Doação de órgãos e tecidos: quando a ciência encontra a humanidade
No Brasil, a doação de órgãos e tecidos é uma política pública consolidada, mas ainda enfrenta desafios que não se superam apenas com rotinas técnicas; exigem acolhimento, escuta ativa e cuidado. A ciência, sem humanidade, é insuficiente.
O Instituto Banco de Olhos do Ceará atua nesse cenário ao compreender que a doação começa antes do momento final da despedida. Começa na conversa em casa, na orientação correta à família, na atuação ética e integrada dos profissionais de saúde e dos órgãos públicos. É nesse ecossistema que a decisão de doar deixa de ser um tabu e passa a ser um ato solidário. O transplante é o único tratamento médico que precisa da sociedade para acontecer.
Outro ponto central é o impacto social e econômico dos transplantes. Cada órgão e tecido doado representa não apenas uma vida salva, mas também a redução de longos tratamentos, internações recorrentes e custos prolongados ao sistema de saúde. Investir na cultura da doação é, portanto, investir em eficiência, sustentabilidade e justiça social.
Mas talvez o aspecto mais delicado e, menos visível, seja o acolhimento ao luto. Famílias que autorizam a doação atravessam um momento de extrema vulnerabilidade emocional. Preparar profissionais para lidar com esse instante, com empatia e responsabilidade, é tão essencial quanto qualquer avanço tecnológico. É ali que se constrói confiança.
Falar sobre doação de órgãos e tecidos é falar de futuro. É entender que políticas públicas eficazes nascem da integração entre instituições, do diálogo com a sociedade e da valorização da vida em todas as suas fases.
Lisiane Paiva é enfermeira