Júlia, uma criança com paralisia cerebral, tinha apenas 9 anos de idade quando sofreu uma broncoaspiração seguida de uma parada cardíaca prolongada. Era junho de 2019 e ela teve morte encefálica. No dia mais difícil da vida de Rosa Ester Fontenelle Chaves Ribeiro, mãe de Júlia, ela transformou a dor em solidariedade para salvar outras crianças.
Enfermeira do centro cirúrgico do Hospital Regional Norte (HRN), em Sobral, Ceará, autorizou a doação dos órgãos da filha no mesmo hospital onde trabalha. Com o sim, foi possível captar fígado, os rins e as córneas que seguiram por 200 km via aérea para Fortaleza, onde foram destinados a pacientes que aguardavam na lista por um transplante.
No processo de Júlia, ela permaneceu internada por cerca de 10 dias. Pela experiência na enfermagem, Rosa percebeu que a filha não reagia aos estímulos mesmo após a suspensão da sedação, e ela mesma levantou a hipótese de morte encefálica à equipe médica.
O diagnóstico foi confirmado após a realização do protocolo previsto em lei. “Nesse momento muito doloroso eu pensei que eu não queria dividir essa dor com outras famílias. Imaginei que outras mães poderiam estar dependendo desses órgãos”, relembra.
A decisão foi compartilhada com o marido e os demais familiares. Para Rosa, doar os órgãos da filha significava transformar o luto em esperança. O processo também teve outros significados, e a retirada dos órgãos aconteceu no ambiente onde ela trabalha diariamente. No Hospital localizado na zona Norte do Estado, onde um dos papéis foi ampliar a captação de órgãos fora de Fortaleza, os colegas de trabalho de Rosa participaram da cirurgia de captação e acompanharam a despedida.
“Ela (a filha) foi para o centro cirúrgico no meu local de trabalho. Os técnicos e os enfermeiros eram meus colegas. Quando ela entrou no centro cirúrgico, estava todo mundo chorando. Chorou o anestesista, o maqueiro, o médico, as enfermeiras. Eu só queria que ela descansasse e que conseguisse ajudar outras crianças”.
A experiência mudou também a trajetória profissional da enfermeira. Além de continuar atuando no centro cirúrgico da unidade, Rosa passou a integrar a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT), responsável por identificar potenciais doadores e acompanhar os protocolos de morte encefálica.
O Diário do Nordeste veicula neste mês a série de reportagens multimídia “EntreLaçados, a rede que move transplantes no Ceará” e revela bastidores de um processo que, guiado pela ciência, entrelaça para sempre pessoas, profissionais e sensações como esperança, solidariedade, luto, dor, amor e vitória. Além de reportagens no site, o especial traz um mini documentário focado no tempo e no processo das esperas por transplante, publicações nas redes sociais, episódios de podcast e uma newsletter.
Escute o segundo episódio do podcast “Entrelaçados”:
Distâncias desafiam a logística dos transplantes
A história de Júlia e a da família, além da relevância da solidariedade para garantir a doação, ilustra outra característica indispensável do sistema brasileiro de transplantes: em um país de dimensões continentais, a doação precisa ultrapassar barreiras territoriais para que o maior número possível de órgãos encontre um receptor compatível antes que o tempo de preservação do órgão fora do corpo se esgote.
Essa logística no Brasil ainda está concentrada em deslocamentos regionais, e isso faz com que, de modo geral, por exemplo, o Ceará consiga enviar e receber com mais facilidade órgãos para os estados nordestinos. Mas isso não é uma regra e nem inviabiliza deslocamentos mais distantes. Essa integração nos processos entre os estados e cidades, inclusive, têm permitido ao Brasil reduzir perdas de órgãos e ampliar as chances de quem aguarda na lista de espera.
O território cearense tem ainda outro elemento que interfere positivamente no aumento de oportunidades: o Estado aumentou a rede de captação de órgãos no interior, ao menos, na última década, conforme evidenciado pela captação no Regional Norte. Um passo fundamental em um país que, somente no ano passado, tinha 73 mil pessoas na lista de espera, conforme o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO).
