bispo pede apoio de todas as equipes de comunicação.

Para que se abstenham de utilizar conteúdos virais gerados por IA nas publicações oficiais”, justifica-se. “Contamos com a compreensão, o compromisso e a colaboração de todos para que nossas ações de comunicação estejam em sintonia com as orientações da diocese”.

Coordenador da Pastoral da Comunicação (Pascom) da diocese, padre Josivan de Carvalho Cruz explica a decisão tomada pelo bispo. Segundo ele, a Igreja Católica, em geral, orienta formações contínuas às diferentes pastorais. 

“Vendo alguns lugares em que há erros em edições de artes e na comunicação entre Igreja, o povo e as redes sociais, sentiu-se a necessidade de explanar melhor o tema da IA”, diz. 

Papa pede ‘olhar mais atencioso’

O sacerdote – participante do 13º Seminário de Comunicação Social, sobre desafios da comunicação humana entre transmídia, IA e desinformação, no Rio de Janeiro – também menciona o Vaticano diante da postura da Igreja Católica de Sobral.

O Papa Leão XIV nos pediu um olhar mais atencioso para o uso correto da IA, principalmente para não perder a capacidade de se criar e utilizar os dons. Foi simplesmente por isso, e para não correr o risco de cair em erros ortográficos ou questões de direito de imagem”, prossegue, justificando a decisão diocesana.

“O posicionamento da diocese de Sobral foi para ajudar nossas paróquias e os que utilizam as redes sociais para que saibam melhor os riscos que a IA coloca diante da utilização dela. Vamos formar nossas pastorais para usarem com discernimento e ética”.

No último mês de maio, durante a primeira encíclica sobre IA, o Papa Leão XIV pediu o "desarmamento" dessa nova tecnologia e alertou contra "novas formas de escravidão" por meio dela. "Desarmar a IA significa removê-la da lógica da competição armada", escreveu ele na exortação apostólica Magnifica Humanitas

Em primeira encíclica sobre IA, o Papa Leão XIV pediu o
Legenda: Em primeira encíclica sobre IA, o Papa Leão XIV pediu o "desarmamento" dessa tecnologia.
Foto: Tiziana Fabi/AFP.

No documento, de 130 páginas, o sacerdote criticou "uma corrida pelo algoritmo mais poderoso e pelo maior banco de dados" para obter uma "vantagem geopolítica ou comercial". "Desarmar não significa abandonar a tecnologia, mas impedir que ela controle a humanidade", advertiu o Papa.

O texto serve de base para a doutrina católica e para um compromisso de longo prazo com o tema. 

Decisão acontece em outras dioceses e paróquias

Nos últimos dias, dioceses em todo o Brasil emitiram comunicados semelhantes nas redes sociais. No Maranhão, a Paróquia Santa Luzia, no município de Buriticupu, interior do Estado, descreveu em detalhes a tomada de decisão.

“Temos percebido em nosso meio a popularização do uso de imagens geradas por IA; essas artes por vezes alteram as feições de pessoas, gerando descaracterização facial e ruído na identificação visual”, inicia o texto.

Na sequência, cita a mensagem do Papa Leão XIV para a 60ª edição do Dia Mundial das Comunicações Sociais, a partir do tema “Preservar vozes e rostos humanos”.

Conforme a publicação, o pontífice ressaltou neste ano que o rosto humano “é reflexo da dignidade da pessoa criada à imagem de Deus e sinal único de sua identidade”.

Por fim, a paróquia declara suspensa a utilização de artes e imagens produzidas com uso de IA nas publicações oficiais do perfil da casa, centralizando na Pascom a produção de peças gráficas, mediante contato com coordenadores de comunidades, pastorais, entre outros.

Outra paróquia que se posicionou, na última quarta-feira (19), foi a de Nossa Senhora da Conceição, em Tururu, interior cearense, pertencente à Diocese de Itapipoca. Estão temporariamente suspensas as artes e imagens produzidas com o auxílio de IA destinadas às publicações oficiais da Matriz e de todas as comunidades paroquiais até nova orientação.

A reportagem entrou em contato com a Arquidiocese de Fortaleza para saber se há um regulamento específico desenvolvido por ela sobre o tema. De acordo com a assessoria, não há diretrizes oficiais.

“Contudo, o tema da IA e a utilização dela em âmbito arquidiocesano está submetido em um GT (Grupo de Trabalho) do Sercom (Serviço de Comunicação), que está em formação”, informou. 

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