Uso do termo 'serviçal' no BBB 26 expõe o racismo estrutural? Veja o que diz especialista
Palavra foi usada por Solange Couto para se referir à Milena.
A atriz Solange Couto virou alvo de críticas devido a falas polêmicas no BBB 26. Durante conversa com Babu Santana nesta quarta-feira (25), ela se referiu à participante Milena como uma "serviçal", enquanto a sister estava fazendo o almoço na cozinha da casa.
Os brothers ainda fizeram uma comparação com os serviços domésticos realizados pela recreadora infantil no reality, que "beneficiariam" a aliada dela, Ana Paula.
"Levantou, encheu o panduzinho e vai voltar pra cama [Ana Paula], enquanto a serviçal [Milena] do momento...", "faz comida pras madames", complementa Babu.
O diálogo logo repercutiu negativamente nas redes sociais, e alguns internautas apontaram que o termo reforça o racismo estrutural.
Na tarde desta quarta (25), a equipe de Milena se pronunciou sobre a fala, afirmando que é "triste" a forma como "subestimam e inferiorizam" a sister, pedindo ainda que o público "não corrobore com o mesmo tipo de ataque".
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Fala reforça estereótipo de servidão de pessoas negras, diz especialista
Para aprofundar essa discussão, é preciso levar em consideração a origem da palavra e o contexto social que o termo carrega. Conforme a mestra em Linguagem e Educação Carol Jesper, a palavra serviçal vem do latim servitium (“servidão, escravidão”).
Ao longo do tempo, passou a ser usada tanto para descrever alguém prestativo quanto para designar quem presta serviços domésticos. Hoje, esse uso ocorre majoritariamente de forma pejorativa.
Para a especialista, o diálogo ocorrido no BBB entre Solange Couto e Babu causa impacto "não só por negar à participante Milena a possibilidade de viver uma amizade genuína com uma mulher branca e rica, mas também por partir de pessoas negras".
Segundo Jesper, ainda que o discurso aparente denunciar "um suposto racismo por parte de Ana Paula", a suposição de que ela apenas se relacionaria com uma amiga negra por interesse acaba reforçando "o estereótipo da servidão e da instrumentalização das relações".
"O termo 'serviçal', tomado isoladamente, não carrega necessariamente um valor negativo. Torna-se problemático, contudo, quando é mobilizado para reduzir a complexidade das relações humanas, sobretudo porque invalida a possibilidade de afeto e vínculo entre pessoas vistas como incompatíveis", informa a professora.
Para determinados olhares, inclusive os de Solange e Babu, parece inconcebível que uma mulher negra e pobre possa ocupar o lugar de amiga, e não de subordinada, de uma mulher branca e rica.
Repercussão
Nas redes sociais, internautas que acompanham o programa dispararam críticas sobre as falas de Solange e Babu, apontando um preconceito e até falta de empatia.
"Eles próprios são os preconceituosos. Enquanto a Ana, mulher branca, tem mais noção e respeito que eles", opinou um seguidor.
"O Bubu na edição passada fazia comida para todos, e nunca foi chamado assim. Mas nessa edição está se deixando levar por atitudes que não combinam com ele", disse outro.
"Foi um comentário racista de pessoas que deveriam ser contra esse tipo de fala", reiterou uma telespectadora. "Isso porque eles queriam ela pra eles, não querem aceitar que ela está amiga de uma branca e não deles, assim a chamam de serviçal, mas se fosse com eles, também falariam isso?", questionou outro.
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Entenda origem do termo
A base etimológica do termo vem do latim "servus" (escravo) e "servitus" (escravidão; servidão). A professora informa que essa ideia surgiu na Roma antiga, em que muitas pessoas eram escravizadas, geralmente após serem conquistadas em guerras ou por meio de dívidas.
Essa origem tem relação com a ideia de perda de direitos e de serviços obrigatórios, mas não de etnia.
"Na sociedade brasileira contemporânea, o racismo, herança de séculos de escravidão, permanece atuante não apenas nas estruturas de desigualdade, mas também nas formas como pessoas negras são percebidas e interpretadas. Situações em que uma pessoa negra é automaticamente associada a papéis de utilidade ou de servidão evidenciam a persistência desse imaginário social", explica a professora.
Ainda conforme Carol Jesper, o termo “serviçal” pressupõe uma relação hierarquizada, em que alguém ocupa a posição de superioridade e o outro é colocado em um lugar de subserviência, inferiorização ou menor importância.
"Em tese, quem recorre a essa visão parece pressupor a impossibilidade de que um 'serviçal' construa vínculos em pé de igualdade com aquele a quem serve", destaca a mestra em Linguagem e Educação.
"Essa palavra não é neutra, pois remete a uma memória histórica marcada por exclusão e pela naturalização da subalternidade. Sobretudo quando usada fora do campo semântico do trabalho, em um contexto de relações humanas, torna-se uma palavra com um potencial de violência, pois parece invalidar a possibilidade de afeto, reciprocidade e amizade genuína entre pessoas de origens sociais e étnicas diferentes. Ela carrega uma insistência na noção de subordinação", conclui a especialista.