Esse “intercâmbio” entre os estados fez com que em 2025 o Ceará recebesse órgãos provenientes de nove unidades da federação (Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Sergipe) e enviar doações para dez (Pernambuco, Rio Grande do Sul, Amazonas, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Distrito Federal, Goiás, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro). Essa dinâmica envolve principalmente o transporte de rins e fígados.
Outro aspecto que também define as possibilidades de aumento de transplantes de órgãos, é o quão concentrados eles estão em determinados territórios. No Ceará, as cirurgias do tipo só são feitas em Fortaleza, onde 11 hospitais públicos e privados realizam os procedimentos. Outras 17 unidades, distribuídas entre a capital e o interior, fazem outros transplantes como o de tecidos, a exemplo das córneas, segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa).
Aumento da identificação de potenciais doadores
Apesar da concentração dos centros transplantadores na Capital, a identificação de potenciais doadores e a retirada dos órgãos têm ocorrido de forma cada vez mais descentralizada no Estado.
Assim, quando a morte encefálica é confirmada em um dos hospitais regionais nas regiões Norte, Cariri, Sertão Central, Vale do Jaguaribe e Litoral Oeste/Vale do Curu (Itapipoca), a captação é realizada na própria unidade e o órgão segue viagem até Fortaleza ou, quando necessário, para outros estados brasileiros. Essa dinâmica faz com que os órgãos percorram centenas ou até milhares de quilômetros em poucas horas ou minutos.
A série histórica de transplantes realizados no Ceará evidencia uma tendência de crescimento ao longo da última década, apesar da queda registrada durante a pandemia de Covid-19. Após atingir cerca de 1,8 mil procedimentos em 2016, o número oscilou entre 1,5 mil e 1,6 mil transplantes anuais até 2019, caiu para 1,1 mil em 2020 e voltou a crescer de forma contínua, alcançando pouco mais de 2 mil procedimentos em 2025, o maior resultado da série, conforme dados Sesa.
Especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste apontam que esse avanço pode decorrer de diferentes fatores, como o aumento da autorização familiar para a doação, o fortalecimento dos serviços transplantadores e a qualificação das equipes.
Mas, um dos principais aspectos no Ceará, apontam de modo reiterado, é ampliação da rede de hospitais aptos a identificar potenciais doadores e realizar a captação de órgãos.
Um dos profissionais que aponta a interiorização da captação como decisiva para ampliar o número de transplantes realizados no Ceará é o coordenador técnico do Programa de Transplante Hepático do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), o cirurgião André Macedo.
“Há 15 anos o Estado do Ceará fazia, em média, em torno de 50 transplantes por ano. Hoje nós fazemos mais de 250 transplantes por ano. Certamente isso se deve às políticas públicas de ampliação dos serviços, principalmente no interior. Os hospitais regionais foram bastante estratégicos nessa mudança em fazer aumentar o número de doações e, consequentemente, aumentar o número de transplantes”.
Apesar do avanço, ele chama atenção para um obstáculo persistente: a recusa das famílias.
“A gente precisa trabalhar mais justamente para diminuir essa quantidade de negativas familiares. Ano passado, pelos dados da ABTO, tivemos quase 50% de negativas familiares. É um número muito expressivo. Teríamos condições de praticamente dobrar o número de transplantes realizados no Brasil”, afirma.
No Estado, segundo a Sesa, há 57 hospitais entre públicos, privados e filantrópicos que são notificantes, ou seja, são estabelecimentos de saúde que conseguem identificar e notificar de casos de morte encefálica. As unidades com este perfil têm profissional médico habilitado a realizar o exame clínico previsto no Protocolo de Morte Encefálica, além de suporte de ventilação mecânica para o potencial doador.
O número de hospitais notificantes pode variar a cada ano, pois isso está relacionado, conforme a Sesa, a ampliação da rede de atenção ao paciente crítico, à expansão do número de leitos e à habilitação de novos profissionais para o diagnóstico de morte encefálica.
Todos os hospitais regionais da rede estadual (do Cariri, do Norte, do Sertão Central, do Vale do Jaguaribe e o de Itapipoca), cujo ciclo de inauguração teve início em 2011, atuam como hospitais notificantes de casos de morte encefálica.
As unidades, iniciaram esse processo, de modo geral, um ano ou dois, após a abertura dos atendimentos à população. Além dessas unidades e das que ficam na capital, outros hospitais do interior também integram a rede notificante.
