Transição energética como política industrial

Escrito por
Brígida Miola producaodiario@svm.com.br
Brígida Miola é secretária executiva da Indústria da SDE Ceará
Legenda: Brígida Miola é secretária executiva da Indústria da SDE Ceará

Por muito tempo, a transição energética foi tratada como agenda ambiental de longo prazo. Hoje, é decisão de política industrial, com impacto sobre competitividade, atração de investimentos e desenvolvimento. Reduzi-la ao ambiental é desperdiçar oportunidade estratégica. A Nova Indústria Brasil recoloca a política industrial no centro da agenda nacional, mas só terá resultado se energia e indústria forem pensadas juntas. Energia limpa, sozinha, não reindustrializa, e indústria sem energia competitiva não se sustenta. 

O Nordeste e, destaco o Ceará, tem posição estratégica. O estado reúne elevado potencial de renováveis, localização geográfica privilegiada e infraestrutura em expansão. Mas potencial energético não vira desenvolvimento sem planejamento e decisão política. Aqui, gargalos precisam ser enfrentados. O curtailment não é detalhe técnico, mas um alerta de que planejamento energético e política industrial precisam caminhar na mesma direção. Quando energia limpa é desperdiçada por falta de transmissão, conexão, armazenamento ou coordenação, perde-se competitividade e valor econômico. 

Antecipar reforços em transmissão e acelerar o armazenamento são medidas urgentes. Baterias elevam flexibilidade e confiabilidade do sistema, requisito para atrair indústrias intensivas em energia. Os minerais críticos, principais insumos para baterias, devem integrar estratégia industrial de agregação de valor, superando a exportação primária e abrindo ao Ceará novas cadeias produtivas. 

A transição energética é escolha territorial, quando bem conduzida, interioriza o desenvolvimento e reduz desigualdades. Assim, estados têm papel decisivo ao integrar energia, indústria, inovação e formação profissional. 

No Ceará, essa diretriz já orienta decisões concretas. A energia renovável tornou-se instrumento para atrair data centers, hidrogênio verde, e-fuels e indústrias de baixo carbono. Esses investimentos não escolhem territórios por retórica, mas por custo, confiabilidade, previsibilidade e eficiência do sistema elétrico. Transformar vantagem energética em base industrial é decisão estratégica: quem compreender isso liderará a nova economia de baixo carbono, quem não, continuará apenas fornecendo energia.

Brígida Miola é secretária executiva da Indústria da SDE Ceará

Professor aposentado da UFC
Gonzaga Mota
13 de Fevereiro de 2026