Símbolo da biodiversidade cearense e encontrado somente na região do Cariri, o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni) mudou de classificação na Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, atualizada em junho pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Antes “criticamente em perigo” (CR), agora a ave é considerada “em perigo” (EN), grau inferior ao anterior.
O movimento pelo qual um animal deixa uma categoria mais grave para uma de menor risco é conhecido como "downlist". Embora pareça, isso não necessariamente significa que a espécie endêmica — existente apenas no Estado — tem menos chances de desaparecer.
No caso da ave, ela segue igualmente ameaçada, como explica ao Diário do Nordeste o coordenador de taxon na avaliação de espécies da Caatinga para a nova relação federal e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Helder Araujo.
“Ela continua restrita e usa habitats específicos na encosta da Chapada [do Araripe]. Esses habitats restritos são ameaçados por ações antrópicas [atividade humana] e mudanças climáticas, como eventos de El Niño, o que continua a ameaçar fortemente a espécie.”
A extinção de um animal, ainda mais um endêmico, afeta diretamente o equilíbrio do ecossistema em que está inserido, pois funções desempenhadas por ele também deixam de existir, detalha o docente da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e coordenador da Lista Vermelha do Ceará, Hugo Fernandes.
“O soldadinho-do-araripe é frugívoro: se alimenta de pequenos frutos. Então, quando tenho menos soldadinhos, tenho menos dispersão de sementes e, portanto, uma menor quantidade e diversidade de plantas frutíferas que seriam espalhadas na região”, exemplifica.
Como a redução de ameaça impacta a espécie?
Na prática, o downlist influencia no acesso a recursos e nas políticas de conservação do animal, fatores importantes para a conservação dele, como explica o biólogo Weber Silva, um dos responsáveis por avaliar a ave cearense para a nova lista nacional, elaborada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A espécie perde sua primazia em editais que viabilizam recursos. Fazer o downlist é o objetivo da conservação e é algo buscado com afinco. Se isso acontece antes da hora, é como dar alta para um doente e mandá-lo para casa sem concluir o tratamento.”
A arrecadação de recursos viabiliza, por exemplo, iniciativas como a realizada no Parque Nacional de Ubajara, que recuperou o nascimento do periquito-cara-suja na Serra da Ibiapaba após mais de 100 anos, como destaca Hugo Fernandes.
No entanto, Weber ressalta que o impacto da mudança pode ser menor para a ave, já que ela possui uma unidade de conservação federal voltada à sua preservação: o Refúgio de Vida Silvestre (Revis) do Soldadinho-do-Araripe. Criada em 2025, a unidade se estende ao longo das encostas da Chapada do Araripe e abrange três municípios do Cariri: Crato, Barbalha e Missão Velha.
“Isso beneficia não somente o pássaro exclusivo do Ceará, mas outras espécies ameaçadas e sem seu apelo carismático”, destaca o biólogo.
O que motivou o downlist do soldadinho-do-araripe?
Atualmente, a população estimada de indivíduos adultos da espécie é entre 436 e 540, e foi exatamente essa quantidade que influenciou o downlist: “Para ficar na categoria CR [criticamente em perigo], o número de indivíduos maduros precisaria ser até 250”, explica Helder Araujo.
Entendemos que houve um incremento no número informado de indivíduos maduros, os quais continuam sendo monitorados. Porém, esse monitoramento constante é extremamente necessário, pois eventos extremos de seca, por exemplo, podem comprometer os habitats e o sucesso reprodutivo da espécie, causando declínios populacionais.”
Além disso, o especialista ressalta a urgência de medidas de restauração e ampliação do habitat da ave, “visto que isso pode auxiliar na ampliação de áreas adequadas para reprodução”.
Reclassificação gera divergências
Apesar de preferir não comentar sobre o downlist do soldadinho na relação nacional, em janeiro, Weber discordou da indicação de que a ave também descerá para “em perigo” na próxima Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, relação internacional que será publicada ainda este ano pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).
Em um fórum público da instituição internacional, destinado ao debate sobre a avaliação do animal, o especialista defendeu a permanência dela como “criticamente em perigo”. Na mesma sessão de comentários, o biólogo irlandês Ben Phalan também contestou a alteração.
Ao Diário do Nordeste, Weber explicou que mudanças de categoria são influenciadas por novos dados ou pela melhoria real da situação. "Avaliação de espécies é como xadrez: tem muitas regras e muitas formas de jogar."
