Ceará

‘A dor existe e precisamos encontrar soluções’, diz médico que fez 100 transplantes infantis no CE

Thatiany Nascimento producaodiario@svm.com.br
08/09/2026 - 06:30

Quase 30 anos separam o primeiro transplante de coração em criança realizado no Ceará, em 1998, do 101º procedimento, ocorrido em 2026. Em meio ao desenrolar das cirurgias que salvam vidas e devolvem a crianças e famílias o direito de ter esperança, uma equipe de profissionais se repete e se dedica. Nela, está o cirurgião cardiovascular pediátrico Valdester Cavalcante, referência no Norte e Nordeste do país, que já participou de 100 transplantes do tipo. 

No dia 8 de abril de 1998, Valdester integrou a equipe responsável pelos dois primeiros transplantes cardíacos pediátricos do Nordeste, no Hospital Antônio Prudente, da rede privada de Fortaleza. Depois, passou a atuar no Hospital de Messejana Dr. Carlos Alberto Studart Gomes (HM), conhecido como Hospital do Coração. Lá, a equipe fez 97 transplantes do tipo.

Em 2026, foi para o Hospital Universitário do Ceará (HUC), no Itaperi, onde participou das duas primeiras cirurgias do tipo realizadas na unidade. Todos esses procedimentos hoje estão vinculados ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT), do Sistema Único de Saúde (SUS).

Naquele começo pioneiro, ao lado de Valdester, estavam os cirurgiões Juan Alberto Cosquillo Mejía, Waldemiro Carvalho Júnior, Fernando Antônio de Mesquita e Haroldo Brasil Barroso; o anestesista Rogean Nunes; os cardiologistas João David de Souza Neto e Patrícia Lopes de Sousa; e os cardiologistas pediátricos Klébia Castelo Branco e Ricardo Sardenberg.

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Legenda: O cirurgião cardiovascular pediátrico Valdester Cavalcante é referência na área no Norte e Nordeste
Foto: Ismael Soares

Na época, quase quatro anos depois, em 18 de janeiro de 2002, Valdester também participou do primeiro transplante do tipo na rede pública do Ceará, no Hospital de Messejana. A unidade historicamente se consolidou um dos maiores programas do país na área, sendo referência tanto em transplantes cardíacos adultos, como pediátricos. Em 2026, o hospital atingiu a marca de 600 transplantes realizados

As primeiras cirurgias “eram complexas e em neonatos”, recordou o médico em entrevista ao Diário do Nordeste, concedida em um dos consultórios do Hospital do Coração, em meio à rotina de atendimentos, na última sexta-feira de maio. À época, a cardiologia pediátrica da instituição estava prestes a ser transferida para o HUC.

Hoje, o setor funciona na nova unidade e Valdester, junto a uma equipe, fez os dois primeiros transplantes cardíacos pediátricos no local, em julho, inaugurando um novo momento desse atendimento de referência no Ceará.  

Em 28 anos, mais de 100 crianças do Ceará e de estados vizinhos (que estavam na fila do Ceará) receberam novos corações e quase todas passaram pelas mãos de Valdester. Essa conta que, às vezes, insiste em parecer apenas numérica, é expressiva e determinante, até: “antes era uma sobrevivência zero, todos (as crianças que tinham esgotado as terapêuticas) morriam; agora (com os transplantes), a gente já dá qualidade de vida por 10, 15 anos”, diz o médico.

Cada número é uma vida que ganhou tempo, chances e futuro.

Apesar da experiência, ele, natural de Alagoas e residente no Ceará desde 1992, garante que cada uma delas é única. “Nós já fizemos quase 100 transplantes de criança, mas o time que faz o transplante de adulto e criança já passou de 600 procedimentos. Mas tem horas que parece que é o primeiro”, ressalta. E completa: “Por isso que não pode ficar desatento. É preciso que cada transplante de cada procedimento seja tratado como único. Ele tem começo, meio e fim para aquele doente”. 

Ao Diário do Nordeste, o médico formado pela Universidade Federal de Alagoas, mestre em Avaliação de Políticas pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutor em Biotecnologia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), falou sobre as particularidades dos transplantes pediátricos, os avanços ao longo dos anos no Ceará, o papel das famílias doadoras e os fatores que ajudaram a consolidar essa política pública no Estado.

