O Dia da Mulher além do óbvio: trabalho, realização e linguagem

Escrito por
Vivian Rio Stella producaodiario@svm.com.br
Vivian Rio Stella
Legenda: Vivian Rio Stella é linguista

Durante muito tempo, o Dia da Mulher foi tratado nas empresas como uma pausa simbólica: flores, frases inspiradoras, elogios genéricos. Em geral, tudo bem-intencionado. Mas quase sempre sustentado por um subtexto incômodo, o de que o mundo do trabalho não foi exatamente pensado para as mulheres e que, para permanecer nele, seria preciso se adaptar.

Esse subtexto ainda aparece de formas sutis. Quando mulheres são orientadas a endurecer, não levar para o lado pessoal, impor-se mais. Quando a liderança continua associada a códigos historicamente masculinos de fala, presença e tomada de decisão. Quando a realização profissional feminina parece condicionada à capacidade de se masculinizar, ainda que ninguém diga isso explicitamente.

Talvez seja hora de nomear o óbvio que é evitado: as mulheres se realizam no trabalho, não apesar de serem mulheres, não quando conseguem agir como homens, mas porque trazem outras formas de pensar, comunicar, sustentar conversas e construir relações.

Celebrar o Dia da Mulher além do óbvio passa, necessariamente, por reconhecer o trabalho como espaço legítimo de identidade, autoria e pertencimento feminino, e não como um território neutro em que todos deveriam caber do mesmo jeito.

Isso exige sair do campo da homenagem e entrar no campo da linguagem, da experiência e da escuta, criar espaços em que possamos discutir, por exemplo, como as mulheres ocupam a palavra no cotidiano do trabalho, em reuniões, apresentações, defesas de ideias e também naqueles comentários inadequados que ainda circulam como se fossem inofensivos. Não por acaso, muitas empresas têm optado por encontros focados em comunicação assertiva e presença no trabalho, tratando a voz feminina como competência estratégica, não como traço de personalidade.

Exige também ampliar repertório. A literatura, por exemplo, oferece chaves poderosas para pensar identidade, poder e escolha. Curadorias com autoras como Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Toni Morrison, Chimamanda Ngozi Adichie ou Alba de Céspedes ajudam a deslocar o olhar e a nomear experiências que o vocabulário corporativo costuma empobrecer. Quando essas leituras entram na empresa, não como adorno, mas como provocação, algo se move.

Há ainda a necessidade de criar espaços menos performáticos e mais reflexivos. Oficinas de escrita, inspiradas em obras como “O caderno proibido”, permitem elaborar papéis, expectativas e silêncios que raramente encontram lugar nas conversas formais do trabalho. Não para expor, mas para compreender. Não para resolver tudo, mas para sustentar perguntas melhores.

Painéis de conversa com autoras contemporâneas, encontros de leitura compartilhada, experiências mediadas em torno de livros e conversas, tudo isso tem aparecido como alternativa a ações genéricas. Não porque sejam mais sofisticadas, mas porque respeitam a inteligência das pessoas e a complexidade das trajetórias femininas.

Quando o Dia da Mulher se limita a um gesto simbólico, ele reforça a ideia de exceção. Quando se transforma em experiência bem desenhada, ele abre conversa.
E conversa, no ambiente de trabalho, é matéria-prima de cultura.

Talvez o ponto não seja fazer algo maior, mais chamativo ou mais emocionante. Talvez seja fazer algo mais honesto, que reconheça que o trabalho também é lugar de realização para as mulheres sem que isso exija dureza, apagamento ou adaptação silenciosa.

Pensar o Dia da Mulher além do óbvio é, no fundo, pensar que tipo de cultura queremos sustentar todos os outros dias do ano. E essa é uma conversa que vale a pena começar.
 

Vivian Rio Stella é linguista

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