Gi Monteiro usa arte para reescrever narrativas de corpos dissidentes
Conheça a trajetória da artista trans cearense que expõe em primeira mostra individual.
Diante das obras de Gi Monteiro, não é raro encontrar observadores inclinando o rosto ou chegando mais perto para dar sentido ao abstrato. Seu trabalho mistura pinturas, desenhos, tecidos, esculturas e fotografias.
Para conhecer suas pinturas a fundo, basta visitar a Cave Galeria, no bairro Meireles, em Fortaleza – espaço que abriga exposição "Céu da boca da noite", onde ela desorganiza o real e cria novas arquiteturas de existência.
A primeira exposição individual da cearense não foi trabalho fácil. Nasceu como fruto de uma germinação de uma vida inteira. Artista, periférica, negra e travesti. Aos 28 anos, Gi entende que suas vivências ganharam corpo na forma de arte.
Assim, chegar ao Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado nesta quinta-feira (29), sentindo os frutos de seu trabalho é perceber que caminhar é também um teimar em fazer. É teimar como um exercício de continuar viva, de desorganizar a ordem, de se colocar contra a corrente das estruturas de violência e dos moldes do mundo.
"Mas para além do mês, para além da data, eu acho que a vida de pessoas trans são como profecias. Profecias de que a vida e de que os corpos podem ser muito mais do que foram elencados a ser", compartilha Gi, em entrevista ao Diário do Nordeste.
Obra nasce da criação no escuro
Quando Gi decidiu construir universos capazes de reescrever o mundo e criar narrativas que acolhessem os corpos dissidentes, ela desejava criar uma matéria que não se encerrasse em si. Ainda que parta de vivências particulares e íntimas, sua arte busca, acima de tudo, a potencialidade do encontro.
Para isso, tomou refúgio em uma substância comum a si: o escuro. Foi no escuro que se descobriu e se experimentou enquanto pessoa trans. No escuro, dançou as danças e traçou os traços que ganhariam forma em suas pinturas. Sua obra é abstrata, sim, mas nas curvas, traceja os arcos que por muita noite seus pés tracejaram nas pistas de dança.
Esse escuro é abraçado como um espaço de liberdade. Durante a entrevista, com uma ponderação cuidadosa, Gi relembra que pessoas trans, historicamente, utilizaram o escuro para exercerem funções de trabalho.
Na década de 1970, as travestis eram conhecidas como damas da noite. "Na noite, não tem mais a luz do sol, apenas as cintilâncias do luar e das estrelas. As travestis se tornavam essas damas", percebe sem, no entanto, esquecer a violência. Como a que levou negros escravizados a fugirem durante as madrugadas. O escuro é espaço de herança e de memórias. Rotas de liberdade.
"Meu processo de transição acontece exatamente no período da noite. É na festa, nesses ambientes noturnos que eu consigo perceber e tangenciar o meu processo de transição".
E sua obra reflete justamente isso. Toma o escuro como metodologia e descobre formas que ainda não tem nomes. "E um pouco do meu trabalho e do vínculo que eu faço com o escuro é teimar. Teimar dentro da história da arte, teimar numa criação que é abstrata", revela.
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Ser trans como pássaros em migração
Em meio a um discurso dominante e violento de que os corpos devem ser limitados a certos moldes, artistas como Gi Monteiro anunciam – como profetisas e profetas – que podem ser muito mais. No caso da cearense, natural de Fortaleza, seu processo de criação e de imaginação ocorre através do corpo.
"E não somente no corpo, mas na alma também, entendendo que o nosso corpo é a materialização dessa alma. E essa alma é livre, ela voa", diz.
Para a artista, a identidade trans é como um pássaro migratório, que não percebe fronteiras e tampouco aceita os limites territoriais. Enquanto o mundo se estabelece a elevar as fronteiras, os corpos trans profetizam o contrário.
"Nós possibilitamos que as pessoas percebam que a vida pode ser também a possibilidade de migrar, de se transformar, de se imaginar e de criar no seu próprio corpo, na sua própria vida, na sua própria alma, outras possibilidades para além daquilo que a luz da norma ou da regra disse que era para ser".
Trabalho embebido de memória
Ainda que parta de algo muito particular, a artista defende a liberdade de recepção desse trabalho. Quem se coloca diante de suas pinturas, esculturas e fotografias, podem ativar uma série de memórias, intuições e sensibilidades.
Existe a possibilidade de o outro se lembrar, de associar ou até mesmo de criar. Para ela, é nisso que reside a força da abstração. A partir da cosmovisão do outro, tem-se a interpretação.
Por fim, ao olhar para trás, considerando sua trajetória – atravessada por bairros como Parque Santana, Bonsucesso e José Walter – Gi cita a importância da criação de memória sobre pessoas trans no Ceará no âmbito da criação de arte e da produção de exposições individuais.
"E é uma possibilidade de você criar imaginários também. Das pessoas verem que o seu trabalho também pode acontecer dentro de dinâmicas de felicidade, de gozo, de alegria e de realização". É como se Gi ecoasse: me dá um pouco de possível, senão eu sufoco.
Com curadoria de Lucas Dilacerda, sua exposição teve abertura no dia 13 de janeiro e seguirá aberta ao público até o final de fevereiro. Um convite aos cearenses para conhecer o universo da artista.