Cearense Gero Camilo é premiado como melhor ator no Festival de Gramado pelo filme ‘Papagaios’
Pelo segundo ano consecutivo, o festival reconhece a atuação de um cearense no cinema
O longa-metragem carioca “Papagaios”, dirigido por Douglas Soares, foi um dos destaques da premiação do 53º Festival de Cinema de Gramado, que aconteceu no último sábado (23), na serra gaúcha.
A obra foi reconhecida nas categorias de melhor direção de arte, desenho de som, júri popular e melhor ator para Gero Camilo, que subiu ao palco do Palácio dos Festivais para receber o seu primeiro Kikito em 25 anos de carreira.
Este é o segundo ano consecutivo que um ator cearense é premiado em Gramado. Em 2024, Rodger Rogério conquistou com o Kikito de melhor ator coadjuvante por “Oeste Outra Vez”, de Erico Rassi, que também foi eleito o melhor filme da edição. O faroeste goiano estreou nos cinemas em março, consolidando a trajetória de sucesso de público e crítica iniciada no festival gaúcho.
Veja também
Em “Papagaios”, Gero interpreta Tunico, um homem obcecado em aparecer a qualquer custo em reportagens, mesmo sem ter ligação com os assuntos noticiados. Explorando diversas nuances e gêneros audiovisuais, como o suspense, o policial e o humor, o filme aborda a busca pela fama a partir dessas figuras tão emblemáticas do Brasil.
Em conversa com o Verso, Gero contou que o projeto de “Papagaios” surgiu quando ele passava por uma desilusão com o audiovisual brasileiro. Sem saber se continuaria filmando, diante das dificuldades do mercado, Gero foi fisgado pelo roteiro inventivo de Soares. O ator se inspirou nas comédias de Woody Allen para alcançar outro tom para o humor do personagem Tunico.
“Logo que eu li o roteiro, eu falei ‘isso é muito de uma neurose social, de uma psicopatia louca, de um mundo que a gente vive’, então eu quis muito chegar num tom de humor e não de uma comédia, porque é um humor ácido e Woody Allen é mestre nisso. Eu não queria fazer a comédia em si, eu queria entrar no humor a partir de um julgamento exterior sobre a obra e não de um propósito definido de que aqui é para rir”, afirma.
Para o diretor Douglas Soares, nunca teve outro ator para fazer o Tunico. “Sempre foi o Gero, mas não por todo tempo. Por muitos anos eu escrevi sem um rosto, até que surgiu o Gero talvez nos últimos três ou quatro anos. Escrevi muitos tratamentos do roteiro já com ele na cabeça e se ele não topasse, e tinha esse risco porque ele falou que não queria fazer mais cinema, eu não sabia o que eu ia fazer”, afirma o diretor Douglas Soares.
Tunico é um cearense que foi morar no Rio de Janeiro em busca de oportunidades. Essa identidade, no entanto, não foi estabelecida pela roteirização, sendo trazida pelo próprio Gero no processo criativo.
Segundo Soares, diversas figuras que ficaram conhecidas como papagaios de pirata na imprensa se mudam de cidade justamente pela superpotência midiática da capital carioca.
“Para mim, que tenho prazer nessa diversidade, nessa multiplicidade de caminhos, tirar riso onde você não imagina que sairia e, ao mesmo tempo, gerar tensão para quebrar com esse riso, é o mais difícil, mas é o mais profissional possível e o mais prazeroso possível que um ator pode fazer”, explica Gero.
Em “Papagaios”, Gero divide o protagonismo com o jovem ator Ruan Aguiar, dois personagens que se revelam extremamente complexos durante essa jornada de reconhecimento na mídia. O elenco também traz participações marcantes de Leo Jaime, Angela Paz, Ernesto Piccolo, Babi Xavier, Claudete Troiano, Marcello Escorel, Roney Villela, entre outros.
O diretor conta que todo o elenco emprestou coisas específicas para o filme, essenciais para a elaboração de um universo tragicômico.
“Eu precisava disso porque, pela minha experiência com cinema documentário, eu queria construir um mundo mais realista para que eles fossem verossímeis. Gero construiu comigo todo um passado para o Tunico, que não aparece no filme. Em um determinado momento, ele fala ‘um beijo para o meu Ceará!’, que é um improviso, e ele estava liberado para improvisar”, diz Soares.
Cinema cearense
Recentemente, Gero Camilo terminou as filmagens de “Geni e o Zepelim”, próximo longa-metragem de Anna Muylaert (“Que Horas Ela Volta?”), que aconteceram no Acre. Sem projetos de cinema no Ceará por enquanto, mas disponível para isso, o ator tem planos de voltar a Fortaleza em breve com um novo espetáculo teatral.
Para ele, o cinema cearense vive um momento decisivo, sobretudo pelos esforços de criação da Ceará Filmes, empresa pública de audiovisual que visa fortalecer a produção audiovisual no estado.
“Não podemos perder tempo, nem perder o bonde de no momento ter um governo de esquerda, onde esse tipo de pensamento é ampliado e democraticamente aberto para que a produção local comece a estabelecer critérios de continuidade, de fomento, de feitura, de distribuição, de orientação, e de fazer com que esse cinema se fortaleça internamente e, ao mesmo tempo, alce voo”, diz.
Veja também
O ator, que já trabalhou com os cineastas cearenses Rosemberg Cariry em “Os Pobres Diabos” (2012), Karim Aïnouz em “Madame Satã” (2002) e Clébio Viriato Ribeiro em “O Auto da Camisinha” (2009), acredita que o cinema feito no estado é uma referência nacional consolidada.
“O cinema cearense já está preparado e precisa continuar muito alerta para isso. Nesse sentido, a Ceará Filmes é fundamental, é pra ontem, e eu fico muito feliz que isso está sendo visto e desejado, e com muita gente à frente do projeto. O Ceará está formando muitos técnicos e atores e tem que criar campo de trabalho para essa força de trabalho recém-formada e já referendada pelos que já fazem cinema, como Rosemberg, Halder (Gomes), Karim, contemplando os novos profissionais que estão chegando e precisam desse espaço”, finaliza o ator.
*Colaboração especial para o Verso do Festival de Cinema de Gramado