Maria Ribeiro expõe a delicadeza do recomeço em novo livro de crônicas

Com "Não sei se é bom, mas é teu", a escritora mostra o Brasil que resiste mesmo após eventos como a pandemia.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
(Atualizado às 19:46, em 30 de Outubro de 2025)
Imagem de capa de Não sei se é bom, mas é teu com a foto da maria ribeiro.
Legenda: Livro "Não sei se é bom, mas é teu" reúne crônicas de quase uma década.
Foto: Arte com images de Agnews e divulgação.

Maria Ribeiro nos mostra o Brasil que continua, mesmo tropeçando. O seu novo livro de crônicas “Não sei se é bom, mas é teu” traz mais um arroubo de pertencimento logo após a comoção nacional causada pelo filme “Ainda Estou Aqui”, que levou o Oscar de Melhor Filme Internacional.

Sua escrita é um estender de mãos, sem pretensão, a tudo aquilo de muito bom que existe em nossa cultura: Walter Salles, Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Selton Mello. Domingos Oliveira, Paulo José, e Rubem Fonseca. Rita Lee, Fernanda Young e Cecilia Madonna.

A lista é longa e vale a pena ser desbravada ao longo dos capítulos. O leitor pode muito bem ler esse livro de crônicas, publicado pela Record, com um caderninho e uma caneta ao lado. Surge o desejo de não perder nada.

Sobre o sentimento de euforia contagiante pela vitória de Fernanda Torres, Maria escreve:

“Porque quando algo extraordinário assim acontece - uma atriz brasileira ganhar um reconhecimento desses em um país que sabe o poder do cinema, exatamente vinte e cinco anos depois de sua mãe ter sido indicada na mesma categoria, nossa…quando essas coisas acontecem, fica parecendo que tudo vai dar certo. Que a gente pode se atirar no futuro, ter fé nos encontros”.
Maria Ribeiro
Escritora e atriz

De Guga Chacra a Kendall Roy

Mas seu livro também é sobre a paixão platônica que metade da população feminina do Brasil pareceu ter nutrido por Guga Chacra na pandemia, e sobre o carinho pelo Kendall Roy, da série "Succession".

Nas palavras dela: “Shiv, Rom e Kendall são horríveis, mas também provocam compaixão. Sabe aquele date roubada que você já sabe que vai ser roubada, mas vai mesmo assim? Então, eu fui”.

Fala também sobre luto e processos, mostrando que tudo bem ser o tipo de pessoa com dificuldade de desapegar: “Perdi meu pai dez anos atrás - e até hoje não tive coragem de tirar seu nome do meu telefone”. 

A obra inteira é Maria Ribeiro, para quem o camarote da escuta é um dos mais interessantes que já foi. Maria que, na infância, recebeu um bilhete de Tom Jobim que dizia “acorda, Maria, que hoje é dia”.

E que aprendeu a amar com Domingos Oliveira, e que um dia percebeu que o tempo passa e está passando.

E Maria, que tanto se inspira e admira Aninha — forma carinhosa de chamar Ana Cristina Cesar — parece organizar esse livro como quem senta na varanda para falar de histórias de um tempo que passou

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'Gosto de andar mesmo caindo'

Ao tratar sobre a pandemia de Covid-19, mostra o caminho percorrido, como sociedade, para chegar até aqui. “Brasileiros pela metade. É isso que temos sido. Vendo nossos povos originários sendo dizimados pelo garimpo ilegal e pela pesca predatória”. 

Em tempos de três manchetes por dia, as crônicas de Maria surgem como desaceleração, reflexão e honra aos mortos. Tudo junto, sem ordem de prioridade. Existe uma busca, no fim, de tornar melhor do que encontrou cada espaço que ocupou. Para ela, o real ocorre justamente na travessia. 

“Gosto de andar mesmo caindo”, escreve Maria. E segue, mesmo errando, perdendo palavras, recomeçando. Sua escrita aparece como um lembrete da força e beleza de nossa "Terra Brasilis", como ela escolhe descrever.

Um país formado por uma gente que "dança de graça, faz teatro para cinco, ama por hábito, cai bonito e junto". Mais vivos do que nunca. 

Serviço

Livro “Não sei se é bom, mas é teu”
Quanto: R$ 69,90
Onde comprar: Editora Record

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