A engenharia como linha que separa risco e tragédia
Minas Gerais volta a viver dias de tensão. Enquanto o município de Porteirinha teve situação de emergência reconhecida após risco iminente de rompimento da Barragem de Lages, na Zona da Mata o cenário é de luto. Em Juiz de Fora, 65 mortes foram confirmadas. Em Ubá, sete vidas se perderam e centenas de pessoas ficaram desalojadas. Os números expõem não apenas a força das chuvas, mas a fragilidade estrutural que ainda marca grande parte do nosso território.
A chuva intensa é um fenômeno natural e previsível do ponto de vista climático. O que não pode ser tratado como inevitável são os desdobramentos estruturais que transformam precipitação em desastre. Quando encostas cedem, quando sistemas de drenagem não suportam o volume de água, quando edificações apresentam trincas e infiltrações ignoradas ao longo do tempo, o problema deixa de ser exclusivamente meteorológico e passa a ser técnico.
No caso de Porteirinha, o risco foi identificado a tempo e alertas extremos foram emitidos para evacuação da população. Isso demonstra que sistemas de prevenção funcionam quando há diagnóstico, acompanhamento e decisão baseada em critérios técnicos. A pergunta que precisamos fazer é por que essa lógica preventiva ainda não é regra na infraestrutura urbana.
As tragédias da Zona da Mata revelam um padrão recorrente em diversas cidades brasileiras: ocupações em áreas de risco, ausência de contenção adequada de taludes, drenagem insuficiente e falta de manutenção preventiva. A chuva apenas aciona um processo que já estava estruturalmente comprometido. Desastres não são apenas eventos naturais. Eles resultam da combinação entre fenômeno climático e vulnerabilidade construída.
É preciso lembrar que planejamento urbano não se resume à expansão territorial. Ele envolve mapeamento geotécnico, redimensionamentos hidrológicos, controle rigoroso do uso e ocupação do solo, fiscalização contínua e integração entre engenharia, defesa civil e gestão pública. Quando essas etapas falham ou são negligenciadas, a cidade acumula passivos invisíveis que só se tornam evidentes diante de eventos extremos.
Como engenheira civil e perita, observo com frequência que sinais prévios são ignorados. A engenharia diagnóstica existe para identificar indícios antes que se transformem em colapso. Laudos técnicos, inspeções regulares e auditorias independentes não são formalidades burocráticas, são instrumentos de proteção à vida.
Entre o alerta emitido em Porteirinha e o luto vivido em Juiz de Fora e Ubá existe uma diferença fundamental: a antecipação técnica. Precisamos transformar a prevenção em cultura institucional e social, com planejamento urbano responsável, mapeamento de risco atualizado e integração efetiva entre engenharia, defesa civil e gestão pública. A chuva continuará vindo. A diferença estará na forma como decidimos enfrentar suas consequências.
Ludmila Lélis é engenheira civil