O Diário do Nordeste veicula neste mês a série de reportagens multimídia “EntreLaçados, a rede que move transplantes no Ceará” e revela bastidores de um processo que, guiado pela ciência, entrelaça para sempre pessoas, profissionais e sensações como esperança, solidariedade, luto, dor, amor e vitória. Além de reportagens no site, o especial traz um minidocumentário focado no tempo e no processo das esperas por transplante, publicações nas redes sociais, episódios de podcast e uma newsletter. 

Quando pensamos em transplantes, temos uma ideia leiga de como funciona. Da perspectiva técnica, há grandes diferenças entre o transplante adulto e o pediátrico?

No transplante cardíaco pediátrico, o que muda é quando você envolve o transplante cardíaco na doença congênita do coração. Quando a criança tem uma cardiomiopatia, ou seja, mantém a anatomia adequada ou igual, o que muda é a função do coração. Portanto, ele não tem mais função que dê conta das demandas do organismo. Então, quando é uma cardiomiopatia que se assemelha ao adulto, tudo é igual. Na doença congênita do coração, quando a doença é interna no coração, tipo uma CIV (tipo de cardiopatia congênita) ou alguma coisa desse tipo, isso não muda a técnica operatória. 

Mas, quando a gente tem alterações na entrada de sangue, no retorno venoso, na saída das artérias pulmonares, quer dizer, sangue do coração direito para o pulmão, na chegada do sangue para o átrio esquerdo, quer dizer, veias pulmonares, e na saída do coração esquerdo para a aorta, a parte sistêmica, quando existem alterações nesses quatro ambientes, você muda completamente a estratégia de cirurgia.

Nesse caso, as mudanças são por conta das alterações físicas do coração e não pelo tamanho?

Existem anatômicas que interferem no ato de tirar o coração e depois no ato de implantar. Tem outras duas outras características que eu não posso esquecer de falar. Uma característica é porque você intervém mais nas crianças, então quando um adulto vai operar do coração, fazer um transplante, ele teve a primeira cirurgia, no máximo a segunda, e isso não altera muito a anatomia cirúrgica do transplante. 

Mas a criança, quando ela vai para o transplante ela já tem uma outra doença. Já fiz (transplante) de criança que eu operei duas ou três vezes. As técnicas operatórias mudam. Se a anatomia já não era a ideal, com as intervenções cirúrgicas dificulta mais ainda. 

Então, nós temos essa outra característica que é de na cirurgia do transplante pediátrico cardíaco: você intervém muito antes e isso tem implicações tanto de sensibilização das crianças quanto de dificuldade técnica de pegar um coração, tirar um coração e colocar outro nessa anatomia já com alterações de nascimento e com alterações que o cirurgião fez ao longo da vida dessa criança. 

O transplante cardíaco pediátrico tem outras camadas de dificuldade?

Quando você tem uma criança que indicou-se o transplante, isso diz que eu já não tenho capacidade cirúrgica de fazer uma intervenção e melhorar a qualidade de vida dessa criança. Então, nos resta agora fazer o transplante. Nessa hora, especificamente, a gente entra no outro patamar de dificuldade, que é: será que essa criança tolera esperar esse tempo inteiro? Essa é uma preocupação. 

Para isso a gente tem hoje corações artificiais que suportam a vida da criança em até um ano ou até mais. A gente não tem ainda isso aqui (no Ceará).

A outra coisa: ela vai ter tempo hábil de vida para receber esse coração? E como é que eu vou conseguir esse coração? Porque eu tenho uma criança de um peso x e eu preciso ter uma criança que seja mais ou menos na superfície no peso x, que seja compatível. Então, muitas vezes, a criança vai para fila e a gente pode perder essa criança nessa fila de espera porque não apareceu um doador compatível. Por isso, a necessidade de incorporar tecnologias de suporte ventricular, tipo os corações artificiais, para dar conta da criança esperar essa doação que pode demandar tempo. 

Em geral, essas crianças que têm condições cardíacas complexas, ficam internadas à espera? 

Isso. Algumas crianças ficam esperando em casa. Mas quando é uma situação específica, que não tem como ir para casa, fica esperando a cirurgia porque corre risco de morte, fica internada. E esse é outro problema, você vai acumulando dentro do hospital uma população que carece de tratamentos específicos, críticos e que a gente não tem controle de doação, e isso pode tirar a vaga de outras crianças que também precisam operar. 

