A suspeita de morte encefálica, aquela na qual há a parada completa e irreversível das funções do cérebro, já era cogitada e, por volta das 9h de um dia comum da semana, em 2026, o protocolo para a constatação daquele óbito foi aberto em um hospital de Fortaleza. Era uma pessoa adulta. Daí em diante, uma engrenagem acelerada, sincronizada e onde nada pode falhar, foi ativada. Equipes diversas de saúde já sabiam exatamente como agir. Cada passo seria medido, programado e comunicado.
Tudo indicava que estava prestes a ter início um procedimento que, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), somente em 2025, ocorreu 2.192 vezes no Ceará: um transplante de órgãos. A possível confirmação daquela morte encefálica - como tantas outras - traçaria desfechos opostos e complexos. É assim porque, nesses casos, dois extremos da vida e da saúde se misturam: luto para alguns e possíveis recomeços para outros.
O veredicto do óbito veio às 18h40 daquele dia e trouxe, evidentemente, um cenário de pesar para familiares daquele paciente (cujo nome, idade ou gênero não será identificado nesta reportagem em cumprimento à Lei dos Transplantes, que requer a preservação e proteção da privacidade de doadores mortos e receptores para garantir que o processo de doação ocorra de forma ética e segura) que, tensos, acompanhavam a situação.
Ao mesmo tempo, a decisão dos entes diante dessa dor seria capaz de alterar os rumos de inúmeras outras vidas. Desconhecidas, anônimas e, até então, ameaçadas, elas poderiam ter a esperança devolvida caso um "sim" fosse proferido pelos também desconhecidos, anônimos, porém enlutados, do outro lado.
Àquela altura, a Central de Transplantes do Ceará estava acionada. A entidade, que pertence à estrutura da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), coordena, monitora, avalia e fiscaliza todas as atividades de doação e transplantes de órgãos e tecidos no Estado. As equipes ficam na sede da Pasta, na Praia de Iracema, em Fortaleza. Lá, o trabalho nunca para. Ocorre 24h por dia, sete dias por semana.
Entre a primeira avaliação sobre o óbito e a confirmação, passaram-se quase 10 horas. O Diário do Nordeste foi informado desde a suspeita da morte encefálica, e passou a acompanhar o passo a passo do procedimento tanto na unidade notificante da morte - Hospital Leonardo da Vinci, na Aldeota, onde houve a captação dos órgãos - quanto na unidade onde foi realizado um dos transplante, o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), no bairro Papicu. Dia comum para milhares de pessoas. Não para aquelas duas famílias.
O Diário do Nordeste inicia, neste mês, a série de reportagens multimídia “EntreLaçados, a rede que move transplantes no Ceará” e revela bastidores de um processo que, guiado pela ciência, entrelaça para sempre pessoas, profissionais e sensações como esperança, solidariedade, luto, dor, amor e vitória. Além de reportagens no site, o especial traz um minidocumentário focado no tempo e no processo das esperas por transplante, publicações nas redes sociais, episódios de podcast e uma newsletter.
O que ocorre antes do transplante?
Quando se conjecturou que a morte encefálica poderia ter ocorrido naquela noite, uma série de rigorosos procedimentos precisaram ser aplicados no Hospital Leonardo da Vinci e adentraram a manhã do dia seguinte. Faz parte do processo.
No Brasil, a retirada de órgãos e tecidos humanos, segundo a legislação, só acontece quando a morte encefálica é constatada e registrada por dois médicos. Esses profissionais não podem, em hipótese alguma, ser participantes das equipes de remoção e transplante.
No Leonardo da Vinci, esse rito foi mais uma vez executado. A unidade é um hospital notificante, portanto, tem perfil para receber pacientes com suspeita de morte encefálica e é responsável por comunicar às autoridades sanitárias a ocorrência de doenças e óbitos com potencial de doação de órgãos, explicou a enfermeira da unidade, Nayane Almeida, à equipe do Diário do Nordeste, no corredor do Centro cirúrgico enquanto o procedimento de captação de órgãos acontecia.
No Ceará, segundo a Sesa, 57 hospitais, entre públicos, privados e filantrópicos, estão cadastrados no Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde e se enquadram na condição de hospitais notificantes.
Pacientes com suspeita de morte encefálica, explicou a enfermeira, são aqueles internados na UTI, sob ventilação mecânica com lesão neurológica grave e irreversível, como pessoas que sofrem traumatismo cranioencefálico, parada cardíaca, têm algum tumor cerebral ou passaram por situações como afogamento.
“São pacientes que estão em ventilação mecânica, têm a sedação retirada e não despertam. Para que tudo isso seja confirmado, é necessário haver um exame de imagem, uma tomografia, que justifique essa morte encefálica”.
