Annie Ernaux mescla escrita e imagem para criar prosa íntima sobre relação amorosa e câncer
Livro "O Uso da Foto" surgiu na busca de criar um "testemunho tangível" do romance com o jornalista Marc Marie.
Foi da necessidade imperiosa de fixar os vestígios de sua relação com o jornalista Marc Marie que surgiu, para Annie Ernaux, a ideia do livro O Uso da Foto. A obra da vencedora do Nobel de Literatura já é marcada pelo caráter autobiográfico e pelo uso de imagens.
Neste livro, ela constrói a escrita em parceria com Marc, em que ambos partem de fotografias tiradas por eles para escrever textos e elaborar algo que atravessava suas vidas: um câncer de mama.
E que imagens são essas, afinal? Annie e Marc capturam a disposição exata das roupas deles no chão ao chegarem em casa, antes de se relacionarem.
Para o gesto não se transformar em algo performático, os dois criam algumas regras: não mexer em nada, deixar tudo no lugar. Ter a fotografia como um vestígio, um rastro do que havia acontecido.
"Semana a semana, as fotos foram se acumulando. Várias dezenas delas, no total. De gesto espontâneo, o ato de fotografar passou a ser um ritual", escreve Marc no livro publicado pela editora Fósforo e traduzido por Mariana Delfini.
Com a prática, os dois buscavam conservar a imagem da paisagem devastada depois de fazerem amor.
Vestígios do cotidiano
Em meio a tudo isso, reside o câncer de mama de Annie Ernaux. Na época, meados de 2003, ela realizava o tratamento e sentia toda sua vida em pausa. As aulas, palestras, e todos os planos para o futuro estavam suspensos no tempo diante da incerteza da morte.
Ainda que não seja um livro sobre o câncer, que parte da relação com Marc Marie, ambos perceberam que a doença atravessa todos os escritos deles.
A peruca com fios dourados que Annie utilizava, a primeira vez que ele a vê sem o acessório, a coragem de se desnudar e de estar presente em um período tão desafiador.
"Não me parece haver nada melhor que isso para fazermos juntos — um ato, ao mesmo tempo unido e separado, de escrita".
Sobre essa prática, ela ainda acrescenta: "o pensamento de que ele começou a escrever sobre essas fotos, esses indícios de uma noite, me enche de um sentimento até então desconhecido, de uma excitação tanto intelectual quanto física. É um segredo que compartilhamos, uma espécie de nova prática erótica".
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Atravessamentos entre literatura e imagem
Uma única imagem conduz cada texto. A escrita é vista como algo que constrói o objeto, nesse caso, a relação. As palavras servem não apenas para representar a cena, como abrir um espaço capaz de fazer surgir algo novo.
Annie começa os capítulos descrevendo quase objetivamente o que há na imagem. "Do amontoado, retorcendo-se sobre o piso, emerge uma meia-calça comprida cinza-escura. Perto do sapato, as taças de um sutiã florido...".
A cena é descrita em sua totalidade, mas a escrita mostra algo que rompe os limites da imagem.
Em seu curso sobre escrita, na qual o presente livro de Annie Ernaux é citado, a pesquisadora Flávia Peret destaca que o exercício da escrita está relacionado com a busca de algo que apenas a própria escrita pode ensinar.
Ela mostra algo que sozinha não conseguiria ver e, por meio das palavras, produz sentido. E, de fato, é assim que funciona com Ernaux, uma forma de dar corpo a uma experiência efêmera.
"Esta calça cujo corpo está ausente é um pouco isto: quartos, uma poltrona, paredes, uma cozinha, uma concha vazia. Para quem vê de fora, são apenas vestígios. Já nós vemos neles justamente aquilo que não está representado: o que aconteceu antes, durante e logo depois".
Serviço
Livro “O Uso da Foto”
Quanto: R$ 69,90
Onde comprar: Fósforo Editora