Apesar da característica, a Sesa ressalta que nem todos os hospitais notificantes conseguem efetivar uma doação. Isso porque a notificação de morte encefálica é obrigatória e independe da viabilidade clínica para a doação. Assim, até mesmo as unidades que nunca realizaram uma captação desempenham papel importante na rede pois comunicam todos os casos suspeitos à Central Estadual de Transplantes.
No caso do papel dos hospitais regionais, de acordo com a Sesa, ele tem evoluído, e em 2020 e 2021, menos de 20% dos potenciais doadores foram notificados em municípios do interior. Já em 2022, essa proporção subiu para 26%; 29% em 2023, 34% em 2024 e alcançou 39% em 2025.
No mesmo período, a rede notificante no interior passou de sete hospitais, em 2020, para 17 unidades em 2026. Em números absolutos, as notificações de morte encefálica realizadas no interior cresceram de 98 casos, em 2020, para 238 em 2024.
Órgãos saem do Cariri por via aérea rumo à Capital
No Hospital Regional do Cariri (HRC), em Juazeiro do Norte, esse movimento acompanha o perfil assistencial da unidade, referência em trauma e Acidente Vascular Cerebral (AVC). Segundo a diretora técnica do hospital, a médica hematologista Luciana Lucena, grande parte dos potenciais doadores chegam à unidade justamente por causa desse perfil de atendimento.
“Como a gente é referência nos traumas e no AVC, acaba que a demanda de possíveis doadores vem muito para a gente. Os pacientes que têm suspeita de morte encefálica, a maioria deles, estão aqui dentro do Regional”.
Ela explica que a identificação dos possíveis doadores não se restringe ao Hospital Regional do Cariri. A Organização de Procura de Órgãos (OPO), vinculada à Sesa, é sediada na unidade, mas atua em diversos hospitais da região. “Qualquer outro hospital da nossa região do Cariri, eles vão atrás para essa possível entrevista, à procura desse possível doador de órgão”, afirma.
Segundo a médica, após a suspeita de morte encefálica, a equipe da OPO é acionada para acompanhar o caso e realizar a abordagem com a família. “Em nenhum momento a equipe assistencial, com médico, enfermeiro e fisioterapeuta, fala em doação. Quem aborda todo esse assunto é a própria OPO”.
Enquanto a equipe da OPO conduz o processo de acolhimento e entrevista familiar, o hospital realiza o protocolo de confirmação da morte encefálica, por meio de exames clínicos e complementares.
No Regional do Cariri, ela diz que há maior agilidade por conta da estrutura consolidada, com profissionais habilitados para realizar exames específicos, como o Doppler transcraniano. “A gente aqui tem mais celeridade em conseguir fechar um protocolo de morte encefálica porque já sabe como funciona, já tem o aparato. Fica mais fácil”, aponta.
A médica também afirma que o número de potenciais doadores tem aumentado ao longo dos últimos anos, principalmente em razão do crescimento dos acidentes de trânsito na região.
“A gente vem tendo uma demanda crescente a cada ano. A nossa região tem muita moto e a maioria dos pacientes que chegam como potenciais doadores são vítimas de acidente automobilístico. Existem também pacientes com AVC hemorrágico, mas o que a gente vê em maior quantidade são pacientes jovens, que têm maior potencial de doar vários órgãos”, aponta.
Como é o processo de captação e transporte?
Mesmo com a ampliação da captação no interior, como os transplantes de órgãos ainda são realizados somente em Fortaleza, é preciso que, após a autorização da família, equipes especializadas se deslocam da Capital para realizar a retirada dos órgãos nos hospitais do interior. Portanto, a logística dos transplantes inclui além dos transporte do órgão em si, a movimentação também dos profissionais que vão realizar a retirada do corpo do doador.
“A equipe de captação, na maioria das vezes, vem toda de Fortaleza. Dependendo do órgão, vem uma equipe específica, como no caso do coração. Alguns profissionais daqui auxiliam, como anestesistas e cirurgiões, mas via de regra a equipe vem de Fortaleza, faz a captação e leva os órgãos para os hospitais transplantadores”.
