E agora, Vovó?
Vivemos um tempo de mudanças. Em várias áreas das nossas vidas, mas uma delas me chamou a atenção esses dias: a alimentação das pessoas. Mais precisamente, as transformações em decorrência de restrições alimentares. Em minha casa, no almoço de domingo, o conflito está instalado: meu cunhado é vegetariano, minha irmã tem intolerância à lactose, minha filha é alérgica a glúten e fritura causa enxaqueca na minha mãe. Nossos tradicionais almoços de domingo têm se tornado um dilema existencial para todos.
Tenho certeza que isso não é um “privilégio” que está acontecendo somente na minha casa. Os bolinhos no trabalho, as festas de aniversário na escola, os salgadinhos nas repartições e por aí vai também têm encontrado problemas. Mas qual o impacto disso nas nossas vidas? Parte da psicologia negligenciou por muito tempo a questão da alimentação. Não a parte da doença, da obesidade, dos excessos. Mas a parte cultural, a parte social. O quão importante são esses rituais para as pessoas, o quanto fazem bem, o quanto ajudam a construir sua personalidade e viver seus dias com mais prazer.
James Hillman afirma que “A comida é tão fundamental, mais até que a sexualidade, a agressão ou o aprendizado, que é impressionante perceber o descaso com comida e o comer na Psicologia Profunda.” Nas histórias infantis, nos contos de fada, na mitologia, o ato de comer é cercado de significados. Desde a incorporação de poderes, de qualidades, até tentativas de superar e engolir adversários dentro da barriga ou outras partes do corpo.
As palavras também falam por si. Quantas expressões usamos no dia a dia. Uma menina doce, um rapaz amargo, uma situação indigesta. Um pepino para resolver, chorar o leite derramado. A festa está fervendo, estou entalado com ela e a informação não está sendo bem digerida, por exemplo. Certamente, esses encontros não são apenas para devorar os alimentos, embora isto faça parte.
Nestes momentos, há o afeto, a troca de conversas, a celebração de amizade, a realização de negócios, o debate político, o aprendizado ao respeito e ao tempo, ensinamentos de paciência, disciplina e transformação para os mais novos. É um momento cultural e civilizatório do ser humano. Há uma função simbólica, revitalizadora, fraterna.
Gustavo Barcellos afirma em sua obra O banquete de Psique que “a refeição é ato cultural e simbólico. É ato psicológico: é soul making, alimento psíquico, feixe de símbolos e emoções, feixe de mensagens.” Temos muito a perder além do nosso estômago. Que possamos achar, então, soluções para que a vovó não deixe os almoços de domingo, e que estas ajudas possam partir de todos, pois esses rituais ajudaram a me moldar, bem como, tenho certeza, boa parte de vocês.