E agora, Vovó?

Escrito por
Felipe Meira Marques producaodiario@svm.com.br
Felipe Meira Marques é psicólogo
Legenda: Felipe Meira Marques é psicólogo

Vivemos um tempo de mudanças. Em várias áreas das nossas vidas, mas  uma delas me chamou a atenção esses dias: a alimentação das pessoas. Mais  precisamente, as transformações em decorrência de restrições alimentares.  Em minha casa, no almoço de domingo, o conflito está instalado: meu  cunhado é vegetariano, minha irmã tem intolerância à lactose, minha filha é  alérgica a glúten e fritura causa enxaqueca na minha mãe. Nossos tradicionais  almoços de domingo têm se tornado um dilema existencial para todos.

Tenho certeza que isso não é um “privilégio” que está acontecendo  somente na minha casa. Os bolinhos no trabalho, as festas de aniversário na  escola, os salgadinhos nas repartições e por aí vai também têm encontrado  problemas. Mas qual o impacto disso nas nossas vidas? Parte da psicologia negligenciou por muito tempo a questão da  alimentação. Não a parte da doença, da obesidade, dos excessos. Mas a parte  cultural, a parte social. O quão importante são esses rituais para as pessoas, o  quanto fazem bem, o quanto ajudam a construir sua personalidade e viver seus  dias com mais prazer. 

James Hillman afirma que “A comida é tão fundamental, mais até que a  sexualidade, a agressão ou o aprendizado, que é impressionante perceber o  descaso com comida e o comer na Psicologia Profunda.” Nas histórias infantis, nos contos de fada, na mitologia, o ato de comer é  cercado de significados. Desde a incorporação de poderes, de qualidades, até  tentativas de superar e engolir adversários dentro da barriga ou outras partes do  corpo.

As palavras também falam por si. Quantas expressões usamos no dia a  dia. Uma menina doce, um rapaz amargo, uma situação indigesta. Um pepino  para resolver, chorar o leite derramado. A festa está fervendo, estou entalado  com ela e a informação não está sendo bem digerida, por exemplo. Certamente, esses encontros não são apenas para devorar os alimentos,  embora isto faça parte.

Nestes momentos, há o afeto, a troca de conversas, a  celebração de amizade, a realização de negócios, o debate político, o  aprendizado ao respeito e ao tempo, ensinamentos de paciência, disciplina e  transformação para os mais novos. É um momento cultural e civilizatório do ser humano. Há uma função simbólica, revitalizadora, fraterna. 

Gustavo Barcellos afirma em sua obra O banquete de Psique que “a  refeição é ato cultural e simbólico. É ato psicológico: é soul making, alimento  psíquico, feixe de símbolos e emoções, feixe de mensagens.”  Temos muito a perder além do nosso estômago. Que possamos achar,  então, soluções para que a vovó não deixe os almoços de domingo, e que estas  ajudas possam partir de todos, pois esses rituais ajudaram a me moldar, bem  como, tenho certeza, boa parte de vocês.

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