Imagens sacras mais antigas de Fortaleza são de Nossa Senhora e passam por restauração pelo Iphan

As duas peças datam do século XVIII; previsão de devolução aos lugares originais é de três meses.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
07 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Esculturas são restauradas pelos conservadores-restauradores Carolina Alves e Merlin Alves, com ampla experiência na área.
Foto: Cal Restauro.

Três séculos separam a criação das imagens sacras mais antigas de Fortaleza e o atual estado em que se encontram. As duas peças, em madeira policromada e dourada, têm boa conservação, sem grandes perdas ou danos graves, mas agora passam por um processo de restauração encampado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A previsão é que retornem ao lugar de origem, a 10ª Região Militar do Exército, em três meses.

A imagem menor, de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da Capital, tem pequenas lacunas na veste e em uma das mãos – a partir da perda de dedos – mas se encontra praticamente com a pintura original, exibindo a vestimenta com rica aplicação de ouro. No restauro, houve repinturas nas carnações (rosto e mãos) e nos cabelos, cujas remoções estão sendo discutidas.

A obra maior, por sua vez, de Nossa Senhora da Conceição, não apresenta perdas ou lacunas. Ela, porém, foi repintada várias vezes – identificaram-se, ao menos, seis camadas de repintura – o que demandou a atuação de restauradores. Estudos iniciais e em andamento dos processos já revelaram que a camada original de pintura também tem douramento e rebuscado acabamento artístico. 

No fim, camadas de repintura serão removidas. Para tanto, será necessário que áreas com perdas da pintura original, tanto de douramento quanto de pigmentos, sejam reintegradas. As esculturas estão sendo restauradas pelos conservadores-restauradores Carolina Alves e Merlin Alves, com ampla experiência na área.

“Os princípios para ambas as imagens, no que toca à recuperação da camada pictórica original, serão o da mínima intervenção, da reversibilidade e o da recuperação da leitura integral da peça”, explica Alexandre Jacó, arquiteto do Iphan que acompanha o trabalho de restauração. 

Imagem de Nossa Senhora da Assunção tem pequenas lacunas na veste e em uma das mãos.
Legenda: Imagem de Nossa Senhora da Assunção tem pequenas lacunas na veste e em uma das mãos.
Foto: Cal Restauro.

Em outras palavras, não se pretende remover por completo o efeito do desgaste do tempo, mas possibilitar a apreciação do primeiro e esmerado trabalho artístico das duas esculturas. Além disso, não se perderá de vista o fato de serem bens com aspectos vinculados ao culto religioso – os quais, conforme o Iphan, “serão sempre respeitados”.

Por que restaurar as imagens?

O olhar para as duas obras do século XVIII é justificado. O Iphan e a 10ª Região Militar do Exército mantêm uma relação institucional contínua desde o tombamento da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, em 2008.

Várias ações já aconteceram em parceria entre as instituições, incluindo obras no espaço conhecido como “Túnel da Bárbara de Alencar” – no qual a equipe de arqueólogos do Iphan acompanhou escavações realizadas. 

As duas imagens foram transferidas da Fortaleza para a Sede da Superintendência do Iphan no Ceará.
Legenda: As duas imagens foram transferidas da Fortaleza para a Sede da Superintendência do Iphan no Ceará.
Foto: Cal Restauro.

“No âmbito dessa parceria, há alguns anos vem sendo discutida a restauração das duas imagens sacras, entre os bens móveis mais importantes daquele conjunto edificado”, enfatiza Alexandre Jacó. O cronograma inicial para a recuperação de ambas as imagens é de três meses, dos quais já transcorreu o primeiro.

Pode-se resumir as etapas de restauração em: 

  • Identificação das camadas pictóricas mais recentes (repinturas); 
  • Testes de solubilidade para remoção das camadas espúrias e remoções; 
  • Limpeza mecânica e/ou química da camada pictórica original; 
  • Desinfecção e imunização contra insetos xilófagos (cupins); 
  • Consolidação do suporte (madeira);
  • Próteses no suporte (complementação de partes faltantes);
  • Recuperação da camada pictórica original;
  • Envernizamento protetivo.

