Espetáculo revisita ditadura militar a partir das histórias de resistência de mulheres cearenses

“Das que ousaram desobedecer”, da Cia Bravia, estreia virtualmente nesta quarta-feira (28), às 20h

Cia Bravia
Legenda: A peça traz Liliana Brizeno, Marina Brizeno e Marina Brito no elenco
Foto: Tim Oliveira

Herê Aquino defende que só se constrói um presente e um futuro se olharmos e tivermos como base nossas memórias. As dela remontam a uma infância em que a própria casa era invadida por militares, que queimavam os livros do pai e o levavam sem dizer para onde. Ex-preso político, o pai, Aquino, foi torturado e preso durante a ditadura militar brasileira, assim como mulheres cearenses cujas histórias Herê começou a costurar em 2020.

Ruth Cavalcante, Rita Sipahi, Rosa da Fonseca, Nadja Oliveira, Helena Serra Azul, Jana Barroso e Beliza Guedes são algumas “Das que ousaram desobedecer”, título do espetáculo com produção da Cia Bravia que estreia logo mais, às 20h, no canal do YouTube da JUTV e do Grupo Expressões Humanas.

Veja teaser do espetáculo:

Entre as motivações para a escolha deste tema, Herê, à frente da direção da peça, destaca a atual situação do País, onde temas como ditadura, AI-5 e militares no poder voltaram à tona em manifestações nas ruas e nas redes sociais.

Nossa história é muito mal contada, então resolvemos trazer a história e os fatos contados por quem viveu o período. A escolha por histórias de mulheres é, também, por acharmos importante esse recorte do feminino. Ressaltar que nós, mulheres, também estávamos na luta pela democracia do País que sempre parece tão ameaçada.
Herê Aquino
Diretora teatral

Pesquisa

O processo de construção do espetáculo teve início antes da pandemia, a partir de entrevistas presenciais com Mário Albuquerque, da comissão de Anistia, e a irmã dele, Neidja Albuquerque.

De março de 2020 em diante, a companhia estabeleceu conversas virtuais com mais de dez mulheres cearenses que resistiram à ditadura militar entre os anos 1960 e 1970, e também realizou pesquisas nos arquivos da Comissão da Verdade.

cia bravia
Legenda: O espetáculo foi construído sob a estrutura de teatro documental
Foto: Tim Oliveira

“Durante as pesquisas, tivemos algumas mulheres que relataram que nas sessões de torturas eles perguntavam, com muita raiva e gritando, ‘o que elas estavam fazendo ali? Por que não estavam em casa cuidando dos filhos e do marido?’. Esse tipo de coisa demonstra também o ódio que havia neles por as mulheres estarem com outras perspectivas de vida, não serem mais a ‘mulher prendada e do lar’. E claro, o opressor era sempre um homem, cheio de ódio, em um lugar de privilégio e com direito de fazer o que quisesse com quem estava presa, inclusive matar”, expõe.

Fatos reais

Em cena, as atrizes Liliana Brizeno, Marina Brito e Marina Brizeno revisitam essas experiências amparadas em depoimentos como o da cearense Rita Sipahi, que foi companheira de cela da ex-presidenta Dilma Roussef no Presídio Tiradentes e participou da Comissão de Anistia, 2009/2018, como advogada conselheira.

Graves violações dos direitos humanos foram praticadas contra o povo brasileiro, através das intervenções nos sindicatos, nas entidades estudantis, nas entidades camponesas e naquelas da cultura, do cinema, das artes. A censura foi generalizada, o medo passou a vigorar, e o desmentido foi o que prevaleceu durante os 20 anos da ditadura civil militar.
Rita Sipahi
Advogada

Para ela, o espetáculo da Cia Bravia nasce como um testemunho desse passado. “Sua importância no presente tem o significado de ser mais um instrumento que rompe com o silenciamento, imposto pelos agentes da ditadura civil militar de 1964”, observa.

cia bravia
Legenda: As musicistas Gigi Castro e Letícia Marram atravessam as "partituras corporais" das atrizes em cena
Foto: Tim Oliveira

A psicopedagoga Ruth Cavalcante, presa em duas ocasiões naquele período, lembra que participar do movimento estudantil e das lutas sociais como mulher era ainda mais complexo. 

Era um espaço eminentemente masculino. Então, era uma dupla dificuldade: tanto tinha repressão geral, que imperava no País, como inclusive essa postura mais machista de que as mulheres não podem ter um espaço social. E eu já acreditava desde aquela época que todo espaço social pode e deve ser ocupado pelas mulheres também.
Ruth Cavalcante
Psicopedagoga

Assim como muitos brasileiros, Ruth partiu para o exílio. “Começaram a prender meus familiares para saber onde eu estava, e aí tive que fazer esse percurso”, diz. Primeiro, ela passou pelo Chile e depois seguiu para a Alemanha, onde só então conseguiu concluir a graduação.

Arte política

Rita e Ruth entendem a peça da Cia Bravia como uma ferramenta histórica importante.

"Eu acho que a gente vive mais exatamente para contar a história que é negada. Negar que houve uma ditadura militar altamente repressora e assassina é negar uma história importante e também negar nós que estamos vivos ainda, que vivemos tudo isso. Eu vivo para contar isso, para provar que nós não podemos permitir que esse tipo de ditadura volte a acontecer no nosso País”, defende Ruth.

Para Rita, aliás, é necessário reconhecer o trabalho de quem busca ouvir sua voz.

As atrizes que encenam o espetáculo realizam a resistência que a juventude de hoje, através da arte e suas múltiplas manifestações, vem praticando”.
Rita Sipahi
Advogada

Em diálogo com essa percepções, Herê Aquino acredita que a arte não pode estar alheia a acontecimentos políticos.

"Minha arte está sempre muito atravessada pela vida, pelas questões sociais que nos atingem direta ou indiretamente. E eu acredito que essa também é a função da arte: nos fazer refletir sobre o mundo que vivemos”.

Com duração de 60 minutos, “Das que ousaram desobedecer” terá uma exibição virtual única nesta quarta, mas em agosto está prevista outra apresentação para escolas convidadas e também aberta ao público.

Ainda que a reabertura dos teatros tenha sido liberada no último decreto estadual, o grupo pondera o retorno.

“Todos ainda estão muito receosos, apesar da saudade do palco ser grande. De qualquer forma, já pensamos nessa adaptação (para o presencial), mesmo durante esse processo de montagem. Queremos muito que nossa primeira apresentação seja para convidados. Porque queremos fazer para elas e para os familiares e amigos dessas mulheres que nos encantaram com suas lutas e delicadezas”, finaliza.

Serviço

Estreia do espetáculo 'Das Que Ousaram Desobedecer'
Nesta quarta-feira (28), 20h, no canal do YouTube do Grupo Expressões Humanas. Gratuito. 
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