Em sua primeira encíclica sobre inteligência artificial (IA), nesta segunda-feira (25), o Papa Leão XIV pediu o "desarmamento" dessa nova tecnologia e alertou contra "novas formas de escravidão" por meio da IA.
"Desarmar a IA significa removê-la da lógica da competição armada", escreveu ele na exortação apostólica "Magnifica Humanitas". Entre os especialistas em IA presentes no Vaticano para a apresentação da encíclica estava Christopher Olah, cofundador da empresa americana Anthropic.
No documento de 130 páginas, Leão XIV criticou "uma corrida pelo algoritmo mais poderoso e pelo maior banco de dados" para obter uma "vantagem geopolítica ou comercial". "Desarmar não significa abandonar a tecnologia, mas impedir que ela controle a humanidade", advertiu o Papa. A IA deve ser "humana", acessível a todos e aberta à discussão e ao debate.
O texto serve de base para a doutrina católica e para um compromisso de longo prazo com o tema. Leão XIV cita não apenas o filósofo grego Platão, o pintor Pablo Picasso e Ludwig van Beethoven, mas também um personagem da saga "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien. A publicação sucede vários anos de estudos da Igreja sobre o assunto; o Vaticano já havia publicado o "Apelo Romano sobre a Ética da IA" em 2020.
Veja também
O Papa Leão XIV alertou para "novas formas de escravidão" provocadas pela IA e pela transformação digital. Ele afirmou que o aumento da eficiência ou da inovação não justifica "uma cadeia de exploração deliberadamente mantida oculta".
Leão também pediu que se faça mais para reduzir os danos ambientais causados pela IA e "para proteger nossa casa comum". Ele observou que, em algumas partes do mundo, crianças e jovens trabalham em condições perigosas na extração de elementos de terras raras. "Corpos marcados, mutilados e exaustos, para que o fluxo da computação não seja interrompido", denunciou o Papa.
PEDIDO DE DESCULPAS PELA ESCRAVIDÃO
Leão XIV pediu desculpas pela hesitação secular da Igreja Católica em condenar a escravidão. Ele salientou que a própria Igreja havia possuído escravos até a Idade Média. Somente no século XIX, escreveu o Papa, foi formulada uma "condenação formal, absoluta e universal da escravidão". "Isso representa uma ferida na memória cristã da qual não podemos nos considerar curados."
O cofundador da Anthropic, Olah, acolheu favoravelmente as contribuições de pessoas de fora, como a Igreja, para "direcionar as coisas para um caminho melhor". Ele afirmou que as questões levantadas pela IA são "maiores do que a comunidade de pesquisa em IA". As empresas de IA operam "dentro de uma estrutura de incentivos e restrições que, por vezes, podem entrar em conflito com a prática correta".