Macedo Saturnino, “Seu” Paraíba
Entre outros colegas repórteres, fui designado para cumprir este mister e recebi diversas pautas curiosas daquela legenda do jornalismo que foi Edmundo de Castro, ou Dedé de Castro
Muitos ignoram essa atividade que pratiquei, mas, durante vários anos, na época em que surgiu o Diário do Nordeste, este que aqui escreve, caro(a) leitor(a), foi repórter das editorias de Cidade e do Jornal dos Bairros (também conhecido, à época, como JdB). O Jornal dos Bairros foi uma iniciativa do jornalista Edmundo de Castro (1921-2015), que consistia numa página inteira do DN para veicular matérias sobre os problemas de infraestrutura, as reivindicações e as curiosidades dos mais diversos pontos de Fortaleza.
Entre outros colegas repórteres, fui designado para cumprir este mister e recebi diversas pautas curiosas daquela legenda do jornalismo que foi Edmundo de Castro, ou Dedé de Castro. Na época, circular pela capital cearense era tarefa tranquila, se comparada à insegurança gerada pela guerra entre as facções que hoje dominam áreas inteiras de Fortaleza, notadamente nos bairros periféricos, agravando o problema da criminalidade que nos assola.
Circulávamos - o repórter, ao lado de um repórter fotográfico e de um motorista, num veículo identificado com o nome do jornal - pela cidade inteira, de norte a sul, de leste a oeste, sem quaisquer problemas, entrevistando as pessoas, ouvindo-lhes as queixas contra a omissão do poder público e a demora nas soluções.
Porém, não nos restringíamos apenas à rotina de reclamações. Acompanhávamos reuniões de associações comunitárias, festas religiosas e visitávamos até bares e restaurantes situados na periferia. Numa dessas pautas, conheci Macedo Saturnino Gomes, o “Seu” Paraíba. Descobrimos seu pequeno comércio, ali por volta de 1985, mais ou menos, e ali conversamos longamente com o dono. A matéria publicada no jornal, ilustrada com uma foto de Hélder Freitas, nosso companheiro naquela missão, registrou um diálogo informal, no qual o entrevistado nos falou de suas origens no sertão paraibano, de sua vinda para Fortaleza, da família, da forma como iniciou seu negócio ali no bairro de Otávio Bonfim etc.
Também conversamos com fregueses do local, que elogiaram a qualidade do feijão com toucinho e farinha, prato servido pelo “Seu” Paraíba e que se tornou o chamariz, o “carro-chefe” do bar de sua propriedade. Naquele tempo em que exercitávamos um jornalismo diferente, bem mais próximo do povo, quando não existiam ainda a Internet nem as redes sociais, varávamos tardes e noites sentindo de perto a vida dos bairros de Fortaleza. Menciono a entrevista com o “Seu” Paraíba para lamentar seu desaparecimento, no dia 2 deste mês, aos 100 anos de existência.
Entre tantas outras figuras curiosas com as quais mantivemos contato, ele era bastante conhecido na vida boêmia da cidade. E, relembrando também Dedé de Castro e o Jornal dos Bairros, faço ao “Seu” Paraíba esta singela homenagem.