Breve passeio por Fortaleza revela triste realidade: poucos sabem a história do lugar onde envelhecem. Se a dúvida for sobre a rua mais antiga da Capital, por exemplo, quase ninguém sabe responder ao certo. Mas ela existe, e é tão importante quanto na época em que foi nomeada pela Câmara de Vereadores, no longínquo 30 de setembro de 1794.
Trata-se da Rua do Rosário, lar de alguns dos equipamentos mais importantes não apenas do município, mas de todo o Ceará. Endereço da Igreja do Rosário – o templo religioso mais antigo da cidade, bem tombado e datado de 1753; do Palácio da Luz, sede da Academia Cearense de Letras; e até da Praça dos Leões, antigo areal em frente ao Palácio do Governo.
“É a artéria de nossa Capital com denominação mais antiga, pois seu nome já figurava em um termo de vereação lavrado em 30 de setembro de 1794, sendo que as do Sampaio e Pocinho são citadas, pela primeira vez, nas atas da Câmara, em 31 de julho de 18 de setembro de 1813, respectivamente”, confirmou o estudioso Ismael Pordeus no artigo “Fortaleza - Casas e Ruas Numeradas”, publicada numa antiga edição da Revista do Instituto do Ceará.
A permanência desse passado alcança o hoje, embora modificações ao longo da rua tenham sido intensas. Para quem começa a desbravar o endereço pela Praça dos Leões – sobretudo devido a iniciativas de tombamento – percebe-se que os imóveis ainda conversam com a Fortaleza antiga. Estruturas, arquitetura e até energia exalam outros ares. É feito um portal.
Por outro lado, à medida que o caminhar conduz à Rua Perboyre e Silva, no outro extremo do logradouro, o cotidiano contemporâneo fala mais alto. O comércio é mais intenso, alimentado por lojas de departamento, calçamento modificado e empreendimentos que parecem resistir ao tempo e continuar na rotina da população mais tradicional do Centro – caso de chaveiros, restaurantes, relojoarias, entre outras iniciativas do ramo.
São facetas amplas de um endereço que, embora diariamente frequentado e ocupado por tantos, ainda carece de olhar mais atento e curioso. Fortaleza, ali, parece ser ela de verdade, e ficar por dentro do que a faz ser tão real é motivo deste mergulho.
Primeira rua, mas não primeira via
Cabe, contudo, um adendo importante: embora seja a primeira rua da Capital com nomenclatura oficial, em termos jurídicos – considerando a organização espacial e de circulação na cidade – a Rua do Rosário não foi a primeira via do município. Ou seja, não foi ela a artéria de acesso a Fortaleza em tempos coloniais.
A Rua Direita dos Mercadores ou apenas Rua da Direita – hoje correspondente ao trajeto da Avenida Alberto Nepomuceno – foi essa via inaugural da Capital desde a antiga vila do Forte de Nossa Senhora da Assunção, em 1726, quando assim foi nomeada a Vila de Fortaleza.
“Ela começava mais ou menos onde hoje é o Poço da Draga. Seguindo em linha reta, havia a Avenida Alberto Nepomuceno, que passava em frente ao Forte de Nossa Senhora da Assunção, hoje 10ª Região Militar; a antiga Casa de Câmara e Cadeia – hoje um shopping; e o antigo Fórum Clóvis Beviláqua”, enumera o professor e historiador Gleudson Passos.
Na sequência, continua, a via ia até a Feira Velha – onde hoje está a Rua Castro e Silva – até a Travessa Crato e o final dela, na Rua São Paulo. “Seguia-se, e ali dava início à Estrada do Gado, na Rua Sena Madureira e na Avenida Visconde do Rio Branco. Era um ‘retão’”. Apesar da diferença de logradouros, certos marcos urbanísticos são intersecção entre as duas, Rua do Rosário e Avenida Alberto Nepomuceno.
A casa do Capitão-Mor, onde hoje é o Palácio da Luz, sede da Academia Cearense de Letras, é um deles, bem como o Café Java e a Igreja do Rosário. Os equipamentos são circundados por quatro endereços que delineiam o início da urbanidade fortalezense: as avenidas Alberto Nepomuceno e Visconde do Rio Branco e as ruas Conde D’Eu e Sena Madureira.
