De aparência fofa e inofensiva, a capivara ganhou destaque recente como personagem de desenhos e materiais lúdicos. Contudo, o retorno da espécie que já foi considerada extinta localmente no Ceará está gerando um impasse para órgãos públicos, que agora discutem um plano para equilibrar preservação ambiental, saúde pública e expansão econômica das cidades.
Durante o I Encontro Técnico de Gestão da Fauna Silvestre, realizado na Procuradoria Geral de Justiça do Ministério Público do Ceará (MPCE), nesta semana, em Fortaleza, especialistas e gestores alertaram que o Estado enfrenta um aumento significativo da população de capivaras, sobretudo em municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) e já se expandindo em direção ao Maciço de Baturité.
Contudo, ainda não há dados técnicos suficientes para fundamentar um plano de manejo eficaz. Essa lacuna tem gerado impactos econômicos, com prejuízos em produções agrícolas, e riscos sanitários, devido à possibilidade de transmissão de doenças para seres humanos.
Karine Rocha, orientadora da Célula de Animais Silvestres da Secretaria Estadual da Proteção Animal (Sepa), revelou que o órgão recebe ligações “praticamente todos os dias” de municípios solicitando ajuda. No entanto, o Estado ainda carece de levantamentos sobre a estimativa populacional e a movimentação dos bichos.
Assessor técnico da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), Roberto Ribeiro complementa que o órgão possui papel fiscalizador sobre a fauna silvestre, mas só dispõe de dados empíricos e relatos, faltando uma metodologia científica para entender a real dimensão do problema.
Por isso, um dos encaminhamentos do encontro técnico foi a necessidade de que cada município cearense impactado realize o mapeamento dos animais em seu território, considerando que o problema se trata de uma realidade local.
A expectativa é que os levantamentos locais subsidiem a elaboração de um plano estadual, estabelecendo diretrizes técnicas padronizadas para o manejo das capivaras e de outras espécies da fauna silvestre em todo o Ceará.
Presente no evento, o diretor de relações institucionais da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), Expedito José do Nascimento, ressaltou que o fenômeno é novo e que as entidades devem ter preocupação e responsabilidade em comunicar corretamente a população afetada sobre os impactos do crescimento.
“Podemos criar equipe interdisciplinar para levar informações aos produtores rurais através das instituições municipais. É importante saber onde está a causa, alguém tem que tomar a frente”, declarou.
Como as capivaras são tratadas hoje?
A Secretaria Municipal da Proteção Animal de Fortaleza (SMPA) informou que a capital ainda não dispõe de um plano específico de manejo. Nos casos de ocorrência desses animais em áreas urbanas, como o Lago Jacarey e a Lagoa da Precabura, as situações são tratadas de forma articulada com outros órgãos.
“Por se tratar de fauna silvestre, as medidas de manejo, resgate e destinação são conduzidas pelos órgãos ambientais competentes, especialmente a Semace e o Ibama, conforme a natureza de cada ocorrência”, explica.
A Pasta atua de forma integrada quando demandada, especialmente nas ações de apoio institucional e de articulação entre os órgãos.
A reportagem também questionou à Sepa quais procedimentos a Secretaria adota e se há uma média mensal de chamados por problemas com capivaras, mas não recebeu retorno até o fechamento desta matéria.
O que precisa ser feito?
A capivara é o maior roedor do mundo (adultos podem chegar a mais de 80kg) e encontrou um cenário favorável para rápida proliferação no Ceará: a ausência de predadores naturais de grande porte e a proximidade de lavouras de seus habitats.
Em Maranguape, por exemplo, um agricultor idoso teve a produção de milho e feijão afetada pela invasão de um grupo de animais, desde o fim de 2025. Segundo relatos da família, elas costumam aparecer durante a noite para comer os produtos.
Para enfrentar situações como essa, os órgãos cearenses deverão discutir a criação de um protocolo de ação e uma cartilha de orientações.
Entre as medidas emergenciais citadas pelas médicas veterinárias e professoras Fernanda Batistella e Fabiana Morse, especialistas no animal com projetos de manejo desenvolvidos em São Paulo, destacam-se:
- Levantamento populacional e mapeamento: entender onde as capivaras habitam e sua dinâmica de movimentação;
- Vigilância Sanitária: implementação de pesquisas sorológicas e monitoramento de vetores de doenças, como o carrapato;
- Educação ambiental: esclarecer à população que a capivara é um animal silvestre, pode ser agressiva e não deve ser tratada como animal de estimação.
A coordenadora substituta de Conservação da Fauna e da Biodiversidade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Marília Marinho Banhos, ressalta que a capivara é um animal silvestre da caatinga e da mata atlântica, resguardada por vários instrumentos de proteção à fauna.
No caso do Ceará, aponta, ela está “voltando a popular uma área em que já existia”, mas que hoje é ocupada por estruturas antrópicas. “Isso aproximou nossa visão desses animais”, diz.
Comportamento e riscos das capivaras
As capivaras são animais resilientes, rústicos e territoriais. Possuem uma maturidade sexual rápida (15 a 24 meses) e alta taxa reprodutiva, com gestação de 150 dias e ninhadas médias de quatro filhotes.
Devido à alta capacidade reprodutiva, seu controle populacional torna-se complexo sem intervenção técnica.
Embora o risco direto de mordidas ou transmissão da raiva seja considerado raro, o maior perigo reside na Febre Maculosa Brasileira. A capivara hospeda o carrapato que transmite a bactéria causadora da doença, que pode ser fatal.
Além disso, como outros roedores, ela pode carregar a bactéria que provoca leptospirose.
Sugestões de manejo
Diferente do Ceará, o Estado de São Paulo já convive com a febre maculosa de forma endêmica e possui protocolos de manejo consolidados que podem servir de modelo:
- Manejo reprodutivo: em vez de translocação (proibida em SP), realiza-se a esterilização dos animais para bloqueio do crescimento populacional;
- Protocolo por área: em áreas de risco, recomenda-se a eutanásia parcial de indivíduos suscetíveis que amplificam a bactéria; em áreas de alerta, o foco é o manejo reprodutivo total do grupo;
- Barreiras físicas: instalação de cercas elétricas de baixa voltagem ou cercamentos com materiais naturais (como bambu e macaxeira) para proteger plantações;
- Sinalização: uso de placas indicativas em áreas de convivência para alertar sobre o risco de carrapatos.
Para o promotor do MPCE, Francisco Vasconcelos Neto, o ideal é que o Ceará crie documentos de fluxo para garantir melhor suporte técnico no trabalho diário das promotorias, que poderão exigir a responsabilização em caso de descontrole na população de capivaras.