O soldadinho-do-araripe vive numa faixa de encostas de 50 km e foi avaliado como EN [em perigo] por um critério. Se ele habitasse área equivalente nas encostas do Planalto da Ibiapaba, seria CR [criticamente em perigo]. A diferença é meramente a orientação dessas encostas. Na Ibiapaba, a área parece uma letra I, enquanto no Araripe, parece uma letra C.”
O especialista também destaca que a alteração de classificações também é influenciada pelo uso de metodologias diferentes e pela quantidade disponível de informação no momento da avaliação.
“O soldadinho-do-araripe está no limiar entre pouco e muito conhecida, o que acaba mascarando sua condição real em arredondamentos. Uma dessas simplificações presume que o soldadinho-do-araripe ocorreria em áreas edificadas e de baixa altitude, o que é absolutamente irreal”, frisa.
Risco antigo
A possibilidade de desaparecimento da espécie é antiga. Cerca de sete anos após ser descoberta nas encostas da Chapada do Araripe, em 1996, ela já foi incorporada à lista nacional de animais em risco de extinção.
A Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) também reconhece a ameaça à ave e a classifica como “criticamente em perigo” no Livro Vermelho dos Animais Ameaçados de Extinção do Ceará, espécie de relação estadual.
Além da reclassificação, a relação federal, publicada em 17 de junho no Diário Oficial da União (DOU), adicionou 180 novas espécies ou subespécies, entre elas um lagarto e uma cobra que também só existem no Ceará. A lista ainda retirou mais de 150 espécies e agora tem quase 800 animais.
Cobra que só existe no CE também muda de status
Além do soldadinho-do-araripe, outra espécie endêmica do Ceará, ou seja, que não existe em nenhum outro lugar do mundo, também sofreu downlist na relação federal: a cobra-da-terra (Atractus ronnie).
Encontrada somente em uma área de cerca de 900 km² de mata úmida, distribuída na Chapada do Araripe, Maciço de Baturité, Planalto da Ibiapaba e, provavelmente, na Serra de Uruburetama, ela saiu da categoria “em perigo” para “vulnerável”. A classificação também difere do Livro Vermelho dos Animais Ameaçados de Extinção do Ceará, que ainda a considera como “em perigo”.
A mudança representa uma redução no risco de extinção a médio prazo e também um avanço no conhecimento científico sobre a espécie, como explica o coordenador de avaliação de répteis do Ceará para a nova lista nacional, o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Núcleo Regional de Ofiologia (Nurof) da instituição, Robson Ávila.
Ao Diário do Nordeste, ele detalha que a serpente desempenha um importante papel no controle populacional de invertebrados, como minhocas, e a permanência dela na lista de animais em risco é um “reconhecimento de sua importância e um alerta para a situação das espécies ameaçadas do Estado”.
A revisão no status da espécie foi motivada pelo refinamento dos dados científicos disponíveis, amostragem em novas áreas e melhor entendimento das populações. Conforme explica Robson, os novos estudos mudaram a percepção sobre o réptil: “Hoje sabemos que A. ronnie [cobra-da-terra] é abundante em algumas áreas”.
Na teoria, o downlist da espécie altera a prioridade na arrecadação de recursos e acesso a políticas públicas de conservação, já que a categoria é mais “leve”, por exemplo, que “em perigo” ou “criticamente em perigo”.
No entanto, o especialista destaca que isso não acontece na prática, já que o animal é uma das espécies de répteis e anfíbios protegidas pelo Plano de Ação Nacional para Conservação da Herpetofauna Ameaçada do Nordeste (PAN Herpetofauna do Nordeste), iniciativa do Governo Federal voltada para preservação.
“Os planos de Ação Nacional são instrumentos de gestão do ICMBio que visam coordenar as ações de conservação. No caso do PAN Herpetofauna do Nordeste, [dezenas de] espécies, incluindo A. ronnie [cobra-da-terra], são beneficiadas com as ações de conservação, que incluem, por exemplo, educação ambiental e pesquisa científica”, explica.
O desmatamento causado pela agricultura e pela especulação imobiliária são os principais fatores que oferecem risco à existência da cobra, que tem coloração avermelhada, cerca de 17 a 29 cm de comprimento e não é peçonhenta.
“A espécie, assim como diversas ameaçadas do Ceará, é dependente das matas úmidas. Essas áreas estão sujeitas a intensas atividades antrópicas [ação humana]”, ilustra o professor.
“O fato de a maioria das espécies ameaçadas do Estado estar nas florestas úmidas liga um sinal de alerta sobre a saúde do ecossistema, uma vez que muitos recursos utilizados pelos humanos, como nascentes, se encontram nessas áreas”, finaliza.