Processos teatrais conduzidos por Herê Aquino ganham livro em forma de diário de bordo

Publicação será lançada virtualmente nesta quarta-feira (14), às 20h

Herê Aquino
Legenda: Herê Aquino atua há três décadas na cena teatral cearense
Foto: Diego Souza

Talvez você já tenha se perguntado que experiências o artista viveu antes da apresentação de um espetáculo. Quais livros foram lidos? E músicas ouvidas? A quem entrevistou? Como costurou tantas referências? Em resposta a essas perguntas, que inquieta desde estudantes de artes cênicas até um público mais curioso, a diretora cearense Herê Aquino propôs a construção do livro “Diário de Bordo - um estudo sobre processos teatrais”. 

A obra terá lançamento virtual nesta quarta-feira (14), às 20h, no canal do YouTube do Grupo Expressões Humanas. Nas 80 páginas recém escritas, ela e alguns artistas envolvidos nas últimas cinco montagens sob sua direção partilham detalhes daquilo que está por trás das cortinas ou também das salas de transmissão on-line.

Em uma rápida e agradável leitura de até duas horas, é possível conhecer a fundo os bastidores de “Os cactos/O ano que não acabou” (2007), “Putz, a menina que buscava o sol” (2017), “Îandé Tehoka” (2019), “Das que ousaram desobedecer” (2021) e  “Des-Amor-Daçar” (2021) - os dois últimos ainda por estrear.

Apesar de não ter exatamente um diário do tipo caderninho, que a acompanha nessas três décadas de trajetória profissional, Herê vinha esse tempo todo registrando memórias e reflexões no próprio corpo. 

“A linha de pesquisa que a gente segue, do teatro ritualístico, vai ficando corporalmente na gente. Já sei por onde consigo algumas coisas. Uma pesquisa que faço para um primeiro trabalho, consequentemente vai estar no segundo, no terceiro e no quarto. Elas vão crescendo, se complementando e isso vai ficando um arcabouço cultural muito grande. É justamente isso que a gente joga no livro para não se perder”, explica a diretora.

Espetáculo Putz
Legenda: Bastidor do espetáculo "Putz, a menina que buscava o sol"
Foto: Acervo Cia Prisma de Artes

Neste sentido, ela lembra que o teatro é uma arte efêmera, e parte do que se vive quando se está no palco, “se perde” quando a apresentação chega ao fim. “Por isso, pensei em sistematizar esses processos, ideias, experimentações, para que outras pessoas tivessem acesso aos nossos caminhos”, observa.

Diário feito em colaboração

Como tudo em que Herê se envolve, este livro também é fruto de um trabalho coletivo, e, por isso mesmo, nele ecoam outras vozes. Vanéssia Gomes assina o prefácio, pensando “o teatro de nosso tempo”. Já Marina Brito, Rogério Mesquita, Lara Leôncio, Klebson Alberto, Wallace Rios, Marina Brizeno e Liliana Brizeno contribuem com textos que refletem desde a pesquisa-criação até questões de figurino, cenografia e iluminação.

Herê Aquino dirige cena
Legenda: A linha de pesquisa do teatro ritualístico guia o trabalho de Herê
Foto: Acervo Expressões Humanas

A diretora entende que essas facetas não são apenas técnicas, sendo cada profissional citado um artista criador. “Nos meus trabalhos, eu sempre dialogo com todos. Fazemos ensaios, eles discutem conosco. É tudo feito de forma colaborativa, então pra mim era muito importante que, se o trabalho fosse abordar os processos criativos dos cinco últimos espetáculos, essas pessoas estivessem falando também sobre isso”, explica.

Nos textos de cada artista, ficam evidentes desafios pessoais e coletivos, vencidos por meio do diálogo e da necessidade de se responder com cultura às violências políticas que a classe enfrenta cotidianamente. A escrita é reflexão, mas também denúncia, de um tempo cujos registros ainda nos servirão de longos debates daqui para frente.

Atravessamentos

Nessa travessia proposta pelo Diário de Bordo, descobrimos, por exemplo, como as vivências de Herê, filha de um ex-preso político da ditadura, se fazem presentes nas montagens de “Os cactos/O ano que não acabou”. 

O espetáculo conta a história de um jovem revolucionário que é sequestrado, preso e torturado e que desaparece sem deixar vestígios. “Quando li o texto, ele fez com que eu revisitasse toda a minha infância e adolescência que haviam sido roubadas pelas forças de repressão entre 1964 e 1985”, conta a diretora, no livro. 

Espetáculo
Legenda: A montagem "O ano que não acabou" é de 2019
Foto: Creston Filho

Em “Îandé Tekoha”, cuja pauta central é a resistência indígena, é também em busca de um vínculo que Herê propõe a cada artista a resposta ao questionamento “como o tema atravessa cada um/a de vocês?”. “Ela (a pergunta) fez com que revisitássemos a nós mesmos/as e  à nossa ancestralidade familiar, fazendo-nos perceber como a questão tinha atravessado cada um/a de nós de forma totalmente diferente”, escreve.

No processo de construção desse trabalho, o grupo Expressões Humanas teve a oportunidade de visitar algumas aldeias locais e testemunhar a luta das 14 etnias cearenses para se manterem vivas. “A emoção maior que tive em 30 anos de teatro foi fazer esse espetáculo dentro das escolas indígenas. A gente chorava e eles também. É muito bacana esse retorno”, lembra Herê.

A pandemia de Covid-19 é outro aspecto que não passa despercebido nas reflexões do livro, especialmente porque algumas montagens registradas na obra estão ganhando forma já diante desse contexto sanitário.

“É um tipo de interpretação diferente. Não é a mesma do cinema, da TV, nem do teatro. É uma coisa híbrida. A gente perde algumas coisas, porque o teatro pra mim é olho no olho, sentir cheiro, corpo, mas a gente também aprende outras”, destaca a diretora.

diário de bordo
Legenda: Detalhe do Diário de Bordo, que teve tiragem de mil exemplares

Feito com recursos provenientes da Lei Aldir Blanc, este livro integra um projeto maior, o #HerêAquiNoMundo, que inclui ainda um documentário e uma exposição virtual sob a mesma perspectiva do Diário de Bordo, e a estreia das peças  “Des-Amor-Daçar” (Cia Prisma de Artes) e “Das que Ousaram Desobedecer” (Cia Bravia).

Até o fim do semestre, tudo deve estar disponível ao público, o que, para a diretora, é mais uma conquista a ser registrada na história: “estamos conseguindo fazer com que a arte permaneça viva, apesar da pandemia”. E, ansiamos todos, também depois dela.

Livro

capa do Diário de Bordo

“Diário de Bordo - um estudo sobre processos teatrais” 
Herê Aquino
Editora Minerva, 2021
80 páginas
R$ 15,00

Serviço

Lançamento: Quarta-feira (14), às 20h, no Canal do Grupo Expressões Humanas no YouTube. Livro disponível para venda no perfil do coletivo no instagram @grupoexpressoeshumanas e na Livraria Lamarca.

 

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