No livro “Fortaleza em Perspectiva Histórica”, da pesquisadora e historiadora Margarida Júlia, consta que uma via estruturante nasceu “ao pé do Forte, paralela ao curso do riacho [Pajeú], e foi designada Rua Direita dos Mercadores. A existência de bom lençol freático ali permitiu a implantação de chafarizes dentro do núcleo urbano”.
Também detalha: “A Rua Direita dos Mercadores ligava-se à Estrada de Messejana, no sentido sudeste, e à Estrada do Lagamar. Para o Largo do Quartel, num esquema centrípeto, também convergiam outras estradas: a de Soure e de Arronches e a do Tauape (Olaria)”.
Quanto ao nome, “Rua da Direita”, estava ligado a uma tradição dos colonizadores portugueses. Eles nomeavam assim ruas que davam origem a cidades, responsáveis por direcionar e orientar o crescimento e o surgimento de outras ruas.
Como Fortaleza era e como passou a ser
Ainda conforme Gleudson Passos, a partir de dados no livro “Geografia e Estética de Fortaleza”, de Raimundo Girão, a Fortaleza que conhecemos hoje era bem diferente de quando começou. Onde hoje está a 10ª Região Militar e a Igreja do Rosário, por exemplo, era um complexo de dunas fixas. “Por isso subimos uma escadaria para ir à Praça dos Leões e à Academia Cearense de Letras. Ali há registros dessa memória geográfica ancestral”, situa.
É o que confirma as grandes transformações, principalmente porque os marcos simbólicos do poder já não estão mais ali, apesar dos ecos. A 10ª Região Militar persiste, mas já existem outros quartéis; a Igreja do Rosário também está de pé, mas deixou de sediar os principais ritos católicos da Capital, agora a cargo da Catedral. Por sua vez, um dos nervos do poder jurídico da Capital, o Fórum Clóvis Beviláqua, foi destacado para o sudeste da cidade, na Avenida Washington Soares, sem pertencer mais ao Centro.
“O trecho correspondente à Rua da Direita precisa ser trabalhado com mais zelo pela Prefeitura de Fortaleza e pelo Governo do Estado do Ceará. Temos marcos históricos de uma experiência urbana ainda muito demarcados ali. Um acervo patrimonial e de memória da cidade ainda muito forte, que merece, sim, ser rememorado, atualizado com eventos, práticas culturais, feiras artesanais e estímulo a grupos que desenvolvem turismo cultural”.
O pouco conhecimento da maioria dos fortalezenses quanto à história da própria cidade também é destacado pelo pesquisador. “Lamentável nossa Capital ter 300 anos, e ainda termos pouco apreço por parte, sobretudo, dos poderes públicos e da iniciativa privada”, queixa-se Gleudson.
“É preciso reconhecer esses espaços e demandar profissionais para desenvolver roteiros culturais, turísticos e didático-pedagógicos para que alunos das escolas sempre pratiquem o exercício de andar pelas ruas históricas de Fortaleza e, assim, visualizarem-se como sujeitos históricos e cidadãos pertencentes a esse território chamado cidade de Fortaleza”.
Novo corredor cultural?
Por fim, o historiador igualmente defende um “trabalho sério de planejamento urbano” para que sejam otimizadas vias de acesso a pedestres, turistas e transeuntes aos locais da Fortaleza antiga. Uma das saídas, conforme Gleudson, é um novo corredor cultural, além daquele já realizado na Rua Doutor João Moreira – esta também uma via histórica.
“Precisamos estimular o crescimento desse movimento em outras ruas do Centro. A antiga Rua da Direita pode ser, sim, uma segunda rua com prioridade para essas práticas culturais, uma vez que temos ali equipamentos como o Centro Cultural Banco do Nordeste, a Praça dos Leões e o Parque da Criança”, contextualiza.
“Isso formaria o antigo L, compreendo as duas ruas que orientaram o crescimento urbano de Fortaleza no sentido Mar-Sertão/Norte-Sul: a Rua da Direita e a rua Doutor João Moreira – esta, sim, já integrada ao plano urbanístico não só de Silva Paulet [engenheiro militar português, autor do primeiro plano urbanístico para Fortaleza], de 1813, mas também de Adolfo Herbster [engenheiro e arquiteto recifense], em 1875”.