Antes da avenida, o gesto: Carnaval, moda e linguagem cultural

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Thaty Rabello producaodiario@svm.com.br
Thaty Rabello é empresária
Legenda: Thaty Rabello é empresária

O Carnaval não começa no dia do desfile. Começa antes, no gesto, no fazer, no corpo que cria. O pré-carnaval é esse tempo em que o Brasil ensaia sua linguagem mais sofisticada: a arte coletiva.
 
Reduzir o Carnaval a entretenimento é ignorar o sistema cultural que ele sustenta. O Carnaval é um ecossistema vivo, onde arte, identidade, política e economia criativa se articulam. Nesse sistema, a moda não é acessório. É linguagem estruturante.
 
No Carnaval, vestir não é ornamento. É discurso. Fantasias, tecidos e volumes constroem narrativas visuais sobre pertencimento, memória e posição no mundo. A moda se afasta do consumo rápido e retorna ao gesto criador, ao que é coletivo, manual e situado.
 
O corpo ocupa um lugar central nesse processo. No Carnaval, ele nunca foi neutro. É político porque aparece, porque ocupa espaço, porque rompe padrões. A moda carnavalesca amplia representações, legitima corpos diversos e antecipa, na prática, debates sobre inclusão que outros campos ainda tratam como novidade. O que se vê nas ruas é um exercício real de diversidade estética e social.
 
O pré-carnaval revela esse sistema com mais nitidez. Antes do espetáculo, há trabalho. Ateliês improvisados, oficinas temporárias, mãos que cortam, bordam e reaproveitam. O Carnaval funciona como um dos maiores laboratórios de moda do país, onde a criação nasce da necessidade, não da tendência.
 
Nesse contexto, do lixo ao luxo não é slogan nem moda recente. É uma lógica cultural brasileira. Transformar materiais descartados e estéticas historicamente marginalizadas em linguagem visual, valor simbólico e criação sofisticada sempre foi método. Esse gesto é criativo, mas também político: afirma potência onde antes se enxergava exclusão.
 
O feito à mão, longe da nostalgia, é resistência. Sustenta economias inteiras, preserva saberes e estrutura o próprio sistema cultural do Carnaval. Leituras institucionais sobre a economia criativa, como as do IBGE, reconhecem a cultura como eixo do trabalho e da produção simbólica no país.
 
O Carnaval não suspende a realidade. Ele a revela. Antes da avenida, há pensamento. Antes da festa, há um país inteiro se vestindo de si mesmo.

Thaty Rabello é empresária

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