Artista visual cearense Zé Tarcísio morre aos 84 anos

Natural de Fortaleza, artista se destacou pelo trabalho de pintura e celebrava 65 anos de carreira com exposição atualmente em cartaz na Caixa Cultural.

(Atualizado às 15:07)
O artista visual cearense Zé Tarcísio posa ao lado de uma de suas obras, vestindo uma camisa preta e óculos redondos sob seus cabelos grisalhos e cacheados. A tela ao fundo apresenta uma composição abstrata vibrante com predominância de tons de vermelho, preto e azul, criando um contraste intenso com o fundo branco da parede.
Legenda: Nascido em Fortaleza, artista visual Zé Tarcísio circulou pelo Brasil e pelo mundo e firmou o nome no campo das artes a partir de uma carreira que chegou aos 65 anos em 2025.
Foto: Fabiane de Paula.

Morreu na madrugada desta sexta-feira (9) o artista visual cearense Zé Tarcísio, aos 84 anos. Nascido em Fortaleza, ele tinha domínio de múltiplas linguagens no fazer artístico, indo da pintura à escultura e instalações. 

Em 2025, Zé Tarcísio celebrou 65 anos de carreira nas artes. No dia 8 de fevereiro deste ano, ele completaria 85 anos. As duas datas são celebradas em exposição atualmente em cartaz na Caixa Cultural Fortaleza.

Zé Tarcísio começou na arte aos 19 anos, em 1960. Na época, Fortaleza passava pelo que o artista chegou a definir como um “boom cultural”, ligado a ações artísticas da Universidade Federal do Ceará, como a inauguração do Museu de Arte da UFC e da Concha Acústica.

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o artista visual desenvolveu um caminho na arte que passou não somente por Fortaleza, mas também por locais como São Paulo, onde participou da 9ª Bienal de São Paulo em 1967; o Rio de Janeiro, onde foi estudar e expôs; e Paris, para onde foi em 1971 representar o Brasil na Bienal de artes da cidade.

Obras do cearense foram expostas ou compõem acervos de importantes espaços museais do Brasil, como o Museu Nacional de Belas Artes, o Museu de Arte Contemporânea do Ceará, o Museu Histórico Nacional e o Museu Afro Brasil, entre outros.

O artista estava internado no Hospital de Messejana. O velório de Zé Tarcísio será realizado a partir de 10 horas do sábado (10) no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. O cortejo para sepultamento sai do centro cultural às 15 horas em direção ao Cemitério São João Batista.

“Grande professor”

Em 2018, Zé Tarcísio ganhou uma grande mostra individual no Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC-CE), a exposição "Zé Acervo de Experiências Vitais".

O curador e pesquisador Bitu Cassundé, que mergulhou na obra de Zé Tarcísio por três anos para construir a mostra — tornando-se grande amigo do artista no processo —, destacou a relevância do cearense para várias gerações.

"Zé foi um grande professor, formou várias gerações de artistas e muitos pesquisadores passaram pelo seu ateliê, um lugar de formação que abraçava todo o Centro Dragão do Mar", lembra o curador. 

Uma composição abstrata de Zé Tarcísio apresenta figuras sobrepostas com contornos pretos orgânicos e tons de sépia, destacando rostos estilizados com olhos expressivos e texturas pontilhadas. O fundo neutro enfatiza o movimento das linhas fluidas e detalhes em roxo, criando uma atmosfera enigmática e dinâmica característica do estilo do artista.
Legenda: Mostra de 2018 contemplou obras em diversas linguagens artísticas, indo da gravura à instalação.
Foto: Luiz Alves / Reprodução/Zé Tarcísio.

À época da mostra do MAC-CE, Cassundé lembra que Zé Tarcísio se emocionou ao ver a obra "Regador" sendo montada novamente no Ceará e contemplar o resultado de uma grande mostra individual dedicada a seus trabalhos. 

"Zé foi um artista multidisciplinar, que transitou por várias linguagens, inquieto, com uma obra de natureza política que discutiu corpo, memória e vida. Nos deixa hoje com muita saudade, mas a potência da sua poética reverbera com força na arte brasileira", conclui.

Entre outros impactos do artista, a cearense Carolina Ruoso, professora de Teoria, Crítica e História da Arte da Escola de Belas Artes da UFMG, destaca a relação dele com o lugar de criação. "Com Zé Tarcísio aprendi o valor cultural, social e político de um ateliê de artista", partilha ao Verso.

"A sua presença e resistência no entorno do Centro Cultural cumpriu um papel histórico de resistência ligado ao significado do território de memória das artes de sua geração, sendo ele um grande responsável pela transmissão dessa experiência cultural", segue a professora, referenciando o conhecido ateliê de Zé nos arredores do Dragão do Mar.

Arte, política e espiritualidade

Curador e sócio da Associação Internacional de Crítica de Arte, Lucas Dilacerda relembra que Zé Tarcísio foi um artista que enxergou o Ceará com profundidade, transformando seus elementos formadores — a religiosidade, a natureza e a história — em objetos poéticos e políticos.

"A obra de Zé Tarcísio é uma conversa profunda entre o chão do Ceará e o infinito do universo. Ele transforma matérias simples (como pedras, madeira e objetos de fé como os ex-votos) em potentes mensageiras da história: desde o grito silencioso contra a opressão política nos anos de chumbo, até a denúncia urgente da destruição ambiental das nossas paisagens por cercas e loteamentos", destaca Lucas. 

"Zé Tarcísio nos ensinou que não existe paisagem inocente, matéria neutra ou imagem descompromissada. Ao longo de mais de seis décadas de produção contínua, ele construiu uma obra que articula território, religiosidade, ecologia e imaginação política como partes inseparáveis de um mesmo sistema sensível", completa o curador.

Obra 'Relicário da Seca' (2013), de Zé Tarcísio, abre fluxo de visita guiada à Pinacoteca do Ceará feita pelo Verso
Legenda: Obra "Relicário da Seca" (2013), de Zé Tarcísio, compôs exposição "Se Arar", da Pinacoteca do Ceará.
Foto: Fabiane de Paula.

Dilacerda destaca que, dentre as grandes contribuições do artista para a cultura cearense está justamente essa demarcação da importância dessas paisagens, festas e objetos populares, mostrando que é possível abordá-las sem perder "densidade conceitual ou potência experimental".

"No âmbito da arte brasileira, Zé Tarcísio deixa como herança uma das formulações mais consistentes de articulação entre arte, política e espiritualidade fora dos grandes centros hegemônicos", ressalta Lucas. 

"Ele atravessou o período da ditadura militar, a censura, o exílio simbólico, o retorno e a reinvenção, sem nunca abandonar a convicção de que a arte é um lugar de resistência sensível, isto é, como ferramenta de construção de novos olhares e imaginários sobre o mundo", completa.

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