Inteligência artificial no Brasil: o impacto social depende da governança

Em economias pouco produtivas, a IA costuma ser usada para cortar custos, não para criar setores de alto valor agregado

Escrito por
Aldairton Carvalho producaodiario@svm.com.br
Advogado
Legenda: Advogado

A inteligência artificial avança em ritmo acelerado e já redefine mercados, produtividade e o papel do Estado. No Brasil, porém, essa transformação ocorre sobre uma base frágil: baixa produtividade, educação desigual, alta informalidade e limitações na execução de políticas públicas. Nesse contexto, a IA pode aprofundar problemas históricos em vez de representar um salto civilizacional.

Hoje, sua adoção ocorre de forma pouco estratégica. Empresas utilizam automação sobretudo para reduzir custos e ganhar eficiência. Setores como o financeiro e o varejo lideram o movimento, mas o ganho privado não se converte automaticamente em ganho social.

O impacto no emprego tende a ser assimétrico. Funções administrativas e operacionais, que concentram grande parte da classe média e baixa urbana, estão entre as mais automatizáveis. Diferentemente de países com sistemas robustos de requalificação, o Brasil ainda carece de políticas capazes de absorver trabalhadores deslocados. Se nada mudar, o resultado pode ser mais desemprego estrutural, informalidade e precarização.

Em economias pouco produtivas, a IA costuma ser usada para cortar custos, não para criar setores de alto valor agregado. Isso concentra ganhos em quem já detém capital, dados e tecnologia. A inovação avança, mas a prosperidade não se espalha.

Há também risco institucional. O marco regulatório ainda em debate gera ambiguidade: pode criar insegurança jurídica e permitir uso desordenado da tecnologia pelo próprio Estado, sem transparência ou controle adequado. Isso fragiliza a confiança pública.

Por outro lado, a IA pode ampliar a arrecadação ao elevar produtividade e lucros. Surge, então, uma obrigação central: transformar ganhos tecnológicos em bem-estar social. Em uma economia mais automatizada, o welfare state deixa de ser apenas política social e passa a ser requisito de estabilidade.

Se a tecnologia reduz a necessidade de trabalho tradicional, o Estado precisa investir em educação digital, requalificação contínua, saúde, proteção social e inclusão. Não se trata de desestimular o trabalho, mas de garantir dignidade em um mercado mais volátil.

A IA não é ameaça nem solução em si. Ela amplifica escolhas. O Brasil pode permitir que aprofunde desigualdades ou utilizá-la como base de um novo pacto social. A diferença não estará nos algoritmos, mas na governança.

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