O legado de Orson Welles
LG de Miranda Leão analisa a filmografia do cineasta considerado o 'enfant terrible' de Hollywood
Relacionamos a seguir todos os filmes de Welles, mas deixamos fora sua rica atuação no teatro, na Europa e nos EUA, no rádio, de 1934 a 1952, na tv de 1954 a 57, na literatura, da qual sobressaem artigos, ensaios e ilustrações (de 1933 a 1945) e os livros escritos na frança, traduzidos por Maurice Bessy, "Une Grosse Légume" (1953) e "Monsieur Arkadin" (1954), do qual fez a transposição para o cinema (1955); ensaios como "à bon entendeur" e alguns prefácios, um dos quais muito espirituoso para "Put money in their purse", de Michael Mcliammoir (o ótimo intérprete de iago em "othello"), o primeiro ensaio "twilight in the fog", no qual expõe sua visão pouco lisonjeira de Hollywood, e os cenários de "The lady in the ice" (peça levada ao palco sob título "La femme dans la glace").
Veja também
Tampouco incluímos 41 participações de Welles como ator em filmes (geralmente películas comerciais ou papéis pelos quais não se entusiasmou, aceitando fazê-los apenas para ganhar dinheiro e investi-lo em seus filmes).
Interessante é recordar o início de sua carta aberta para os jornalistas do festival internacional de Punta del Este, em 1952: "não tenho um centavo, e não me importa que saibam disso. Tudo quanto tenho ganho tem sido gasto no poço sem fundo desta produção, "Othello", projeto de há muito acalentado. Espero terminá-lo ainda este ano (...)".
Excluímos destes apontamentos os problemas decorrentes das filmagens de Welles no brasil, onde rodou milhares de pés; desconhecem-se quantos, pois boa parte do material se perdeu. O documentário deveria chamar-se "It's all true" e suas filmagens foram canceladas pela RKO, quando caiu george schaffer, amigo e admirador de Welles, então presidente da empresa. "It's all true" foi em parte recuperado graças à atuação de Beatrice Welles.
Tanta arte e tantos problemas, como escreveu Sganzerla, não o impediram de casar-se quatro vezes: com Virgínia Nicholson (com quem teve a filha Christopher, nome de menino), Rita Hayworth (de quem nasceu Rebecca), Paola Mori (condessa italiana, intérprete feminina de "Grilhões do Passado", mãe de beatrice) e a cinéfila húngara Oja Kodar (presença em "Verdades e Mentiras").
Eis a filmografia de Welles, em ordem cronológica:
"Cidadão Kane" (1941), "Soberba" (The Magnificent Ambersons) (1942), "O Estranho" (The Estranger) (1946), "A Dama de Xangai" (The Lady From Shanghai) e "Macbeth" (ambos de 1947), "Othello" (1952), "Grilhões do Passado" (Confidential Report/mr. Arkadin) (1955), "A Marca da Maldade" (Touch of Evil) (1958), "O processo" (The Trial) (1962), "As Badaladas da Meia-nNoite" (Falstaff) (1965), "D. Quijote" (1966) (estes dois últimos já chegados em DVD) e "A História Imortal" (The Histoire Immortelle) (1967).
Welles reconhece como seus "Kane", "Macbeth", "Othello", "O Processo" e "História Imortal", pois não teve acesso à montagem dos demais, devido a compromissos noutros países ou em razão de desentendimentos com produtores; outros, como "Soberba", foram mutilados.
Se estivesse vivo reconheceria também "A marca da maldade", pois sua filha Beatrice (a mais ativa das três) descobriu todo o roteiro técnico e as instruções do pai para a montagem e conseguiu editar a versão completa, como a desejava Welles.
Essa obra-prima incontestável está disponível em DVD. Reconheceria também "Falstaff" e "D. Quijote", pois os deixou praticamente prontos. Projetos inacabados foram "The other side of the wind" e "The deep". O roteiro de "The big brass ring" (em colaboração com sua terceira mulher, Oja Kodar) foi filmado por George Hickenlooper nos anos 90 com William Hurt e Iréne Jacob nos papéis principais. Título em português: "a anel de corrupção".
* Artigo originalmente publicado no dia 06 de dezembro de 2005, no suplemento Cultura do Diário do Nordeste.