Nem fica nem namora: o que é uma relação ‘quase algo’, que chega perto mas não se torna compromisso

Para especialistas, comportamento é fruto da cultura de nossos tempos e gera reflexões sobre o lugar das expectativas e da definição de amor nas relações

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
08 de Setembro de 2024 - 08:00
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Legenda: Termo diz respeito a conexões que não foram tão maturadas ou validadas a ponto de virar realmente compromisso
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Você conhece uma pessoa. Passa a se relacionar romanticamente com ela. É bom para os dois, mas não existe uma definição do que está acontecendo. De repente, ambos estão ligados por um fio muito invisível. Não se avança nem se deixa, não é "fica" nem namoro. Bem-vindo, este é o “quase algo”.

Na seara dos relacionamentos, o termo diz respeito a conexões que não foram tão maturadas ou validadas a ponto de virar realmente compromisso. Ficam num limbo, entre o que é e o que poderia ser. Quem diz é Bruna Myrla Ribeiro Freire, psicóloga e psicoterapeuta. Segundo ela, o comportamento tem sido cada vez mais comum nos relacionamentos contemporâneos.

“Isso pela dificuldade atual de engajamento nas relações amorosas. Temos uma ligação cada vez mais específica com o tempo. Rapidez, fluidez e instantaneidade estão no dia a dia e atravessam toda a nossa existência, reverberando também nas trocas românticas”. Os efeitos tanto dessa velocidade quanto da quase incapacidade de nomear algo são fortes.

Para Bruna, a nomeação de qualquer emoção ou sentimento é importante para a melhor compreensão dessa vivência. A indefinição de uma relação, portanto, pode trazer aspectos confusos em relação aos limites do que está se estabelecendo, bem como pouca clareza das pessoas envolvidas sobre as expectativas partilhadas.

Para estudiosa, a nomeação de qualquer emoção ou sentimento é importante para a melhor compreensão dessa vivência
Legenda: Para estudiosa, a nomeação de qualquer emoção ou sentimento é importante para a melhor compreensão dessa vivência
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E não é que expectativas sejam ruins. A ausência total delas, por sinal, é impossível, visto que estamos o tempo inteiro em contato com as pessoas, afetando e sendo afetados por elas. “Isso significa que, independentemente de nomeação, um ‘quase algo’ ainda é uma relação, e isso nos marca. Por isso a perda ou o luto podem ser, sim, muito significativos”.

Sem rótulos, mas ainda importante

Luana Machado tem opinião semelhante. Tudo que existe é algo sim, e a ausência de um rótulo não necessariamente tira a importância do que foi vivido. “Essa indefinição do relacionamento pode vir também de uma maior liberdade. Hoje não há mais tantas regras, e cada um pode se relacionar como deseja”, situa a psicoterapeuta clínica de adultos e casais.

“Quando existe uma cartilha a ser seguida, você apenas tenta se encaixar naquele modelo que esperam de você. As pessoas estão se experimentando mais. Para alguns, a ausência de um rótulo pode ser algo confortável; já para outros, pode ser um fator que traga ansiedade”.

Tudo que existe é algo sim, e a ausência de um rótulo não necessariamente tira a importância do que foi vivido
Legenda: Tudo que existe é algo sim, e a ausência de um rótulo não necessariamente tira a importância do que foi vivido
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Vai depender, claro, de como cada um lida com essas questões e quais as prioridades para uma relação. Querendo ou não, um rótulo é algo que define algo, e as definições dão um certo norte para saber em que chão se está pisando. 

O tema é relevante porque considera também as próprias noções de amor a qual estamos habituados, ou não, a lidar. De acordo com Luana, as formas de se relacionar mudam conforme a cultura e a época – a noção do amor romântico não existia antes da Revolução Industrial, e as pessoas casavam apenas por questões práticas e sociais.

“Hoje já é possível observar menos imposições sobre formas de se relacionar, deixando as pessoas mais livres para decidirem como desejam viver o amor. Isso faz com que surjam novos modelos, e até não-modelos”.

Formas de se relacionar mudam conforme a cultura e a época
Legenda: Formas de se relacionar mudam conforme a cultura e a época
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Nesse sentido, as redes sociais cumprem papel interessante. Otimizam que as pessoas falem mais sobre o assunto e conferem oportunidade de gerar reflexões. Embora comecem como brincadeira – afinal, o “quase algo” gera até meme – para quem tem o hábito de estar se questionando, pode ser intrigante parar e entender o que faz sentido para cada um. 

É possível amar bem hoje?

A resposta para Luana é clara: só se relaciona bem quem se conhece. “Se conhecer passa por entender quais as formas próprias de estar em uma relação  – em todas elas, seja com amigos, familiares ou namoros. Embora o autoconhecimento não tenha um fim e uma linha de chegada, entender esses processos colabora para entender necessidades e dificuldades”.

Assim, somente com necessidades claras é possível ter um diálogo com o outro sobre expectativas. E se relacionar bem não quer dizer sem dificuldades. Toda relação vai exigir ajustes. Contudo, a partir de diálogo constante e demandas claras, é possível ser mais saudável na troca interpessoal.

Ao mesmo tempo, pondera Bruna Myrla, não é possível trazer definições tão fechadas sobre o amor, assim como não é possível “medir a gramatura” de um sentimento. “Penso que cada caso é um caso, isso é singular em cada relação”.

Somente com as próprias necessidades claras é possível ter um diálogo com o outro sobre expectativas
Legenda: Somente com as próprias necessidades claras é possível ter um diálogo com o outro sobre expectativas
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Por sua vez, há outro ponto crucial nesse panorama: a frustração. Há dificuldade em aceitá-la, claro – quem quer frustrar as próprias expectativas? Mas o caminho, aponta Luana Machado, é mesmo atravessar os sentimentos. Vivenciar a angústia e não fugir. Em suma, ao invés de procurar a superação, buscar mais passar por dentro das emoções a fim de acolhê-las.

“Buscar apoio nas redes de relações seguras, conversar com amigos que você confia para dividir as dores ou mesmo um processo terapêutico pode ajudar a ir sustentando as frustrações inerentes à experiência humana”, diz a estudiosa.

“Toda vivência pode trazer aprendizados se você souber aproveitar isso. A cada relação que você tem ou quase tem, fica mais claro quais são suas próprias necessidades. Entender o que não foi legal e o que não se gostaria de repetir. Entender o que é inegociável e sustentar essa decisão em uma relação futura”.

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