Aí a gente mexe no conceito até ético de como conduzir as indicações de cirurgia, de quando contraindicar, de como dar acesso a todas as crianças. Isso é um ponto crítico na nossa lida enquanto médicos. 

Agora é uma pergunta até mais curiosa, qual a idade da criança mais nova que o senhor já fez um transplante? E, por exemplo, um mínimo de idade para fazer um transplante?

As cirurgias convencionais cardíacas, a gente faz logo após o nascimento. E essa é uma pergunta recorrente das mães. ‘Mas ele está tão novinho, acabou de nascer’. Mas a gente indica o procedimento pela necessidade da criança. Algumas doenças críticas, como a Síndrome da Hipoplasia do Coração Esquerdo (uma cardiopatia congênita), eu preciso intervir nos primeiros dias de vida. Para a gente, um bebê de Hipoplasia que tem três semanas, um mês, já é velho para esse tipo de indicação. 

Nos primeiros dois casos de transplante (cardíaco pediátrico) no Ceará, as cirurgias foram com crianças de menos de um mês de idade, porque era uma Hipoplasia do Coração Esquerdo. 

O senhor participou dessas primeiras cirurgias de transplante, no final da década de 1990, quando o Ceará já fazia transplantes adultos. Antes disso, não fazia porque não tinha demanda?

Pois é, como é que você constitui uma, como você implementa uma situação que é inédita naquela região? Primeiro, a demanda existe, a dor existe e precisamos encontrar soluções para aquilo acontecer. Então, na medicina e em outras áreas, o doente se apresenta a você. Você não pode indefinidamente colocar essa coisa como "não há saída", não, a saída existe.

Então, naquela época essas crianças com essa doença específica ou ia para transplante ou você ia ver a criança morrendo. E as mães tinham seus bebês e de alguma forma a gente teve que agregar à situação específica da época do transplante. Como foi também em anos passados, teve que inaugurar determinados tratamentos das crianças neonatais que se faziam em outros centros do Brasil e não se faziam aqui.

Para você fazer cirurgia cardíaca pediátrica, precisa de um grande grupo de médicos, enfermeiros e outros profissionais afins que deem conta da gestão institucional. O transplante em si não é um desafio. A primeira coisa que precisa é você saber que é possível fazer, ter a demanda, está vendo aquela necessidade e precisar saber se tem uma instituição que suporte isso. Não para uma eventualidade, fazer um transplante. Porque acontece de muitos fazer um transplante e parar. 

Legenda: O médico falou sobre falou sobre as particularidades dos transplantes pediátricos.
Foto: Ismael Soares

É saber se aquela instituição vai dar conta de perenizar um projeto, transformar isso num programa e, depois, numa cultura de política pública, que é o que aconteceu com o nosso Estado. O nosso Estado, na área de cirurgia de transplante cardíaco e transplante cardíaco pediátrico, tem isso como uma política de Estado, política pública, portanto, investe recursos para que isso cada dia se faça mais e se faça melhor. 

Então, esse é o grande mérito do gestor que banca esse outro tipo de atitude. E nós, do lado de cá, precisamos entregar para a sociedade o resultado e para convencer que uma política pública tem efetividade. Não basta só transplantar. Onde é que estão essas crianças? Essas crianças são cidadãos que vão à escola, que tem capacidade cognitiva, que contribui com o bem-estar dos outros? A gente tem que devolver isso. 

Esse é o maior desafio na cirurgia de transplante cardíaco pediátrico, porque metade dessas nossas crianças, ao longo de 10, 15 anos, a gente perdeu. Esse é um outro ponto. Eu não estou criticando quem pensa dessa forma, acho que tudo tem seus fundamentos: ‘Ah, você vai fazer um negócio desse, você vai demandar tempo, dinheiro, investimento, para uma sobrevida tão pequena, quando a gente tem outras demandas tão mais críticas’. Mas na saúde a gente não pode pensar dessa forma. 

Antes era uma sobrevivência zero, todos morriam, agora a gente já dá qualidade de vida por 10, 15 anos para essas crianças. A medicina não trabalha nessa condição de limitar o acesso. Ela precisa ser prudente o suficiente para empregar tecnologia e recursos, entendendo que você está fazendo o bem, não está prolongando o sofrimento e, portanto, está dando oportunidade de vida para a criança e para a família conviver com ela. 

