Ainda faz sentido manter os estaduais no Brasil com a participação dos grandes clubes?

Escrito por
Ferruccio Petri Feitosa producaodiario@svm.com.br
Legenda: Ferruccio Petri Feitosa é advogado

Quando a competição começa e já se sabe quem provavelmente vai vencer, talvez seja hora de repensar o modelo. No Ceará, nenhum clube fora da dupla Ceará e Fortaleza vence o estadual desde 1995. O debate não é acabar com os estaduais, mas repensar o modelo para criar mais competitividade, fortalecer os clubes menores, equilibrar o calendário e revelar novos talentos.

Os campeonatos estaduais no Brasil seguem um padrão bastante previsível. Em praticamente todos os estados, os títulos ficam concentrados nas mãos dos maiores clubes, revelando um desequilíbrio estrutural que vai além da rivalidade esportiva. O Ceará ilustra bem essa realidade. Há mais de trinta anos, o campeonato estadual conta praticamente a mesma história. Desde 1995, quando o Ferroviário foi campeão, nenhum clube fora da dupla Ceará e Fortaleza voltou a levantar o troféu. Três décadas sem surpresa mostram que, se o modelo permanecer exatamente como está, dificilmente um clube pequeno voltará a conquistar o título estadual no estado.

Os estaduais tiveram enorme importância histórica. Surgiram em um período em que o futebol brasileiro ainda não possuía ligas nacionais estruturadas e, durante décadas, foram o principal palco das rivalidades do país. Mas o futebol mudou e o modelo permaneceu praticamente o mesmo. Hoje, para os grandes clubes, os estaduais têm cada vez menos valor esportivo real e ocupam espaço relevante no calendário, com partidas marcadas por grande desequilíbrio técnico e financeiro. Os grandes clubes possuem receitas, estruturas e elencos muito superiores aos dos clubes menores, tornando a disputa muitas vezes previsível e pouco competitiva. Esse cenário também afeta a formação de novos talentos, já que a revelação de grandes jogadores depende de um ambiente competitivo equilibrado.

Uma alternativa seria permitir a participação dos grandes clubes somente com as categorias de base, criando mais equilíbrio e fortalecendo a formação de atletas. Nesse modelo, os clubes que estiverem disputando as Séries A e B do Campeonato Brasileiro poderiam participar dos campeonatos estaduais apenas com suas equipes de base. A medida ajudaria a equilibrar a competição, estimularia investimentos nas categorias de formação e ampliaria as oportunidades de descoberta de novos talentos.

Outro ponto crítico é o calendário. Em 2026, os dois principais clubes do Ceará disputam simultaneamente quatro competições: Campeonato Estadual, Copa do Nordeste, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Em nível nacional, o problema é ainda mais evidente. Em 2025, o Flamengo disputou 79 partidas na temporada e o Palmeiras, 76, uma maratona que exige esforço físico e mental extremo e expõe os atletas a desgaste constante e risco elevado de lesões. No futebol moderno, especialmente na Europa, as competições regionais têm outra função: fortalecer clubes menores e estruturas locais. Os grandes clubes europeus não disputam competições regionais e concentram suas forças nas ligas nacionais e nas competições internacionais. Diante desse cenário, torna-se inevitável discutir mudanças estruturais no modelo competitivo e no calendário do futebol brasileiro. Tradição é importante. Mas, quando impede o crescimento do futebol, deixa de ser tradição e passa a ser atraso

Ferruccio Petri Feitosa é advogado 
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