Pessoas desalojadas e colheita perdida: como está a cidade do CE com mais chuva acumulada em 33 anos

Caso as precipitações de maio superem a média, o acumulado de 2022 será o maior das últimas 5 décadas

Escrito por André Costa, andre.costa@svm.com.br

Ceará
Legenda: Seis casas foram condenadas pela Defesa Civil. Famílias não poderão voltar para estes imóveis
Foto: Wandenberg Belém

Quando, no início deste ano, os "Profetas da chuva" divulgaram previsão positiva para a quadra chuvosa (fevereiro-maio) no Ceará que viria a começar, era difícil imaginar que algumas cidades cearenses atingiriam tão altos índices pluviométricos em poucos meses. O município de Várzea Alegre, no Sul do Estado, é o principal exemplo.

Em somente quatro meses, a cidade de pouco mais de 40 mil habitantes, recebeu volume de chuva superior ao acumulado em todos os últimos 33 anos. Já são mais 1.400 milímetros em 2022. No entanto, há pouco o que comemorar. Este índice trouxe prejuízos generalizados.

Devido aos grandes volumes, 70 famílias estão recebendo suporte financeiro da Prefeitura, outras seis tiveram que sair permanentemente de suas casas, plantações foram completamente perdidas e até a produção de mel foi afetada. Um prejuízo ainda incalculável.

"Projetamos perda de até 80% da lavoura. A agropecuária também foi afetada, já que a alimentação do rebanho ficou inviabilizada em muitas áreas. Tivemos perdas ainda na apicultura e bovinocultura. Os prejuízos foram muitos", descreve o secretário da Agricultura de Várzea Alegre, Matias Alves.

Legenda: A cultura mais afetada foi a do milho, que não se desenvolve quando há muita água
Foto: Wandenberg Belem

O agricultor José Donizete Crispim, 61 anos, sentiu esses prejuízos na pele. Em uma frase ele descreve o impacto causado pelas grandes chuvas. "Eu perdi tudo. Milho, feijão e fava, tudo se perdeu, não sobrou nada", diz o morador do Distrito de Caraíbas, uma das áreas rurais mais afetada.

Caiu muita água neste ano. Fazia tempo que não chovia assim. Mas, não tem o que ser feito. Onde essas águas passaram não tem mais como plantar. Agora o jeito é se segurar e esperar o próximo ano. É difícil, mas não tem o que ser feito.
José Donizete Crispim
Agricultor

Legenda: Donizete Crispim perdeu 2 hectares de plantação devido as fortes chuvas que atingiram Várzea Alegre neste ano
Foto: Wandenberg Belem

Como para muitas outras famílias do Município, os danos do agricultor romperam os limites do campo. Ele também teve sua casa invadida pelas águas. "Perdi dois armários, duas camas e outras coisas", lamenta. De acordo com a Secretaria de Assistência Social de Várzea Alegre, "cerca de 70 famílias estão recebendo apoio financeiro do Município". Matias Alves acrescenta que outras seis estão desalojadas.

"No caso destas seis famílias, a Defesa Civil condenou os imóveis e elas não poderão voltar para suas casas. Estão em casa de parentes enquanto o Município, com apoio do governo Federal, vai construir novas moradias", acrescenta o titular da Secretaria da Agricultura.

 

Em junho, após o fim da quadra chuvosa, a Prefeitura fará um levantamento com o objetivo de identificar a quantidade de hectares de plantação que foram perdidos. 

Volume 50% acima da média

Conforme levantamento realizado pelo Diário do Nordeste, entre janeiro a abril deste ano, choveu 1.439,3 milímetros, volume quase 50% superior à média histórica anual do Município, que é de 961.6 mm. Os dados foram extraídos da plataforma da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme).

Mesmo ainda restando todo o mês de maio (o último da quadra chuvosa) e dezembro (mês que se inicia a pré-estação chuvosa), este volume já é o maior das últimas três décadas, ficando atrás apenas do ano de 1989. Caso as precipitações sigam a atual tendência e o mês de maio feche dentro da média, o ano de 2022 pulverizará este índice e se tornará o ano mais chuvoso das últimas cinco décadas. 

Dobro da média

Nos quatro meses iniciais deste ano, apenas fevereiro fechou com chuvas abaixo da média em Várzea Alegre. Nos demais, o Município obteve mais que o dobro da pluviometria esperado. A média histórica de janeiro para a cidade é de 155,7 milímetros e, ao fim daquele período, a Funceme contabilizou 321,9 mm.

Em março, choveu 551 milímetros, o que representa 145% acima da média, que é de 224,6 mm. No mês passado, novamente bons volumes contabilizados. A média para abril é de 193,9 mm e, ao longo dos 30 dias, choveu 424,2 mm. Já fevereiro choveu 19,6% abaixo da média (177 mm).