É assim que a gente tem que pensar. Foi assim que pensamos há tantos anos quando veio para cá, é assim que a gente pensa atualmente, e é assim que eu acho que a maioria dos médicos ou de pessoas envolvidas na área de saúde pensa, senão a medicina estaria atrasada há séculos, não é? 

A área dos transplantes envolve muitos profissionais, diferentes áreas e as condições próprias de cada paciente. Quais são os pontos mais sensíveis para viabilizar esse processo?

O mais difícil é fazer com que o time entenda que é capaz e tenha um gestor que compre a ideia de que isso é possível. Essa é a maior dificuldade. O maior desafio é perenizar uma política pública de Estado. Um time que seja, que se entenda como capaz de fazer e trabalhar indefinidamente para que isso seja um programa continuado. 

Eu não posso julgar como mais ou menos importante uma etapa do transplante, porque aí eu estaria entendendo que isso não é um processo, uma linha de cuidado. Não adianta você fazer um belo implante, se você não tiver o cuidado depois. 

Se eu fizer um belo de um transplante e não tiver quem cuide, todo santo dia dessa criança para que ela no final de tantos anos esteja viva, não adiantou de nada tanto investimento. É necessário que tenha o devido olhar para cada fase do transplante, por isso, é tão complexo. 

Fazendo uma analogia com a cirurgia cardíaca pediátrica convencional, um percentual considerável, você opera cura e a criança vai para casa, não precisa de mais cuidado. Mas outro percentual desses bebês vai precisar de tratamento estadiado ao longo da vida, requer cuidados na atenção primária. Então, (o transplante) não difere muito do cuidado da cirurgia cardíaca pediátrica de uma maneira geral, das condições congênitas. 

O transplante é mais crítico porque ao deixar de tomar o remédio, a criança faz rejeição e morre. Tomar um remédio numa quantidade maior, vai fazer imunodepressão, infectar e morrer. Esse cuidado refinado do time de enfermagem, dos médicos, dos psicólogos, dos assistentes sociais que cuidam, é fundamental. Quando se vê um resultado de tantos anos com muitas crianças transplantadas, esse grande mérito está nesse grupo que controla e que cuida dessas crianças. 

O resultado de curto prazo é saber indicar, saber fazer e saber lidar com o pós-operatório imediato. Mas o resultado de longo prazo depende mais da condição de cuidado dessa equipe multiprofissional que lida diuturnamente pela qualidade dessas crianças. 

O que pega, algumas vezes, na nossa região, são dois pontos: a condição social dessa criança que vai ser transplantada e a capacidade cognitiva, de compreensão de vida, porque você muitas vezes têm escolaridade, mas não tem capacidade de pensar.  Se eu não tiver uma condição social razoável de moradia, de transporte, de distância do centro transplantador, isso é um complicador. 

E outra coisa é a capacidade familiar desse núcleo de preservar essa criança numa linha de cuidado muito bem adequada. Porque essa criança que hoje é miúda, ela vai se transformar num adolescente com todos os conflitos que um adolescente vai passar. Imagine você, um adolescente que tem certas limitações ou certas obrigações com a saúde dele. O que vai acontecer? Ele pode se rebelar de alguma forma. 

Doutor, eu tenho mais duas perguntas. Uma especificamente sobre o procedimento em si, pois acho que há muita curiosidade e outra sobre o trabalho das equipes que participam do processo. Como funciona?

Eu tenho uma imagem em um livro de transplante que eu acho sensacional. Essa foto é emblemática: eu estou lá transplantando com um colega e tem duas bacias, uma com o coração que eu tirei, doente, e na outra bacia o coração que chegou do doador. O paciente está deitado e não tem coração. Ele está suportado ali por uma máquina para manter a vida enquanto um coração saiu e o outro ainda não foi implantado. Ou seja, nesse momento tem um buraco sem uma bomba propulsora da vida. Essa foto é emblemática e dá respostas a essa curiosidade das suas perguntas.  

Então o transplante não começa naquele momento. O transplante em si começa na hora que alguém liga daqui e diz: tem um potencial doador. Então eu tenho uma criança que está em casa ou no hospital e tem um potencial doador. Ele precisa cumprir algumas etapas de potencial. 

Nessa hora eu já compatibilizo o grupo sanguíneo, a criticidade na lista de espera, o peso, tá tudo ali. É um candidato a ser elegível como doador, aí vai percorrer um caminho entre exames, a parte legal de doação, abordagem da família e uma bela hora diz assim: fechou o protocolo. Fechou, então a gente pode começar o transplante. 

