Conheça biografia de músico homenageado por Bad Bunny no Chile

A canção “El Derecho de Vivir en Paz”, de Víctor Jara, emocionou público no Estádio Nacional.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
(Atualizado às 21:47)
Imagem de Bad Bunny para uma matéria sobre Victor Jara e homenagem no Chile.
Legenda: Bad Bunny cantou a música "El Derecho de Vivir en Paz".
Foto: Arte por Beatriz Rabelo com imagens de divulgação (Bad Bunny e Victor Jara).

Passam das nove da noite no Estádio Nacional do Chile, em Santiago. Entre as canções escolhidas para sua turnê "Debí Tirar Más Fotos", Bad Bunny dá alguns passos para trás e seu musicista se adianta ao palco. Instrumento em mãos, dedilha as notas de uma antiga canção de protesto. A música "El Derecho de Vivir en Paz", de Víctor Jara, resiste há 55 anos. E, sem acordos prévios, o estádio canta em união. 

A homenagem de Bad Bunny ao cantor chileno, realizada no dia 9 de janeiro, não é por acaso, tampouco se desloca do momento presente. Tocar a canção de Jara, cuja biografia é narrada no livro "Víctor: uma canção inacabada", ecoa em um momento de extrema tensão na América Latina. 

O ano virou com a notícia da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e com ameaças do presidente estadunidense Donald Trump à Colômbia. O próprio Chile, onde a homenagem foi feita, recentemente elegeu José Antonio Kast para a presidência, irmão de um dos ministros do General Augusto Pinochet, líder da Ditadura Militar do país.

Para o professor universitário Pedro PJ Brandão, mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e produtor de conteúdo na página "HQ Sem Roteiro", a homenagem a Víctor Jara caminha em uma lógica contrária ao esquecimento, ou amnésia coletiva, na América Latina. 

"Há um esforço generalizado de todo um campo político ao redor do mundo, que ascendeu nos últimos anos, que é essa extrema-direita, em atacar o processo educacional histórico das pessoas. Tentar desvincular as pessoas de sua história, de seu passado".
Pedro Brandão
Professor universitário

Mas o mundo não inicia a cada novo indivíduo. E Bad Bunny deixa evidente ser herdeiro de uma história e que, por sua vez, também deixará um legado aos que virão. É um processo de defesa contra invasões — físicas e simbólicas — e contra as novas formas de colonialismo. 

Víctor Jara e a defesa dos direitos humanos

O músico Víctor Jara cantava canções de protesto, defendia a liberdade da América Latina e protestava contra a guerra do Vietnã. A música "El Derecho de Vivir en Paz" surgiu justamente como um manifesto contra a intervenção militar dos Estados Unidos. 

Com o passar do tempo, além de ser considerada uma homenagem ao poeta e líder vietnamita Ho Chi Minh, a música passou a ser considerada um hino de resistência política e de defesa aos direitos humanos na América Latina. 

Devido ao seu posicionamento político, ele foi torturado e morto no Estádio Chile — hoje conhecido como Estádio Víctor Jara — durante a Ditadura Militar. Bad Bunny resgatou sua memória não muito longe dali, no Estádio Nacional, que chegou a ser utilizado como um campo de prisioneiros durante a ditadura de Pinochet. 

Sua história de vida é narrada na obra "Víctor: uma canção inacabada", lançada pela editora Expressão Popular. O livro foi escrito pelo ponto de vista da companheira do compositor, Joan Jara. Com um caráter autobiográfico, é uma obra de memórias sobre a trajetória do artista, sua morte e a busca pela justiça social. 

Imagem de capa do livro Víctor: uma canção inacabada.
Legenda: Livro foi escrito pela companheira do compositor, Joan Jara.
Foto: Divulgação/Editora Expressão Popular.

Assim, ao longo dos capítulos, é possível acompanhar a trajetória de Jara nas décadas de 1960 e 1970, quando ele buscava construir coletivamente uma cultura popular. Atento aos movimentos nas fábricas, nos campos e nas universidades, o cantor possuía grande solidariedade de classe. 

Na sua carreira, integrou o movimento musical Nueva Canción Chilena (Nova Canção Chilena), que possuiu nomes como Violeta Parra e Quilapayún, Jara foi um símbolo de resistência.

Conforme Pedro, um modo de resistir é justamente a autoafirmação. Esse movimento de "olhar para si próprio como América Latina e tentar se entender como algo a parte de outros tipos de identidades ao redor do mundo", diz.

Essa defesa também ocorre quando artistas, como Bad Bunny, denunciam a violência colonial que a América Latina sofreu. De certa forma, a homenagem ao Víctor fala mais sobre o presente porque "o presente está embebido de passado". O especialista percebe que ainda existe um processo de violência, como se vê atualmente com a gestão de Donald Trump.

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Pop como ferramenta política

Na década de 1970, foi Víctor Jara que fez crescer o sentimento de pertencimento de uma nação. Agora, Bad Bunny é o grande representante do orgulho e da resistência latinoamericana. Mas com o porto-riquenho, há uma diferença: ele consegue transformar o Pop em uma ferramenta política

Em um gênero que costuma ser despolitizado, com músicas que focam em relacionamentos e pautas individuais, é raro encontrar artistas que levantam pautas coletivas. 

A Madonna foi capaz de pautar o caráter emancipatório da figura feminina, a Beyoncé abordou a resistência da cultura negra nos Estados Unidos. E Bad Bunny leva ao mundo o "Debí Tirar Más Fotos", que surge como um grande manifesto de latinoamericanidade.

Em meio à perseguição aos imigrantes, no governo de Donald Trump, o artista publica um vídeo colocando a bandeira de Porto Rico na Estátua da Liberdade, e termina com a mensagem: "Juntos somos mais fortes".

"O pop que sempre foi tão despolitizado, tão visto como uma ferramenta de alienação, de uma indústria cultural usada para 'desmiolar' as pessoas. Bad Bunny pega essa cultura pop e organiza para imaginar ela como um manifesto".

E isso se deve à consciência dele sobre o papel do pop enquanto dimensão política e ferramenta de anti-alienação

Canção como testemunho de um tempo

Uma música, assim como uma fotografia, não tem o poder de mudar a opinião pública sozinha. Ao citar a foto da Garota Napalm, do Vietnã, a pesquisadora Susan Sontag defendeu que já existia um movimento e um discurso político nos Estados Unidos para o fim da guerra.

Assim, Pedro Brandão reforça que, se não existisse esse espírito do tempo, de nada a foto valeria. Do mesmo modo, a canção de Bad Bunny não carrega a potência, por si só, de modificar todas as tensões políticas e sociais na América Latina.

Mas se o Chile vive nessa onda de extrema-direita, a canção ecoada no mesmo estádio onde antes foram torturados perseguidos políticos se apresenta como um registro das vozes dissonantes

É um testemunho, de caráter simbólico forte, que ressalta a existência de sujeitos que não concordam com ações truculentas e autoritárias. Existe resistência. "Acho que a importância maior é para representar e fincar o pé no chão. Dizer: olha, a corrente quer nos levar, mas nós não vamos nos levar", finaliza.

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