Consumo e consciência: como encarar a moda de forma mais sustentável?

Autor de três best-sellers, André Carvalhal reflete sobre questões do consumo da moda e os impactos ambientais e sociais da indústria

Escrito por Redação,

Verso
Legenda: André Carvalhal tem três livros publicados sobre as transformações da moda
Foto: Chico Cerchiaro

Você já parou para pensar quais as consequências que a produção de uma peça de roupa causa no mundo? Anualmente, são toneladas de gases tóxicos emitidos na atmosfera e litros de água desperdiçados. A indústria da moda é responsável também por submeter milhares de trabalhadores a situações análogas à escravidão. De acordo com estudo divulgado neste ano realizado pelo projeto Pegada Hídrica Vicunha, são utilizados cerca de 5.196 litros de água para fazer uma calça jeans no Brasil. 

Depois de alguns anos trabalhando com a comunicação e marketing da Farm, o carioca André Carvalhal começou a viver uma revolução consigo mesmo, pois a produção já não fazia sentido para ele. Quando o estalinho da consciência dessas questões bateu, o escritor resolveu mudar: saiu de um cargo cobiçado para escolher os próprios caminhos. Em 2016, investiu no projeto Malha, espaço de coworking voltado para a moda consciente, junto à pesquisadora Renata Abranchs, à gestora de varejo Chris Carvalho, ao jornalista Caio Braz e à consultora de marketing Lilly Clark. 

No entanto, a experiência não foi como a esperada e ele já não trabalhava mais com propósito. Com a decisão de sair, André não desistiu de investir no que iria lhe trazer satisfação pessoal. Nascia, então, em 2017, a AHLMA. A marca traz no DNA a sustentabilidade e prega a colaboração de todos envolvidos na cadeia produtiva das roupas. 

Com o aprendizado, veio a oportunidade de colocar tudo no papel e, hoje, ele tem três títulos autorais: “Moda com propósito: Manifesto pela grande virada”, “A Moda Imita a Vida - Como construir uma marca de moda” e “Viva o fim: Almanaque de um novo mundo”. Nos livros, André reflete sobre a moda não só como vestimenta. 

O escritor esteve em Fortaleza no último dia 16 para participar de palestra e mesa-redonda sobre sustentabilidade e o futuro da moda no DFB Festival deste ano. No evento, André contou um pouco da trajetória e debateu sobre o tema ao lado de Celina Hissa (Catarina Mina) e Renato Tomaz (Água De Coco). O Verso conversou com ele sobre essas reflexões. 

Quando você despertou a consciência para as questões da moda? 
É difícil decidir qual foi o momento, mas foi há uns quatro ou cinco anos. Não só eu, mas o mundo inteiro, começou a questionar bastante a moda e aí começaram a acontecer alguns incidentes, descobriram sobre o trabalho escravo, houve o desabamento do Rana Plaza, uma série de acidentes ambientes. Eu já trabalhava há mais de 10 anos com a moda e acabei me sentindo muito desgastado disso tudo, comecei a juntar uma coisa com a outra e percebi que aquele formato tradicional tinha perdido o sentido para mim.
Ser sustentável é mais um estilo de vida do que qualquer outra coisa.

A moda influenciou outras áreas da sua vida? 
Comecei a perceber que, apesar de eu ter um monte de roupa no meu guarda-roupa, eu usava só as mesmas peças, então aquilo começou a impactar na minha própria imagem, na minha moda. Comecei a me transformar pra querer coisas mais sóbrias, minimalistas e isso teve muito a ver com a minha casa, pois na época estava me mudando. É um movimento de dentro pra fora, as duas coisas estão totalmente conectadas.

Seus livros estão atualmente entre os best-sellers, você acredita que isso é um indicativo da mudança de comportamento das pessoas?
Sem sombra de dúvida. O meu primeiro livro falava muito sobre o mercado de roupa, sobre outras marcas e ele foi o primeiro a expandir. Mas o segundo foi no meio dessa mudança que eu estava te contando que abordava a questão da sustentabilidade na moda. Na época, eu tive medo da aceitação das pessoas, e ele surpreendentemente me mostrou que era um movimento, que, assim como eu, muitas pessoas estão olhando isso. 

