Saúde mental e a gestão do trabalho
O Brasil registrou, em 2025, um recorde histórico de afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que mais de 500 mil benefícios por incapacidade temporária foram concedidos ao longo do ano em razão de diagnósticos como ansiedade, depressão e estresse ocupacional. O número, por si só, revela um problema que ultrapassa a esfera individual e se consolida como um risco organizacional e econômico.
Quando analisamos esse cenário sob a ótica da gestão, fica evidente que não se trata apenas de uma questão de saúde pública, mas de um sintoma de falhas estruturais na cultura corporativa. Empresas que operam sob modelos baseados exclusivamente em metas agressivas, pressão constante e foco de curto prazo tendem a produzir ambientes de alta exigência emocional e baixa segurança psicológica. O resultado é previsível: aumento de afastamentos, rotatividade elevada, queda de produtividade e impacto direto nos custos operacionais.
Estudos recentes sobre ambiente de trabalho indicam que uma parcela significativa dos profissionais brasileiros atua em contextos marcados por insegurança psicológica. Ambientes onde o erro é punido, a comunicação é limitada e o medo orienta comportamentos comprometem a inovação, o engajamento e o desempenho sustentável. A cultura do medo não apenas adoece pessoas, ela corrói resultados.
É fundamental compreender que o adoecimento mental no trabalho deixou de ser um tema periférico. Ele é hoje um indicador estratégico de risco organizacional. Lideranças despreparadas para gerir pessoas, ausência de políticas claras de desenvolvimento humano e falta de escuta ativa contribuem diretamente para esse cenário. Gestão eficiente é aquela que equilibra performance e cuidado, resultado e responsabilidade humana.
Empresas que desejam sustentabilidade no médio e longo prazo precisam investir em prevenção. Isso envolve formação de lideranças conscientes, fortalecimento da comunicação interna, políticas contínuas de saúde emocional e construção de ambientes com segurança psicológica. Não se trata de custo, mas de estratégia.
Reduzir afastamentos por transtornos mentais exige revisão de práticas, mudança cultural e compromisso real com o desenvolvimento humano. Organizações que compreendem essa dinâmica tornam-se mais resilientes, competitivas e preparadas para os desafios contemporâneos do mundo do trabalho.
Izabela Holanda é psicóloga