Nessa hora para diante, nós temos mais ou menos duas horas para sair o time daqui para ir captar, portanto, ou no IJF ou um hospital da rede estadual, em Fortaleza ou vai para o interior num raio de 500 quilômetros mais ou menos, que dá mais ou menos o tempo de isquemia que temos. 

Quando é do IJF e o tempo de isquemia é pequeno a gente vai e volta, mas na situação mais crítica nós vamos buscar lá na região do Cariri um coração que tá lá, e eu preciso fazer uma conta que eu tenho mais ou menos entre três e quatro horas que é o tempo ótimo para fazer um transporte de isquemia. Isso quer dizer, pinçar o coração, proteger o coração e retirar o coração e eu abrir aorta aqui, implantar. Tenho aí três horas, quatro horas para fazer isso. 

Só de transporte de lá para cá, mais ou menos uma hora, uma hora para preparar, duas horas, um pouco mais de duas horas e meia, eu vou ficar aí com uma hora e meia, entre uma hora e uma hora e meia para implante. Quando é uma cirurgia de operação, primeira cirurgia, eu implanto em 60 minutos, um coração ou um pouco menos. 

Dependendo da complexidade anatômica de tantas reintervenções que essa criança já passou, isso pode esticar um pouco o tempo de isquemia e isso é um problema. Se a criança tem um tempo de isquemia prolongado, ela não vai bater bem, ela vai para uma máquina para recuperação. Então muitas vezes quando eu tenho uma criança crítica de várias intervenções e a criança está relativamente bem em casa, eu faço a ponderação, eu e a Klébia (médica referência também do Hospital do Coração), se a gente deve ou não usar esse tempo. 

Temos essa necessidade de fazer esse planejamento, então dê o pontapé, em duas horas começa realmente o transplante, sai o time para captar. Nessa hora começa os contatos de lá, a enfermeira de lá com a enfermeira daqui e eles começam a tirar o coração aqui ou começa a preparar o coração, o paciente. 

Às vezes, o senhor vai na equipe de captação? 

Não. Eu fui um ou duas vezes, mas já me demitiram (brincando). Não, vai um time de captação e esse time tem que conversar comigo do time de implante, porque tem características de implante do coração que vem e eu preciso dizer: tem que tirar mais ou menos aorta, mais ou menos vaso, então já começa assim. 

Tenho que dizer: ‘fulano, você vai captar um coração para uma criança tal, e eu preciso que você me traga nesse coração esse tipo de aspecto, esse tipo de anatomia’. Depois fica o contato. Chegaram, o coração tá bem, tiraram, o coração tá ok e eu fico acompanhando. Então quando o coração começa a voar (se vier da captação fora de Fortaleza), eu boto o doente na sala e vou trabalhando. Quando o coração está chegando por aqui é que eu vou começar a cirurgia. 

Legenda: Valdester também participou do primeiro transplante do tipo na rede pública do Ceará.
Foto: Ismael Soares

Mas, quando é a terceira e quarta cirurgia da criança, eu sei que eu vou demorar tempo para abrir tudo. Então existe uma compatibilidade, uma comunicação fina e constante entre o time que capta e o time que implanta. Por que isso? Porque quando o coração (doado) chegar aqui,  é a hora que eu estou terminando de tirar o coração (doente). E eu evito que eu fique com o coração no gelo, aumentando o tempo de isquemia. Então tem que haver uma convergência de momentos para que a gente faça o transplante. 

E quais os momentos são mais tensos?

O transplante começa na hora que fecha o protocolo na hora que sai o time, depois disso essa comunicação fina, depois você passa a fazer o implante. Aí na hora que eu estou começando o implante, que o tempo está razoável, todo mundo relaxa. Porque você já sabe que o caminho ali vai estar pavimentado. 

Aí tem um momento crítico da situação, é quando eu solto o clamp (técnica de pinçamento usada durante cirurgias cardiovasculares), se o coração vai bater bem. Você soltou, irritou as coronárias e o coração começou a bater. Ele vai dar conta de bater nesse corpo novo? Pronto, esse é o momento. Quando você olha, o coração tá batendo bem, então tá ok. 

