Quando diagnóstico é mais importante do que pressa
Escrito por
Alyne Cavalcante
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Legenda:
Alyne Cavalcante é cirurgiã-dentista
Durante muito tempo, a papada foi tratada como um reflexo direto do ganho de peso. Essa associação automática, embora comum, simplifica excessivamente um problema que, na prática, é bem mais complexo. Ao reduzir o volume abaixo do queixo a uma única causa, abrem-se brechas para abordagens apressadas e, muitas vezes, inadequadas.
A região submentoniana é sensível a diversas mudanças do organismo e do estilo de vida. Retenção de líquidos, edemas transitórios, alterações hormonais, processos inflamatórios, hábitos alimentares ricos em sódio, distúrbios circulatórios, postura inadequada e o próprio envelhecimento da pele podem interferir diretamente no contorno facial. Cada um desses fatores apresenta origem, comportamento e resposta terapêutica distintos.
A retenção de líquidos, por exemplo, costuma gerar um inchaço variável, que oscila ao longo do dia e responde a hábitos como hidratação, alimentação e sono. Já a gordura localizada tende a ser mais estável e pouco influenciada por mudanças imediatas de rotina, frequentemente associada a predisposição genética ou alterações metabólicas. Confundir essas condições pode levar tanto a tratamentos ineficazes quanto a intervenções desnecessárias.
Há ainda situações em que o volume na papada extrapola o campo puramente estético. Edemas persistentes, associados a dor, sensibilidade ou vermelhidão, podem indicar processos inflamatórios que exigem investigação cuidadosa. Nesses casos, insistir em soluções rápidas não resolve o problema e pode mascarar sinais clínicos relevantes.
Outro ponto frequentemente negligenciado é o envelhecimento estrutural da face. A perda de colágeno, a flacidez dos tecidos e a redução da sustentação muscular alteram o contorno do pescoço mesmo em pessoas magras, criando a aparência de papada sem acúmulo de gordura.
É nesse contexto que o diagnóstico criterioso se torna indispensável. Estética responsável não é sobre evitar procedimentos, mas sobre indicar a abordagem correta, no momento adequado, com base em avaliação individualizada. Menos pressa e mais critério resultam em escolhas mais seguras, coerentes e alinhadas à anatomia de cada paciente.
Alyne Cavalcante é cirurgiã-dentista