'Dança de enganos', de Milton Hatoum, encerra trilogia com as marcas da Ditadura Militar

Saga iniciou em 2017 com "A Noite da Espera", passa por "Pontos de Fuga" (2019), e concluiu em 2025.

Escrito por
Aila Sampaio* verso@svm.com.br
Milton Hatoum, homem pardo de cabelos brancos, sentado em uma cadeira de escritorio. Cenário de fundo mostra livros.
Legenda: O amazonense Milton Hatoum, eleito em 2025 para a Academia Brasileira de Letras (ABL), construiu uma narrativa sensível sobre o lado mais sombrio da experiência humana em trilogia iniciada em 2017.
Foto: TV Brasil/ Divulgação

A trilogia O Lado Mais Sombrio, de Milton Hatoum, se completa agora com a publicação do romance Dança de enganos (2025), pela Companhia das Letras, trazendo à tona a ditadura militar, o exílio e a fragmentação das relações familiares. Esse último tema é recorrente em obras suas anteriores, com o atravessamento de questões nevrálgicas como rivalidade, rejeição e incesto.

O narrador dos dois primeiros volumes é Martim, que reconstrói sua trajetória marcada pela ausência do pai, depois, pelo desaparecimento da mãe, pela repressão política e pela instabilidade afetiva. Os relatos evidenciam a inconsistência da lembrança e a dificuldade de compreender o passado, num tom confessional e reflexivo.

O contexto histórico - a ditadura militar brasileira - não é somente um pano de fundo, atravessa a vida das personagens, interferindo em suas escolhas, sentimentos e destinos. Martim cresce à sombra de um pai dominador, cuja ausência e mistério alimentam conflitos internos e uma busca incessante por pertencimento.

Em Dança de enganos, há mudança no foco narrativo, ampliando e tensionando as perspectivas apresentadas nos romances anteriores.

As figuras femininas, como a mãe, Lina, a avó, Ondina, e a namorada, Dinah, são presenças ausentes e complexas, que expressam tanto acolhimento quanto fragilidade.

Quem assume a voz narrativa é Lina, personagem in absentia no volume anterior, mas que, agora, se presentifica. A mudança no foco reconfigura a compreensão dos acontecimentos, pois a memória materna revela aspectos silenciados ou distorcidos nos relatos anteriores, evidenciando que o passado é sempre fragmentário e dependente de quem o conta.

Lina se mostra por inteiro, revelando o sentimento de rejeição da mãe, suas contradições, desejos frustrados, medos e estratégias de resistência. Martim, visto pelo olhar dela, parece um sujeito ainda mais complexo e vulnerável. Essa sobreposição de vozes e memórias reforça a ideia de que nenhuma identidade é fixa ou completamente apreensível.

Martim, ao perder o protagonismo, passa a ser reinterpretado por outro olhar, que mostra suas fragilidades e limitações. A própria Lina, por sua vez, pode ser vista como uma heroína silenciosa e igualmente problemática, cuja luta se dá no plano da resistência cotidiana e emocional: sente-se rejeitada pela mãe e castigada pelo primeiro marido, Rodolfo, que a distancia do filho sem que ela entenda por que.

Acaba por deixar perecerem os sentimentos por Leonardo, o artista com quem passa a viver, exilada da família, após a separação.

O espaço, que nas obras anteriores é São Paulo e Brasília, se desloca para o interior de Minas Gerais, onde novas personagens surgem.

No primeiro volume, Martim se muda com o pai, de São Paulo para Brasília, onde tem início sua formação pessoal e política. Brasília é um lugar de tensão entre os sonhos individuais e a realidade opressiva da ditadura. É lá que o protagonista vive experiências com o teatro, com relacionamentos afetivos e com a repressão política.

Em Pontos de Fuga, ele sai de Brasília e volta a São Paulo, onde passa a morar numa república, como estudante da faculdade de arquitetura. Mais velho e engajado, ele confronta a repressão política e molda sua identidade entre o individual e o coletivo.

Já Dança de enganos tem seu enredo nas cidades de Ouro Preto, Campinas e Paris. Agora é Martim o personagem in assentia. Sua ausência está presente na maioria dos relatos da mãe, e é essa ausência que dá a dimensão de sua importância, pois são as inferências de suas ações passadas, decisões ou mesmo o mistério sobre o seu paradeiro, que impulsionam grande parte dos relatos da protagonista.

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A metáfora do título – Dança de enganos – é uma síntese desses movimentos – físicos, psicológicos e históricos - como se preparasse o leitor para a sucessão de equívocos possíveis nas relações afetivas e familiares, nos constantes desencontros.

A palavra ‘dança’ sugere um movimento contínuo, alternado, com avanços e recuos, o que remete às aproximações e aos afastamentos na tentativa de recuperar o passado.

Até que ponto o passado recuperado é o que, de fato, foi? Haveria outras versões dos fatos contados?

Tudo é tão incerto como a própria estrutura dos enredos não lineares.

Se A hora da espera enfatiza a formação do sujeito em meio à ausência; e Pontos de fuga acentua o deslocamento e a fragmentação provocados pelo exílio e pela busca, o último volume questiona a própria possibilidade de uma narrativa definitiva sobre o passado.

A alternância de perspectivas expõe os “enganos” do título: as ilusões, os autoenganos e as versões incompletas da história familiar e política.

É somente após o encontro com alguns amigos de Martim, em São Paulo, e a leitura dos manuscritos do filho, que ela entende o comportamento do ex-marido em relação à convivência dela e o filho:

“Meu ex-marido percebeu o que sempre me recusei a admitir, como certas mães que, talvez inconscientemente, teimam em permanecer incrédulas diante de uma verdade”.

Entende, a partir daí, o papel de Dinah, tão parecida com ela mesma, na vida de Martim. Ao compreender, deixa de ser "prisioneira da ausência" dele e perde a necessidade de se redimir.

Desse modo, Hatoum constrói narrativas densas e sensíveis, que exploram o “lado mais sombrio” da experiência humana: o silêncio imposto, o trauma político, a falência das utopias, os laços familiares perturbadores e a solidão do indivíduo.

Dança de enganos encerra a trilogia de forma instigante, reafirmando um escritor atento às fissuras da memória e às marcas deixadas pela história autoritária do Brasil nos chamados anos de chumbo.

*Professora da Universidade de Fortaleza.

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