Nova barragem de R$ 55 milhões será construída em cidade do Ceará

Reservatório terá 45,35 metros de altura e 205 metros de extensão.

Escrito por João Lima Neto joao.lima@svm.com.br
16 de Setembro de 2026 - 06:00
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Legenda: Concentração das chuvas na região ocorre principalmente entre janeiro e junho.
Foto: Prefeitura de Jardim.

O Ceará deve receber, a partir de novembro, a construção de uma nova barragem, na cidade de Jardim, no Cariri cearense. A obra é destinada a reforçar a segurança hídrica do município, reduzir a pressão sobre as nascentes utilizadas atualmente e ampliar a oferta de água para atividades como agricultura e piscicultura.

A construção da Barragem Beré deve ter capacidade para armazenar 2,56 milhões de metros cúbicos de água e foi orçada em R$ 55,3 milhões. A obra será executada pelo Consórcio Barragem Beré, formado pelas empresas GCR Construções S/A e Construtora Gurgel Ltda., vencedor da Concorrência Nacional Eletrônica nº 20260001, com proposta de R$ 55.336.652,18.

O município de Jardim faz parte da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado, uma das principais do Ceará. Ela está localizada no sul do Estado e integra a Bacia do rio Jaguaribe, abrangendo 23 municípios e uma área de drenagem de 12.865 km², equivalente a 8,25% do território cearense.

Atual mapa da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado:

Ao Diário do Nordeste, o secretário dos Recursos Hídricos do Ceará, Ramon Rodrigues, informou que a previsão é que os trabalhos tenham duração de 18 meses — por volta de abril de 2028 — a partir da emissão da ordem de serviço. Os recursos serão provenientes do Governo do Estado e da Caixa Econômica Federal.

A nova barragem de Jardim não está entre os maiores reservatórios da Bacia Hidrográfica do Salgado. Entre as principais estruturas da região estão o Atalho, em Brejo Santo, com capacidade de 72,55 milhões de m³; o Lima Campos, em Icó, com 51,17 milhões de m³; o Rosário, em Lavras da Mangabeira, com 47,22 milhões de m³; o Ubaldinho, em Cedro, com 42,14 milhões de m³; e o Jenipapeiro II, em Baixio, com 41,4 milhões de m³.

Barragem é reivindicação antiga da população

A previsão é de que o reservatório beneficie diretamente o município de Jardim. A principal finalidade será garantir água para consumo humano e animal, mas o empreendimento também poderá ser utilizado para piscicultura intensiva, lazer e atividades econômicas que dependam da disponibilidade hídrica.

205 metros
de extensão é o que terá a nova barragem. Ao todo, a previsão é que tenha 45,35 metros de altura máxima. A estrutura será construída em Concreto Compactado a Rolo (CCR).

De acordo com Ramon Rodrigues, a construção atende a uma reivindicação antiga da população local pela implantação de um reservatório capaz de acumular água durante o período chuvoso.

“A construção da Barragem Beré é uma reivindicação antiga da população local, em virtude da necessidade de um reservatório que acumulasse água no período chuvoso”, informou o secretário.

A concentração das chuvas na região ocorre principalmente entre janeiro e junho. A água acumulada deverá consolidar alternativas para atender às demandas de cidades e aglomerados urbanos localizados na área de influência direta do reservatório, além de possibilitar outras atividades.

Novo reservatório deve aliviar pressão sobre nascentes

Jardim possui uma característica particular no abastecimento. Conforme Wyldevânio Vieira da Silva, presidente do Comitê da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado, o município é abastecido principalmente por nascentes, enquanto os poços profundos funcionam como fontes auxiliares.

Para ele, a Barragem Beré poderá diversificar a oferta de água e diminuir a dependência das fontes naturais. "Se eu fizer uma barragem em Jardim, eu vou deixar de usar a água das fontes para usar a água da barragem, que é a água da chuva”, explicou Wyldevânio.

O presidente do Comitê da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado,afirma que a vazão de algumas nascentes vem diminuindo, ao mesmo tempo em que a população do município cresce. Atualmente, essas fontes atendem tanto ao abastecimento humano quanto a atividades de irrigação.

Nós temos uma demanda e nós temos uma oferta. A demanda pura em Jardim é abastecimento humano, toda a população de Jardim que consome água, irrigação e serviços ambientais, que é a manutenção do ecossistema. Mas existe uma demanda. E a oferta de água que nós temos, qual é? Apenas as fontes
Wyldevânio Vieira da Silva
Presidente do Comitê da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado

Na avaliação de Wyldevânio, a construção do reservatório permitirá justamente diversificar essa oferta.