O hospital também é referência no processo de identificação de mortes encefálicas, pois atende alguns requisitos como: ter leitos de UTI, dispor de exames como tomografia e eletroencefalograma, além de médicos capacitados para realizar o protocolo de morte encefálica, disse ao Diário do Nordeste minutos antes da chegada da equipe de captação de órgãos, naquele dia, o médico regulador da unidade, Leandro Eduardo Sena.
O protocolo de confirmação de morte encefálica, aponta ele, começa quando o paciente deixa de apresentar sinais de consciência e respostas neurológicas, embora o coração siga batendo e as demais funções corporais sejam mantidas por aparelhos. O procedimento teve início na noite daquele dia e foi finalizado na manhã seguinte.
“Além dos dois exames clínicos realizados, é feito um exame complementar, que pode ser um eletroencefalograma, um doppler transcraniano ou uma cintilografia. Aqui em Fortaleza, utilizamos mais o eletroencefalograma e, como segunda opção, o doppler transcraniano, quando o eletroencefalograma apresenta resultado incompatível, por exemplo”.
Em mortes desse tipo, quando o médico da UTI constata o óbito, a equipe, detalha Leandro, já sabe se os órgãos do potencial doador estão comprometidos ou não. Isso ordena as etapas da possível doação, e auxilia no processo de definição sobre o que poderá ser doado.
“Tem uns exames que vão descartar as patologias que podem comprometer a vida de outro paciente, caso ele seja transplantado. A importância desse protocolo é gigantesca e ele precisa ser seguido”, reforça Leandro.
Naquela situação, a família do possível doador já estava comunicada. O chamado dos parentes - como em outras situações do tipo - foi feito quando o protocolo de morte encefálica estava prestes a ser aplicado na manhã do dia da suspeita. Tudo foi repassado: suspeita, abertura e fechamento.
A agilidade do processo, aponta a enfermeira, se dá também “porque, na morte encefálica, os demais órgãos vão falindo gradativamente devido à própria fisiopatologia”. Logo, quanto mais rápido o procedimento, melhor a qualidade dos órgãos que chegarão a quem vai receber.
“É muito difícil que (a família) não queira que o protocolo seja executado, porque geralmente o familiar quer saber o que está acontecendo, porque como é que está tudo funcionando normal e (o paciente) não está acordando? Geralmente, os familiares querem saber (se houve morte encefálica). A maior dificuldade em relação aos familiares é aceitar a doação, se compadecer, ter o entendimento que aquele órgão pode ajudar e salvar vidas".
A morte encefálica foi confirmada, e a família comunicada oficialmente. A corrida continuou. Havia ali uma possibilidade que rapidamente poderia ser esvaída caso não fosse aproveitada no tempo adequado: a retirada dos órgãos em boas condições e implantação em pacientes que aguardavam na fila. Essa lista no Ceará, em 2025, tinha ao menos 2.658 pacientes à espera de órgãos, conforme dados do Registro Brasileiro de Transplantes.
Aquela situação, mais uma vez, movimentou uma engrenagem nada simples e envolveu médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, anestesistas, psicólogos, assistentes sociais, motoristas e assistentes administrativos, dentre outros.
Ante uma família enlutada, a Equipe de Doação de Órgãos para Transplantes do hospital, composta por enfermeiro, assistente social, médico e psicólogo, naquele dia, explicou as possibilidades de aproveitamento dos órgãos e apelou à solidariedade. “Esse é o momento que tem um aparato mais com Serviço Social e é feita uma reunião familiar depois do fechamento (do protocolo)”, completa o médico.
Em paralelo, a Central de Transplantes - que é o grande conector de todas as partes - já estava em plena articulação. A orientadora da célula do Sistema Estadual de Transplantes (Cetra) da Sesa, Eliana Barbosa, explica que há famílias que resistem, mas outras que muitas vezes acompanham de perto a gravidade do paciente e afirmam: “Ah, doutor, se tiver como, a gente quer doar".
“Aquele momento é para o diagnóstico e a confirmação da morte encefálica. Só depois dessa família acolhida, depois que ela entendeu que seu ente querido realmente está morto, é que a gente oferece a doação dos órgãos. É importante frisar que o Brasil tem uma das legislações mais seguras para a confirmação da morte encefálica, porque exige duas avaliações clínicas por dois médicos diferentes, habilitados para esse diagnóstico e o exame complementar, que pode ser para avaliar o fluxo sanguíneo intracerebral ou a atividade elétrica cerebral. São duas avaliações e um exame complementar”, reforça Eliana.
