Carnaval para brincar, não trabalhar
O Carnaval é um momento de alegria coletiva: tem bloco infantil, fantasia, família na rua e memória boa sendo construída. Em meio à música alta, porém, cresce uma realidade silenciosa: crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil.
Segundo o IBGE, em 2024 o Brasil tinha mais de 1,6 milhão de crianças e adolescentes, de 5 a 17 anos, nessa condição. Entre eles, 560 mil estavam nas piores formas de trabalho infantil, com maior risco à saúde e ao desenvolvimento. Os adolescentes de 16 e 17 anos concentram a maior proporção: 15,3% estavam expostos a essa violação.
E o que o Carnaval tem a ver com isso? Grandes aglomerações ampliam a demanda por serviços rápidos e baratos: venda ambulante, catação de resíduos, guardadores de carro, entregas improvisadas, trabalho noturno. Forma-se um ambiente em que crianças ficam mais expostas e mais invisíveis.
Não é apenas um bico. Trabalho infantil não é ajuda, aprendizado ou formação de caráter: é violação de direitos e produz consequências que a sociedade paga por anos. Para crianças e adolescentes, os impactos são graves, com risco de acidentes, cortes, atropelamentos, exaustão, insolação, desidratação e contato com resíduos, além de maior exposição à violência, assédio, exploração e desaparecimentos em meio à multidão.
Quando essa prática é normalizada, o padrão de proteção social é rebaixado, fortalece-se uma economia que troca direitos por conveniência e a Rede de Proteção se enfraquece, transformando exceção em regra.
Não comprar produtos ou serviços de crianças e adolescentes é essencial para pôr fim ao ciclo da exploração. Quem deseja ajudar deve procurar iniciativas seguras. Também é fundamental não oferecer trabalho ou bicos: organizadores de blocos, bares e eventos precisam tratar a contratação responsável como prioridade, com tolerância zero à mão de obra infantil.
Ao identificar uma criança trabalhando, é necessário acionar a rede de proteção: o Disque 100 funciona 24 horas e recebe denúncias anônimas. Compartilhar esse alerta também protege, porque trabalho infantil se combate com denúncia e responsabilidade coletiva.
Victor Graça é superintendente da Fundação Abrinq