Livro 'Aluvião' transborda poesias sobre luto e rio São Francisco

Obra é a estreia do artista Davi de Jesus do Nascimento no gênero.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
(Atualizado às 19:55)
Imagem do escritor Davi de Jesus do Nascimento para matéria sobre livro Aluvião, do Círculo de Poemas.
Legenda: Davi escreve a partir da relação dele com o rio São Francisco.
Foto: Colagem com imagens de Davi de Jesus do Nascimento.

“Aluvião” nasce daquilo que sobra. Do resto, da água barrenta, dos cacos quebrados pelo chão. De memórias e cemitérios de sedimentos. O artista Davi de Jesus do Nascimento já era conhecido por sua obra sobre o rio São Francisco, mas sua estreia na poesia consolida uma caminhada para uma nova área de sua trajetória. 

A obra, publicada pela editora Círculo de Poemas, surgiu como um braço de suas investigação sobre as enchentes do Velho Chico. Antes disso, trabalhava com uma multitude de linguagens: fotografia, performance, pintura, instalação e escultura. 

Imagem de capa do livro Aluvião, para matéria de literatura sobre a obra de Davi de Jesus do Nascimento.
Legenda: "Aluvião" é um livro publicado pelo Círculo de Poemas.
Foto: Divulgação.

Seu fazer artístico não se limita. Vindo de uma região que é paisagem do livro “Grande Sertão Veredas”, Davi explicou, ao Diário do Nordeste, que sua obra tem um recorte regional, ligado à correnteza que corre através do rio São Francisco. 

"Eu investigo muito as enchentes do rio São Francisco aqui na minha cidade. Eu quis colocar ‘Aluvião’ no título, quis trazer essa palavra como o resto da enchente, o que sobra de uma enchente. Qual o corpo que se revela depois que a enchente passa, depois que um rio lambe a casa?".
Davi de Jesus do Nascimento
Artista

E ao abordar os questionamentos daquilo que lhe é muito próximo, Davi tem o cuidado de lapidar o texto. As palavras não surgem por acaso. Isso, inclusive, é uma referência direta a escritores apresentados por sua mãe, como Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Hilda Hilst.

Elaborar o luto com a escrita

Pescadores, lavadeiras, marceneiros e carranqueiros. Essas figuras foram os mestres da vida de Davi. E essas imagens se arrastam para dentro de sua produção, infiltrando em sua arte como a água adentra as casas em temporadas de cheias. 

Seu pai, marceneiro, pesca e constrói barcos. Essa imagem íntima de sua infância constrói a identidade de seus poemas. No entanto, em meio a tudo isso, há uma figura que se destaca: sua mãe, Eliane Nascimento. 

Uma mãe que se tornou rio. Em 2013, Davi descobriu que ela havia morrido afogada. A mãe que lhe mostrou os caminhos da poesia, que lhe ofertou uma infância embebida em acolhimento, que era bibliotecária e amante dos livros. 

Seu poema surge como um trabalho sobreposto a todos os outros. "Era muito importante, para mim, lançar esse livro dedicado à minha mãe, que era bibliotecária".

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Construção coletiva da obra

Após mais de uma década, o artista percebe que a poesia ajudou a construir a estrada para lidar com o luto e se acostumar com a perspectiva da morte. "Deu ferramentas para construir um lugar só para isso e suavizar o luto pela minha mãe", disse.

E agora que a obra está no mundo, Davi compreende que, no fim, é um livro feito para sua comunidade barranqueira. "Barranqueiros é o nome que a gente tem, os Ribeirinhos do Vale do São Francisco".

Aluvião é um corpo que cresce de forma coletiva. Nasce de conversas com sua avó, de palavras que estão quase extintas e esquecidas da forma que se fala. Davi costurou, com zelo, cuidado e paciência, para que sua escrita pudesse vazar além do livro e, ela mesma, aluviar em outros lares. 

Serviço

Livro “Aluvião”
Quanto: R$ 69,90
Onde comprar: Círculo de Poemas

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