A família doadora disse sim
Repetindo o gesto de 55% das famílias cearenses em 2025 que perderam entes em morte encefálicas, os parentes do potencial doador, naquele caso, aceitaram a doação. O sinal positivo disparou um cronômetro inflexível. Esperança para desconhecidos e uma demanda por agilidade.
Depois da autorização familiar, a documentação necessária foi enviada à Central de Transplantes. Aquele "sim" garantiu a retirada de fígado, rins e córneas destinados a três unidades de saúde diferentes.
A solidariedade da doação, e, nesse caso, múltipla de órgãos, fez filas avançarem, devolvendo esperança a outros pacientes (que também não serão identificados). Para receber o órgão, porém, os receptores, naquele dia, precisavam estar clinicamente aptos, ou seja, até mesmo uma gripe poderia ter impedido a realização do transplante, caso estivessem acometidos.
No processo ágil, a Central de Transplantes comunicou às equipes médicas responsáveis pelos pacientes selecionados e elas avaliaram a condição deles. Naquele momento, a Central já tinha cadastrado o doador e reunido os exames exigidos.
A lista de possíveis receptores foi gerada automaticamente, seguindo critérios técnicos e a ordem de espera. Essa seleção só pode ser feita pela Central, sem interferência das equipes hospitalares ou dos centros transplantadores interessados no processo.
“Aí a gente (Central) liga. Olha, tem um fígado aqui para o seu paciente, como ele está? A equipe diz: ‘me dê um tempo que eu vou ver’. E liga para o paciente: ‘o senhor tá bem?' 'Não, eu tô com essa virose, infelizmente'. A equipe justifica e passa para o segundo da fila’”, explica Eliana Barbosa.
Quanto mais grave o estado de saúde do paciente, mais próximo do topo da fila ele fica. E nessa corrida cheia de etapas, caso não esteja internado, esse possível receptor também precisa conseguir chegar o mais rápido possível ao hospital onde o transplante ocorrerá, e passará por uma série de exames.
Nesse cálculo, entram o tempo de isquemia de cada órgão (período máximo em que pode permanecer fora do corpo), de deslocamentos das equipes e dos procedimentos necessários. Tudo medido em um cronômetro regressivo
Como ocorre o transplante?
Naquela data, o "sim" da família doadora ecoou em algumas unidades de saúde, incluindo o Hospital Geral de Fortaleza (HGF) que recebeu o fígado. Eram 13h58min quando equipes vindas do hospital chegaram ao Leonardo da Vinci para a captação múltipla de órgãos.
Médicos e enfermeiros integravam o conjunto que cruzou o saguão de entrada da unidade que, naquele horário, estava cheia de pacientes à espera de consultas clínicas e visitantes que aguardavam a hora do contato com quem estava internado.
O Diário do Nordeste registrou cada momento e ao entrar na unidade a equipe carregava a caixa transportadora de órgãos, com a inscrição “HGF”. A captação múltipla de órgãos começou depois de 14h. Um minuto de silêncio foi feito. Um protocolo simbólico, relatado por um enfermeiro ao Diário do Nordeste, no corredor do centro cirúrgico.
Naquela sala de cirurgia, a equipe de captação do fígado tinha dois cirurgiões - o principal, o auxiliar e os dois enfermeiros perfusionistas para o fígado. Para a retirada dos rins, outros dois cirurgiões - o principal e um residente - e um enfermeiro. Outra equipe composta por enfermeiro e o técnico de enfermagem preparava a retirada das córneas. No espaço, muitos profissionais reunidos, sob pressão, davam vazão àquela corrida.
Pela ordem, primeiro foi retirado o fígado, depois rins e córnea, contou ao Diário do Nordeste ainda no centro cirúrgico, o cirurgião digestivo de transplante hepático e renal, Airton Lopes, integrante da equipe do HGF e que estava no processo de captação. Ele realizava o cadastro de informações, após ter deixado a sala de cirurgia, quando falou ao jornal.
“Nas captações, a perfusão hepática é sempre prioritária em relação à perfusão renal. Por isso, em toda captação que envolve fígado e rim, a equipe do fígado vem antes, faz toda a preparação dos órgãos com a solução de preservação e, na sequência, começa a retirada. Por quê? Porque o tempo entre a retirada e a colocação do órgão no receptor tem que ser o menor possível”.
Ele também reitera que, “quanto mais rápido (o intervalo de tempo do órgão fora do corpo humano), melhor o resultado do funcionamento do novo órgão no paciente”. Já os rins, completa, “permitem um tempo de isquemia fria (período após a aplicação da solução de preservação) bem maior, de 18 ou 24 horas, mesmo na ausência de máquina de perfusão”.