A fim de garantir melhores condições de restauração, as duas imagens foram transferidas da Fortaleza para a sede da Superintendência do Iphan no Ceará, localizada a poucas quadras de distância, no Complexo Estação das Artes. 

A operação envolveu meses de preparação e assinatura de documentos de compromisso – incluindo autorização de transferência provisória, termo de saída e transferência temporária de guarda das imagens e laudo do estado de conservação das imagens prévio ao transporte.

Restauração das imagens integra medidas de preservação do patrimônio, cuja importância se funda na manutenção da memória coletiva.
Legenda: Restauração das imagens integra medidas de preservação do patrimônio, cuja importância se funda na manutenção da memória coletiva.
Foto: Cal Restauro.

O traslado ocorreu em 29 de maio de 2026 e foi realizado com a colaboração das equipes da 10ª Região Militar, do Iphan, e da empresa de restauração contratada.

“Como todo bem artístico, a conservação preventiva pós-restauração incluirá controle de acesso/contato físico com as peças, limpeza sem uso de produtos que danifiquem os materiais da escultura, controle de pragas e o controle do ambiente – incidência de luz, de poluição ou sujeira, de umidade, etc”, detalha o representante do Iphan.

A imagem menor já se encontrava exposta em vitrine no Memorial da Fortaleza – situação que garante maior segurança à preservação dela. A imagem maior, por sua vez, se encontrava exposta na capela, situação que pode vir a demandar algumas medidas de segurança adicionais às previamente disponíveis.

Detalhes das obras e importância do restauro

A imagem de Nossa Senhora da Assunção data da segunda metade do século XVIII, é de autoria desconhecida e provável origem em Portugal. Pesa seis quilos, com 62 cm de altura por 34 cm de largura. 

A peça maior, de Nossa Senhora da Conceição, tem as mesmas especificações que a outra, mas tem 1,6 m de altura por 65 cm de largura, com aproximadamente 100 kg.

Quanto a outras ações de restauração de bens móveis, o Iphan executará uma segunda etapa do atual trabalho em Viçosa do Ceará, onde serão restauradas seis imagens e um sacrário do altar-mor da Igreja Matriz, que é a mais antiga do Ceará e tombada como monumento nacional. “Espera-se que essa restauração se inicie tão logo termine a etapa de Fortaleza”, torce Alexandre Jacó.

Da esquerda para a direita, imagem de Nossa Senhora da Assunção e de Nossa Senhora da Conceição.
Legenda: Da esquerda para a direita, imagem de Nossa Senhora da Assunção e de Nossa Senhora da Conceição.
Foto: Iphan CE.

A restauração, segundo ele, integra as medidas de preservação do patrimônio, cuja importância se funda na manutenção da história e da memória coletiva.

“Há muitas teorias e políticas que podem explicar a importância desse campo, mas creio que todos nós entendemos a importância de compreender a vida humana na completude, e tal compreensão não pode prescindir do tempo e das pessoas que nos precederam”.

No que diz respeito à posição que o Ceará ocupa na seara nacional de preservação do patrimônio, ele diz ser uma resposta difícil, mas, seguramente, “temos algumas boas experiências das instituições a celebrar, e muito, muito, a melhorar”.

Diálogos com a arquitetura de Fortaleza

Fato é que o trabalho de Conservação e Restauro é uma ação multidisciplinar, realizada por diversos atores do Patrimônio Cultural, como arquitetos, técnicos restauradores, arqueólogos, historiadores, químicos e biólogos. 

Quem amplia a visão do ofício é Lidianne Limaverde, arquiteta da empresa contratada para a restauração e especialista em conservação e gestão do patrimônio cultural. As intervenções realizadas tanto em bens imóveis quanto em bens móveis e integrados, conforme ela, são fundamentadas em teorias da restauração – inicialmente desenvolvidas por arquitetos no século XIX – e em cartas patrimoniais, pesquisa histórica e diagnóstico do estado de conservação, priorizando principalmente a mínima intervenção, reversibilidade e respeito à autenticidade do bem. 