Agricultura e piscicultura também poderão ser beneficiadas

Além do abastecimento, a barragem poderá ampliar a disponibilidade de água para atividades produtivas. Segundo Wyldevânio, o reservatório poderá contribuir para a agricultura, a piscicultura e outras atividades econômicas. A estrutura também poderá favorecer a perenização de alguns riachos, criando condições para novos usos da água.

O presidente destaca que existem propriedades em Jardim voltadas ao cultivo de hortaliças e à fruticultura irrigada. Para ele, a existência de um reservatório cria uma alternativa de fornecimento que pode diminuir a pressão sobre as nascentes.

“Com a barragem, você cria a possibilidade de perenizar alguns riachos. Isso vai levar à possibilidade de irrigação e também da captação na barragem para abastecimento humano, tirando a pressão sobre as fontes”, afirmou o presidente de Comitê.

Preservação de nascentes deve melhorar ambiente para Soldadinho-do-Araripe 

Soldadinho-do-araripe vive apenas no Ceará e atrai turistas para observação
Legenda: Soldadinho-do-araripe vive apenas no Ceará e atrai turistas para observação
Foto: Ciro Albano/Reprodução

A redução da retirada de água diretamente das nascentes também pode favorecer a preservação dos ecossistemas que dependem desses cursos d’água. Wyldevânio, que também é biólogo e mestre em desenvolvimento sustentável, explica que a menor pressão sobre as fontes pode ajudar a manter as condições ambientais necessárias para a sobrevivência do Soldadinho-do-Araripe, espécie endêmica da região do Cariri.

A ave está diretamente associada a ambientes com água corrente, segundo o especialista. Nesse contexto, o uso do reservatório para atender parte das demandas de abastecimento e irrigação pode reduzir a necessidade de captação nas nascentes, contribuindo para a manutenção de uma vazão mais constante e, consequentemente, para a conservação dos ambientes onde a espécie vive.

A construção da barragem é um ponto positivo para isso porque, a partir do momento que você diminui o uso da água das fontes para outros meios, para irrigação ou para abastecimento humano, você vai ter mais água de fonte correndo, que é o que o Soldadinho-do-Araripe precisa para a sua reprodução
Wyldevânio Vieira da Silva
Presidente do Comitê da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado

O presidente do Comitê, entretanto, fez uma ressalva importante: não existe atualmente um estudo específico que permita quantificar os possíveis efeitos da Barragem Beré sobre a espécie. “É possível afirmar que sim, que é importante, porque vai diminuir a pressão sobre as fontes, isso é inegável. Mas quantificar isso, a gente só vai ter como fazer depois que o sistema estiver rodando”, explicou.

Sistema de abastecimento ainda precisará ser implantado

Outro ponto destacado por Wyldevânio é que a construção do reservatório, por si só, não significa que a água passará imediatamente a ser utilizada no abastecimento da população.

Atualmente, o sistema de abastecimento de Jardim realiza a captação nas fontes e conduz a água para tratamento. Para utilizar a água acumulada na Barragem Beré, será necessária a implantação de uma estrutura própria de captação e condução.

Em seguida, será necessário instalar os sistemas de abastecimento para que a água do reservatório possa chegar aos consumidores. “Depois disso, você tem que instalar os sistemas de abastecimento, porque, por exemplo, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Jardim tem um sistema que capta nas fontes e leva para o tratamento. Mas não existe um sistema que capta lá no açude. Então, o SAAE vai ter que construir um sistema”, ressaltou o gestor.

Somente depois dessa estrutura entrar em funcionamento será possível medir quantas famílias deixarão de ser abastecidas pelas nascentes e passarão a utilizar a água do reservatório.

Obra terá desapropriações

Para a implantação da barragem, será necessário desapropriar 14 áreas pertencentes a 12 famílias. Segundo a Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH), não haverá reassentamento.

A Barragem Beré já possui licença prévia, enquanto a licença de instalação está em processo de liberação.

O processo de licenciamento é acompanhado pelo Comitê da Sub-bacia Hidrográfica do Salgado, que também pretende monitorar a execução da obra. “Estamos vigilantes sobre esse processo de licenciamento e de controle da obra”, afirmou Wyldevânio.

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