Após retirada do órgão, a conservação, relata ele, é feita da seguinte forma: “pegamos os grandes vasos do abdômen, que é a artéria aorta, e, através desse vaso, injeta-se uma solução chamada solução de preservação. Fazemos a infusão desse líquido em grandes volumes; em média, oito litros de solução são injetados nesse paciente. Isso é feito para que todo o sangue seja retirado de dentro dos órgãos e haja somente, no interior das veias e artérias dos órgãos, a solução de preservação, impedindo que ocorra destruição e morte das células dos órgãos, sejam dos rins, do fígado, do pulmão ou do coração”.
Em seguida, o fígado foi armazenado em uma câmara fria, em uma caixa térmica com gelo e envolvido na solução de preservação, que naquela circunstância foi fornecida pelo HGF, hospital onde minutos depois esse órgão entraria em um outro corpo gerando nova chance de vida.
“Às vezes, essa captação é no interior. Nesse caso, a equipe do próprio interior é que vai ter que levar a solução para poder fazer essa perfusão. No interior, somente o Cariri tem disponível uma equipe para fazer a captação de órgãos. Mas, nos outros municípios para onde a gente costuma ir, como Itapipoca, Sobral, Quixeramobim e Limoeiro do Norte, eles não dispõem disso”, afirmou o médico que, na rotina de trabalho com transplantes, vez ou outra, precisa viajar junto à equipe para buscar órgão em outras cidades do Ceará.
No interior, acrescenta, a equipe que capta o fígado sempre capta os rins também. “Não existe essa divisão entre fígado e rim. No interior, é somente uma equipe, porque você reduz a logística”. O deslocamento para as regiões mais distantes é feito de avião fretado ou de helicóptero, a depender da distância, pontua.
Minutos após a entrevista, às 17h19, o cirurgião sinalizou: “a equipe de captação deixará o hospital com o fígado”. Eles seguiram para o HGF. O procedimento de retirada dos demais órgãos prosseguiu. “Poucos minutos quando tudo é finalizado, comunicamos o término do processo à família e realizamos a liberação do corpo. O corpo é totalmente reconstituído e não fica nenhuma deformidade”, ressaltou a enfermeira Nayane Almeida.
Corrida rumo ao HGF
Órgão na caixa de transporte, e o veículo - espécie de furgão compacto cujo adesivo fixado na lateral recordava o propósito “doe órgãos, ajude a salvar vidas” - esperava na entrada do hospital. Por volta das 17h30, após atravessar ruas e avenidas de Fortaleza em cerca de 11 minutos a bordo do carro com sirene e que furou semáforos vermelhos na bendita corrida, o órgão chegou ao HGF.
Carro estacionado, pressa pelos corredores na condução do órgão ao centro cirúrgico no 5º andar. Em uma das grandes salas daquele espaço, o paciente, desde as 16h45, estava sob a cama cirúrgica bastante iluminada, entre máquinas e instrumentos, com diversos monitores - sendo dois deles TV -, servindo de projetor de informações sobre como se dava aquele procedimento.
No decorrer da cirurgia, a sala chegou a ter mais de 10 profissionais atuando simultaneamente, entre cirurgiões, anestesistas e enfermeiros. Um quadro fixado na parede do lado direito registrava o passo a passo do momento, como a informação que o receptor foi anestesiado às 16h50.
No procedimento de retirada do fígado, chamado tecnicamente de hepatectomia, para que o novo órgão pudesse ser implantado, estavam dois cirurgiões, uma médica responsável pela chamada "cirurgia de bancada" - etapa em que o fígado doado passa por inspeção, preparo e adequações técnicas antes de ser transplantado -, uma anestesista e uma residente - responsáveis por auxiliar no monitoramento contínuo do paciente, controlar a dor e garantir a estabilidade cardiovascular.
Na enfermagem, havia uma instrumentadora, encarregada de manipular e entregar os instrumentos cirúrgicos dentro do campo estéril, e uma enfermeira circulante, que fazia a ligação entre a equipe estéril e o restante do centro cirúrgico, providenciando materiais e registrando informações sobre o procedimento.
Posteriormente, essa equipe deu lugar à do implante, que chegou para colocar o novo fígado no paciente. Todos esses profissionais pertencem ao serviço de transplantes do próprio HGF. O fígado doente foi tirado e, o novo, implantando. O transplante terminou às 22h14. Uma nova chance nasceu ali.
Créditos
Thatiany Nascimento, Repórter | Ismael Soares, Produtor Audiovisual | Jemmyle Cunha, Lincoln Souza e Louise Dutra, Equipe de Arte | Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, Editores de DN Ceará | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | G. André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo