Musical com Jennifer Lopez atualiza clássico brasileiro dos anos 80 com Sonia Braga

Nova versão de “O Beijo da Mulher Aranha” estreia mais de 40 anos depois da produção dirigida por Héctor Babenco

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 09:57)
Jennifer Lopez e Sônia Braga interpretam a Mulher Aranha em composições paralelas, posando à frente de grandes teias de aranha em cenários de selva. Ambas se destacam pelos figurinos elegantes e a atmosfera dramática da obra.
Legenda: Em novo filme, Jennifer Lopez dá vida à personagem vivida por Sônia Braga em 1985.
Foto: Divulgação.

Em tempos de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” ganhando Globos de Ouro e chegando ao Oscar, houve “O Beijo da Mulher Aranha”. Em 1985, o diretor argentino radicado no Brasil Héctor Babenco liderou uma versão cinematográfica do romance homônimo escrito pelo também argentino Manuel Puig.

A obra foi uma coprodução entre Brasil e Estados Unidos, filmada no primeiro país e protagonizada pelo inglês William Hurt, o porto-riquenho Raul Julia e com elenco coadjuvante totalmente brasileiro liderado por Sonia Braga.

O livro de Manuel Puig inspirou um musical nos anos 1990 e é essa obra teatral que baseia a adaptação da nova versão de “O Beijo da Mulher Aranha”: também um musical, agora coproduzido entre EUA e México, protagonizada por Tonatiuh e Diego Luna, tendo a cantora e atriz Jennifer Lopez assumindo o papel da brasileira.

Entre atualizações, referências e mais escolhas, o filme recente, dirigido pelo veterano em musicais Bill Condon (roteirista do premiado “Chicago” e diretor de "Dream Girls", por exemplo), explora e acentua aspectos da história de Puig. O longa está em cartaz nos cinemas brasileiros.

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Mesma fonte original, gêneros diferentes

Lançado em 1976, mesmo ano em que um golpe de estado de direita na Argentina implantou uma ditadura militar no país, o romance “O Beijo da Mulher Aranha” acompanha a história de dois companheiros de prisão, Molina e Valentín

O primeiro é um vitrinista gay preso por corrupção de um menor e o segundo é um revolucionário preso por motivações políticas. Apesar das diferenças, os dois se aproximam à medida que Molina reconta a Valentín as tramas dos filmes que marcaram a vida dele

A história começou a ser escrita em 1974, antes da ditadura. Pelo teor político e LGBT, o livro ficou banido na Argentina até o fim do regime, ocorrido em 1983. Apesar disso, a obra angariou repercussão internacional. 

Foi também nos anos 1980 que ela ganhou as primeiras adaptações. Em 1985, o livro foi apresentado como peça na Inglaterra. No mesmo ano, o filme de Héctor Babenco foi lançado, adaptando diretamente o romance para o cinema.

Já em 1993, uma adaptação musical estreou na Broadway, nos Estados Unidos. É essa a principal base para a nova versão cinematográfica de “O Beijo da Mulher Aranha”.

Enquanto o longa de Babenco se desenvolve como um drama psicológico, o de Bill Condon agrega a ele uma camada musical. Em ambos, no entanto, o cerne da obra segue o mesmo: a relação entre Molina e Valentín construída a partir da apresentação das tramas de filmes antigos feita pelo vitrinista ao preso político.

Em relação a Sonia e Jennifer, as duas assumem a mesma “função” principal nas obras: representar as cenas dos longas contados por Molina na prisão. A brasileira, porém, assume mais “papeis” no filme de 1985, enquanto a norte-americana interpreta principalmente somente um.

Além disso, o aspecto musical também é outro ponto de diferença acentuada entre as duas, uma vez que Jennifer Lopez ganha longas sequências de canto e dança.

“Meio Argentina, meio Brasil, 100% Hollywood”

Por conta do lançamento do livro ter ocorrido paralelamente ao início do regime militar na Argentina, o romance não traz esse pano de fundo. No entanto, tanto o primeiro filme quanto o segundo têm as tramas ligadas diretamente à ditadura.

O longa de Babenco foi gravado no Brasil e traz o contexto autoritário ocorrido no País. Já a obra de Condon se situa na Argentina em meio ao regime ditatorial. 

A atriz Sonia Braga, caracterizada com uma maquiagem artística de teia e traje preto brilhante, inclina-se sobre Raul Julia, que está deitado em uma praia ensolarada. O cenário ao fundo apresenta uma teia de aranha gigante entre as árvores, criando uma atmosfera onírica e dramática que mistura a natureza com elementos de fantasia.
Legenda: Primeiro "O Beijo da Mulher Aranha" foi uma coprodução entre Estados Unidos e Brasil.
Foto: Divulgação.

Essa “falta de fronteiras” entre os países sul-americanos nas ficções, é possível compreender, se deve justamente à produção da adaptação cinematográfica de 1985, que abordou a história original argentina a partir do comando de um argentino radicado como brasileiro e por meio de uma coprodução Brasil-EUA.

De maneira não totalmente explícita, o novo “O Beijo da Mulher Aranha” faz uma referência ao primeiro filme em um dos momentos em que Molina começa a descrever a trama de uma produção cinematográfica para Valentín.

“A história se passava em um país mítico da América do Sul, parte Argentina, parte Brasil e 100% Hollywood”, descreve o vitrinista ao companheiro de cela, em um resumo que de certa forma ecoa o filme de Babenco.

Atualizações para os tempos atuais

Em uma ligação direta à ideia das misturas “geográficas”, “O Beijo da Mulher Aranha” de 1985 teve, apesar de se passar no Brasil, o protagonismo nas figuras do inglês William Hurt, intérprete de Molina, e do porto-riquenho Raul Julia, que viveu Valentín.

Os atores Tonatiuh e Diego Luna aparecem em um plano médio dentro de uma cela escura, onde Tonatiuh observa com preocupação e toca o rosto ferido de Luna. A iluminação fria e sombria destaca as texturas das roupas e as expressões de vulnerabilidade, compondo uma cena de forte carga dramática e melancolia.
Legenda: Tonatiuh e Diego Luna como Molina e Valentín no novo "O Beijo da Mulher Aranha".
Foto: Divulgação.

Pelo trabalho como o vitrinista, Hurt se destacou, tendo sido inclusive vencido o Oscar de Melhor Ator em 1986.  A nova versão, porém, traz atualização relevante para os novos tempos.

Molina passou a ser interpretado por Tonatiuh, um ator latino e queer que usa pronomes masculinos e neutros e é filho de imigrantes mexicanos.

No novo “O Beijo da Mulher Aranha”, inclusive, a relação entre os dois presos ganha camadas românticas de maneira mais frontal.

Repercussão na temporada de prêmios 

Em meio às vitórias de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” em premiações dos Estados Unidos, “O Beijo da Mulher Aranha” de Babenco chegou a eventos do tipo na época do lançamento.

O filme levou o prêmio de Melhor Ator para William Hurt no Festival de Cannes. Depois, conquistou indicação no Globo de Ouro a Melhor Filme de Drama, enquanto Hurt e Julia foram indicados à categoria de Melhor Ator de Drama. Sonia Braga disputou o troféu de Atriz Coadjuvante.

Os atores Raul Julia e William Hurt protagonizam uma cena intensa no filme
Legenda: Raul Julia e William Hurt em cena de "O Beijo da Mulher Aranha" de 1985.
Foto: Divulgação.

Já no Oscar, além da vitória de Hurt, o longa foi indicado também às categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, para Babenco, e Melhor Roteiro Adaptado. Apesar de ser oficialmente uma produção brasileira, a obra não é comumente compreendida como uma representante “oficial” do País.

“O Beijo da Mulher Aranha” de Bill Condon estreou no Festival de Sundance e buscou emplacar no debate de premiações, com expectativas de indicação para Jennifer Lopez como Atriz Coadjuvante.

Apesar das estratégias, a produção não conseguiu se inserir nas previsões, aparecendo com pouco destaque em prêmios nas últimas semanas. 

A principal indicação ocorreu no Critics Choice Awards, no qual o filme concorreu ao troféu de Melhor Figurino. Apesar disso, Tonatiuh conseguiu reconhecimento pelo papel, recebendo indicações ator "revelação" ou "promissor" em eventos como o Gotham.

O Beijo da Mulher Aranha

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