E o que motivou você a escrevê-los? 
Eu costumo brincar que eu escrevi por uma oportunidade que apareceu. Trabalhei na Farm e comecei a dar aula e as pessoas perguntavam muito sobre como era trabalhar na marca. Surgiu, então, a oportunidade de lançar um livro e por conta do sucesso que foi, as pessoas amando, elogiando a minha escrita, pensei que tinha uma oportunidade de investir nisso, então vieram o segundo e o terceiro, em 2018. 

Estamos vendo muitas marcas reproduzindo cópias de outras. Você acredita que isso também causa impacto?
Tem uma sensação de que o volume e a quantidade que vão salvar as marcas da crise. É muito difícil você fazer as coisas de maneira mais autoral, gera insegurança de fazer o novo e não vender e muitas marcas acham que o certo é copiar o que tá dando certo, gira um ciclo vicioso de fazer igual. Quanto mais se faz igual, menos as pessoas têm vontade de fazer, as marcas têm que reduzir preço e gera impacto em todo o processo produtivo.

Em seus livros, você reflete bastante também sobre as questões sociais. Quais são as perspectivas se tratando da moda? 
Isso é o tema do meu terceiro livro, fala que a gente tá vivendo tempos muito difíceis e isso tudo tem a ver com o fim do formato dos padrões das coisas, que se transformaram e perderam o sentido, mas a gente continua vivendo nesses modelos antigos. Esse momento é de transição e as minhas perspectivas são otimistas, porque consciência é um caminho sem volta. Até o que é ruim deixa as pessoas revoltadas e tudo isso está trazendo luz pra coisas que a gente nunca parou pra pensar. 

Na São Paulo Fashion Week deste ano, tivemos um caso que escancarou mais uma vez a urgência de enxergar essas questões, a morte de Tales Cotta. Quais reflexões podemos tirar disso? 
Eu acho que muita gente nem entendeu o que aconteceu. Eu tive uma leitura de que a gente vive numa pressa, no volume, no fazer, no acontecer que a gente tem passado por cima de várias coisas e eu acho que ali foi um pouco isso que a gente viu, aconteceu um incidente muito triste, imprevisível, mas o impulso primeiro foi continuar como se nada tivesse acontecido. Independentemente de qualquer juizo de valor, eu acho que mostrou mais uma vez que a gente segue no piloto automático, fazendo sem muitas vezes parar pra olhar as questões do mundo e das pessoas. (Modelo teve mal súbito na passarela e acabou morrendo no hospital). 

Em agosto, você estreia um quadro no novo programa do GNT, o “Se essa roupa fosse minha”, o que pode adiantar? 
É o máximo, porque é um programa que fala sobre essa nova relação com a moda, usar o que vem do brechó, o que vem de uma feira. Vai ser a primeira vez que vamos ver na televisão o que é está na contramão da moda, pois a relação com a mídia sempre esteve nesse lugar de mostrar o que é o novo, de estimular o consumo e o quadro fala de exercitar sua criatividade, de transformar suas roupas, desse novo caminho. 

Quem são suas maiores inspirações no mundo da moda?
Durante muito tempo e até quando eu escrevi meu primeiro livro, eu me inspirava muito em grandes nomes da moda, como Ronaldo Fraga, Alexandre Herchcovitch e outros. Hoje me inspira muito essas novas marcas, novos criadores, pessoas que estão rompendo com velhos formatos e usando como ferramenta política, como ferramenta de resistência. 

Você acredita que é possível ser totalmente sustentável? 
Eu não acredito ainda em uma vida 100% sustentável, porque tem muita coisa que não depende da gente, mas eu acredito em tentar ser cada vez mais, em fazer as coisas melhores, pensando nas pessoas e no planeta.