Na parte de evolução, de manejo pós-operatório, é crítico. Mas você tem alguns momentos que pode parar, ponderar, avaliar se bota uma medicação. A cirurgia não, esses momentos são muito exíguos e eu não tenho tempo, eu não posso errar em nada nesse momento, porque aí eu posso perder o coração naquele momento específico. 

Nesse momento do transplante, o cirurgião está acompanhado de outros cirurgiões e demais profissionais, mas ele lidera a tomada de decisão?

Numa situação dessa, o cirurgião responsável tem que tomar as decisões. Mas ele sabe que no time tem pessoas fazendo várias funções e ele não precisa fazer todas elas. Ele precisa ser comunicado que essas coisas estão acontecendo. 

Na hora do implante, estão o cirurgião, o primeiro assistente, o segundo assistente, a instrumentadora, o anestesista ou os anestesistas, o perfusionista coração-pulmão e a circulante de sala. Esse é o time básico de controle. E tem um time que traz o coração, portanto, nessa hora tem o assistente vai lá, pega o coração e me entrega para o implante. 

Nós já fizemos quase 100 transplantes de criança, mas o time que faz o transplante de adulto e criança já passou de 600 procedimentos. Mas tem horas que parece que é o primeiro. Por isso que não pode ficar desatento. É preciso que cada transplante de cada procedimento seja tratado como único, ele não é uma peça dos 600, não pode ser. 

Não, ele é único. Ele tem começo, meio e fim para aquele doente. O foco do time inteiro é para aquele doente, eu não estou preocupado se ele é o vigésimo, trigésimo, centésimo, ele é o transplante, ele é o paciente e ele precisa ser cuidado dessa forma, porque ele, paciente, e ela, família, entendem que a gente está cuidando dessa forma. Não como mais um caso. 

O senhor tinha dito que queria falar sobre o tempo de isquemia…

Pedi para você me lembrar do tempo de isquemia porque ele é um ponto crítico, sério também para gente, para o adulto e para criança. A gente está tentando trazer, não para pediatria, porque a máquina ainda não é, mas para o adulto, máquinas que a gente tira o coração a uma distância maior do que isso e ela preserva o coração, fica batendo na máquina. Preserva esse coração por um tempo mais longo, então não tem isquemia. 

Essa é uma tecnologia que deve ser incorporada no Brasil em algum tempo, primeiro para os adultos, no futuro para as crianças, e que vai permitir que a gente tenha um tempo mais elástico de captação. Então corações que estão muito distantes, que estão numa disfunção que é temporária, a máquina pode recuperar, então isso é um ponto fundamental. O Dr. Juan está à frente desse projeto e isso vai mudar a característica do transplante, da captação de órgãos no Brasil em curto espaço de tempo. 

Na pediatria isso ainda tarda, porque o modelo ainda é pra adulto, mas se chega pra adulto, vai chegar pra criança. 

E quando o transplante termina, começa outro ponto de atenção no pós-operatório?

Então, quando a gente fecha tudo, entrega a criança na UTI e aí começa o outro momento crítico. Quer dizer, o pós-operatório de uma cirurgia cardíaca pediátrica, agregada a isso, uma criança que vai precisar combater a rejeição aguda usando medicamentos. 

Vencido o momento crucial que é o implante e o coração tá com função normal, você passa a criança (para UTI, depois enfermaria), depois é educar a família. Depois essa criança vai e vem no hospital por muitas vezes e assim a gente vai lutando. 

Mas tem um fator que é muito importante, é a informação, informação para quem doa. Então, como é que eu consigo o coração? É um momento crítico, mas a família precisa ter essa disponibilidade emocional de doar. Então primeiro, ok, eu doei um coração, eu preciso fazer isso que estamos fazendo. Porque isso (produção de matéria jornalística) é entregar para a população um tipo de prestação de contas. 

A família que doou está aguardando essa informação "Olha, aquele coração do meu filho ou do meu parente, foi usado e taí o resultado". Isso tem a devolução do conhecimento e informação apropriada para que a sociedade passe a, num momento de tanta dor, ter essa lembrança que ela possa doar. 

Muitas doações não se efetivam por negativa da família ou muitas vezes até por falta de conhecimento do profissional, que hoje é muito menos, é óbvio. 

Créditos

Thatiany Nascimento, Repórter | Ismael Soares, Produtor Audiovisual | Jemmyle Cunha, Lincoln Souza e Louise Dutra, Equipe de Arte | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

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