Como campos de concentração no Ceará seguem vivos na memória e inspiram trabalhos

Romance “Não volte sem ele”, do cearense Rafael Caneca, é um exemplo de obra que revisita o tema ao escavar registros e depoimentos.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br

Desaparecem os povos sem memória. Olhar para trás, ver a história a contrapelo, escavar o que se esconde por trás das versões oficiais é trabalho de honra. Os campos de concentração no Ceará são parte de um dos episódios da história que seguem carregados de silêncios.

Por isso, cada nova obra que revisita o tema representa um gesto contra o esquecimento. Pesquisadores, historiadores, artistas e escritores constroem espaços e abrem caminhos para debates, cada um a seu modo. O romance de estreia do escritor cearense Rafael Caneca, “Não volte sem ele”, é exemplo disso. 

Em seu livro, o jovem Tomás é incumbido da missão de viajar para Fortaleza e trazer seu irmão Antônio de volta para casa. O pedido partiu dos pais, após três anos de silêncio do primogênito. No entanto, ao deixar Mombaça e chegar a Senador Pompeu, onde pegaria o trem, descobriu que sua viagem foi negada, mesmo com o suado dinheiro da passagem.

Imagem de capa do livro Não Volte Sem Ele, de Rafael Caneca.
Legenda: Livro "Não volte sem ele" é o romance de estreia do escritor cearense Rafael Caneca.
Foto: Divulgação/Editora Mondru.

Sem endereço fixo na capital, não podia seguir. Havia ali um plano de contenção do Governo para evitar a migração de retirantes do Interior do Ceará à Capital.

Em meio ao avanço da seca na década de 1930, a fome e a morte dos animais empurraram milhares de sertanejos em direção à Fortaleza, na esperança de uma vida melhor.

Assim, o livro de Caneca surge como uma ferramenta para iluminar o presente e evitar a repetição do passado. 

Imagem das ruínas do Campo de Concentração da cidade de Senador Pompeu, no Ceará.
Legenda: Ruínas de prédio onde houve campo de concentração no interior do Ceará.
Foto: Wandenberg Belém.

Inspiração para o livro 

Ao Diário do Nordeste, Rafael revela que o livro começou como um conto que integraria uma coletânea literária apenas com histórias do Ceará. O integrante do coletivo de escritores Delirantes, de Fortaleza, tomou para si o desafio de produzir um texto inspirado nos campos de concentração do Estado. 

No entanto, antes mesmo de finalizar, percebeu que o trabalho tinha fôlego para algo mais. A escrita lhe pedia uma narrativa mais densa. Assim, Rafael se debruçou em um longo processo de pesquisa, que envolveu diversas leituras e coletas de depoimentos. 

"A parte mais difícil foi lidar com os depoimentos que eu lia. Tinham coisas bem pesadas que serviram de base para os personagens. Tudo isso achei importante para construção da história".
Rafael Caneca
Escritor cearense

Seu romance de estreia foi gradualmente surgindo ao atravessar temas como a fome, a segregação e o controle social em meio aos campos de concentração. Foram mais de dois anos de elaboração, antes de finalizar o projeto, em 2025. Para o escritor, a obra é resultado também de um percurso mais longo.

Escritor cearense Rafael Caneca, que escreveu o livro Não volte sem ele.
Legenda: Rafael Caneca escreveu o livro "Não volte sem ele".
Foto: Divulgação/Rafael Caneca.

"Antes disso, já fiz vários cursos de escrita. Tenho publicação em coletâneas, contos, além de dez anos de curso de escrita e oficina. Fui estudando muito até sentar e escrever esse romance", afirma. 

Campo de concentração em Senador Pompeu

Um dos principais campos de concentração erguidos durante a seca de 1930 ficava no município de Senador Pompeu, cenário onde ocorre parte da narrativa do romance. Mais de 20 mil retirantes teriam passado pelo local, segundo estimativas de pesquisadores. No entanto, o número exato de mortos permanece desconhecido. 

Legenda: Campo de Concentração do Pirambu, em 1932, imagem do médico José Bonifácio Paranhos Costa no relatório da Comissão Médica de Assistência e Profilaxia aos Flagelados do Nordeste. Acervo: Valdecy Alves

Segundo pesquisadores, o número de vítimas pode ter chegado aos milhares. As ruínas desse campo, que funcionou em instalações abandonadas de uma empresa inglesa, ainda podem ser encontradas no município. 

Imagem das ruínas do Campo de Concentração em Senador Pompeu.
Legenda: Pesquisadores estimam que mais de 20 mil retirantes teriam passado pelo local durante a seca da década de 1930.
Foto: Camila Lima.

Além de “Não volte sem ele”, outros trabalhos também abordaram os campos de concentração. A obra fotográfica "O que arde e nos queima" (2023-2024), da cearense Kilvia Rocha, por exemplo, também tensiona o lugar da memória e da história. 

Sua produção fotográfica integra a exposição “Paisagens do Invisível, Poéticas de Si”, no Espaço Cultural Gurjão Farias, na Reitoria da UFC. Nela, Kilvia investiga as ruínas de um dos vagões que traziam os retirantes à capital cearense. Parte essencial de nossa história, a estrutura estava abandonada. Esquecida em meio à paisagem de Fortaleza.

Imagem da obra O que arde e nos queima, da cearense Kilvia Rocha.
Legenda: Obra "O que arde e nos queima" (2023-2024), da cearense Kilvia Rocha, integrou a exposição “Paisagens do Invisível, Poéticas de Si” no Museu da Fotografia de Fortaleza, em 2025.
Foto: Divulgação/Kilvia Rocha.

No campo do audiovisual, o documentário "Currais" foi realizado pelos diretores fortalezenses David Aguiar e Sabina Colares. A narrativa é conduzida pelo personagem fictício Romeu, mas evidencia as vivências de José Maria Tabosa, que frequentou o campo existente em Fortaleza, quando o pai dele ficou preso, e a dona Francisca Mourão, a última remanescente viva de um campo de concentração em Senador Pompeu.

No caso de Rafael, com sua obra no mundo, ele espera contribuir para que a memória sobre os campos de concentração do Ceará deixe de permanecer à margem. Para ele, a literatura também pode funcionar como instrumento de preservação da memória coletiva.

"Eu espero que, com esse livro, esse episódio seja mais comentado. Porque a gente tem que falar sobre isso, recuperar e resgatar, principalmente para que não se repita", afirmou.

Evento sobre os campos de concentração no Ceará

Para quem tem interesse de se aprofundar nesse tema, é possível participar do evento "Campos de concentração no Ceará: a História e a Arte", que acontece neste sábado (1º), às 14h. Além da exibição do documentário “Currais”, também haverá a apresentação do romance “Não volte sem ele”. 

Serviço

Livro "Não volte sem ele"
Quanto: R$ 59,90
Onde comprar: Editora Mondru.

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