No caso dos hospitais mais distantes, como os da Região do Cariri, toda a logística precisa ocorrer por via aérea. As equipes desembarcam no aeroporto da região, são transportadas por terra até o hospital, realizam a captação e retornam imediatamente ao aeroporto com os órgãos. “Isso funciona 24 horas por dia, de manhã, de tarde, de noite, de madrugada”, destaca Luciana.
De acordo com a Central Estadual de Transplantes, o Ceará tem três veículos próprios, sendo dois carros e uma ambulância exclusiva para transporte de órgãos e tecidos, para deslocamentos em Fortaleza e Região Metropolitana.
Já entre Fortaleza e municípios como Sobral, Juazeiro do Norte, Barbalha, Crato, Itapipoca, Limoeiro do Norte e Quixeramobim, o transporte das equipes e dos órgãos ocorre por logística aérea, utilizando aeronaves da Casa Civil ou da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer).
Após o desembarque, os órgãos seguem em veículos oficiais da Sesa até os hospitais transplantadores, segundo a orientadora da célula do Sistema Estadual de Transplantes (Cetra) da pasta, Eliana Barbosa. Ela acrescenta que, quando os órgãos chegam a Fortaleza, toda a responsabilidade pelo deslocamento até os hospitais transplantadores é da Central Estadual de Transplantes.
“O helicóptero ou a aeronave pousa, já tem a equipe, o motorista e o carro da Central para pegar esses órgãos e levar para o destino. Essa atribuição é só nossa: encaminhar os órgãos para os seus destinos”, reforça. Eliana explica ainda que a prioridade é sempre atender pacientes do próprio Ceará e quando não existe receptor compatível na lista estadual os órgãos são disponibilizados para a Central Nacional de Transplantes.
Essa distribuição interestadual é coordenada pela Central Nacional e depois da definição do receptor, a alternativa logística mais rápida para preservar a viabilidade do órgão é definida com os estados de origem e destino.
No caso do transporte entre estados, o órgão pode ser levado em voos comerciais, aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) ou outras soluções disponibilizadas pelos próprios estados. No Ceará, o Governo do Estado também apoia esse processo por meio de voos coordenados pela Casa Civil.
Em contato com o Ministério da Saúde sobre o assunto, o órgão reiterou o que a Central Estadual já havia informado, e acrescentou que a definição do transporte considera critérios técnicos, como o tipo de órgão, o tempo máximo de isquemia, a distância, a disponibilidade de voos e das equipes médicas.
Além disso, o Ministério informou que entre 2021 e 2025, foram contabilizados 560 transportes aéreos de órgãos envolvendo o Ceará, dos quais 270 partiram do estado e 290 vieram de outros estados para o Ceará. No mesmo período, a Central Nacional coordenou 7.844 transportes aéreos de órgãos, tecidos e equipes em todo o país.
Captação é primeira etapa para estruturar o serviço de transplante
A expansão da estrutura de captação tem ainda outro ganho: é considerada uma etapa indispensável para que, futuramente, o interior também possa realizar transplantes, na avaliação da médica nefrologista e presidente da ABTO, Tainá Veras de Sandes.
“Quanto mais a gente capilarizar a doação, melhor. Só vai transplantar quando tiver captação. Então começa captando. Se o programa de transplante ainda não estiver estruturado, vai enviar para o local que transplanta mais próximo, de acordo com a alocação feita pelo sistema”.
Logo, fortalecer as Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTTs), de acordo com ela, é uma das principais estratégias para ampliar o número de doadores efetivos.
“Se cada hospital com mais de 80 leitos tiver uma Comissão funcionando e fizer seu papel de notificação e efetivação das doações, a gente teria um número muito maior de doadores”, afirma e acrescenta que ainda existe uma grande distância entre o número de pessoas que potencialmente poderiam doar órgãos e aquelas que efetivamente entram no sistema de transplantes.
A descentralização dos transplantes para o interior do Ceará, segundo a diretora técnica do Hospital Regional do Cariri, a médica Luciana Lucena, também está em discussão entre a Sesa e as unidades da região.
Segundo ela, desde o ano passado foram iniciadas tratativas para estruturar equipes e viabilizar a realização dos primeiros procedimentos fora de Fortaleza e embora não tenha data definida oficialmente, profissionais de hospitais da região, incluindo unidades de Crato e Barbalha já passaram por treinamentos com foco inicial nos transplantes de rim e de fígado.
Créditos
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