“Além disso, dentro do campo do patrimônio, a Arquitetura atua e estuda os diversos estilos arquitetônicos que influenciam a construção de cada época por meio de bens edificados e de bens móveis e integrados, como esculturas sacras (originalmente portuguesas ou brasileiras), cuja técnica é diretamente influenciada pelo Barroco e Rococó”, dimensiona.

Não à toa, além do acompanhamento direto das intervenções e da definição das condutas técnicas adotadas durante o restauro, estão sendo realizados registros fotográficos e levantamentos por fotogrametria – ciência e técnica de obter informações métricas, tridimensionais e espaciais precisas de objetos ou terrenos a partir da análise de fotografias bidimensionais – das duas esculturas fortalezenses. 

Essa documentação permite acompanhar o estado de conservação das obras, identificar e mapear possíveis danos ao longo do processo e registrar, de forma detalhada, todas as etapas da intervenção. E, claro, ajudar a entender a trajetória dos bens arquitetônicos a que se vinculam, e vice-versa. 

Basta pensar, por exemplo, que os lugares no qual as duas imagens pertencentes à 10ª Região Militar do Exército de Fortaleza estão hoje não são aqueles para os quais foram, originalmente, destinados – uma vez que houve mudanças na estrutura construída, incluindo a demolição da antiga capela do quartel.

No fim das contas, na visão de Alexandre Jacó, descrever a arquitetura de Fortaleza é um desafio. “Podemos dizer, em resumo, que é diversa, até mesmo por consequência do crescimento orgânico da cidade, nem sempre associado à preservação paisagística”, diz.

“No que toca às imagens que estão sendo restauradas, o mais interessante é estudar a relação centenária delas com a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, incluindo a motivação da vinda de ambas para a cidade, os espaços destinados a elas inicialmente e as modificações arquitetônicas que acarretaram movimentações das peças”.

Caminhos da restauração

Olhar atento sobre o passo a passo do processo de restauro qualifica ainda mais a relevância da atividade. A primeira coisa a se considerar nesse sentido é a necessidade de restauração. Ela surge, conforme especialistas, apenas se o bem realmente precisar do ato  – tendo em vista o princípio vital da atividade: a mínima intervenção.

Quem fala é Roberto Moreira Chaves, técnico de conservação e restauro do Memorial da Universidade Federal do Ceará (UFC), diretor do Museu Casa de Quinca Moreira, em São Gonçalo do Amarante, e doutorando em arqueologia e patrimônio cultural pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

De acordo com ele, somente após avaliação das obras passíveis de restauro é que se dá o diagnóstico de conservação e, na sequência, um plano de intervenção.

“Esta última parte é quando o restaurador avalia se são necessárias intervenções de conservação ou de restauração. A partir disso, estudando os materiais e os procedimentos necessários, inicia-se o processo. É tudo muito único – materiais, suportes, o contexto no qual o bem está inserido e quais processos de alteração e intervenção sofreu”.

Ele cita a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, no bairro Jacarecanga, em Fortaleza – gerido pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) – como um local possível de aprendizagem das técnicas específicas de restauro e conservação. Ao mesmo tempo, sinaliza: “Se comparado a outros Estados, o Ceará não tem uma graduação nessas áreas”, diz.

“Outro exemplo importante na Capital, que tem atuado em ações de formação nos segmentos, é a Pinacoteca do Ceará. Ela conta com profissionais das áreas de conservação e restauro, e acaba trazendo um pouco desse debate sobre a importância da intervenção de bens culturais”.
Roberto Moreira Chaves
Técnico de conservação e restauro, gestor e pesquisador

É Lidianne Limaverde quem conclui: “Existem diferentes formas de proteger e preservar o patrimônio cultural. Entre os instrumentos legais de proteção, o mais conhecido é o tombamento – utilizado para reconhecer e preservar bens materiais de grande importância histórica, artística ou cultural. Além dele, existe o inventário. No caso do patrimônio imaterial, o principal instrumento é o registro, que reconhece e valoriza manifestações culturais, práticas, celebrações e conhecimentos tradicionais. Cada um desses instrumentos tem função específica, mas todos contribuem para a valorização do patrimônio cultural”.

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