Carnaval no Benfica: como equilibrar o impacto entre queixas e o ‘direito de festejar’
Em 2026, o polo teve mudança no local do palco e as apresentações que ocorriam na Praça João Gentil foram para a Praça da Gentilândia
Quando chega janeiro, o tradicional bairro Benfica, em Fortaleza, passa a abrigar um conflito ainda distante de ser resolvido: de um lado, foliões, que são moradores e também visitantes, celebram a chegada das festas de Pré-Carnaval e do Carnaval, já que o logradouro é um dos polos oficiais da Prefeitura. Do outro, residentes relatam uma série de transtornos relacionados aos festejos e afirmam que, por ser uma área bastante residencial, com muitos idosos, são afetados por percalços, como o excesso de barulho e a ocupação desordenada das ruas e calçadas.
As queixas sobre a situação são antigas. Na mesma medida em que o bairro boêmio e universitário se consolidou, ao longo dos anos, como um dos polos mais tradicionais do ciclo carnavalesco, também se acumularam críticas aos excessos registrados durante os festejos. E, até o momento, o conflito segue sem uma solução simples ou de fácil aplicação.
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Ainda no fim de 2025, tendo em vista que o bairro voltaria a ser um dos polos do ciclo carnavalesco, houve uma tentativa de transferir o palco para a Rua Paulino Nogueira, nas proximidades do Estádio Presidente Vargas.
A proposta não avançou por falta de consenso, segundo informação da gestão municipal fornecida em uma audiência pública realizada, neste mês, pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), sobre o assunto.
O encontro no MPCE ocorreu em 19 de janeiro de 2026 e reuniu representantes da Prefeitura, forças de segurança e moradores do bairro. Diante dos incômodos, os residentes buscaram, em outubro de 2025, o MPCE que registrou uma notícia de fato, procedimento inicial usado pelo órgão para analisar possíveis irregularidades antes de decidir se abre uma investigação.
No conflito, esse grupo de moradores do Benfica alega uma série de transtornos associados aos eventos carnavalescos no bairro, com destaque, segundo eles, para:
- O barulho excessivo provocado tanto pelos shows oficiais quanto pelos paredões de som que permanecem após o fim da programação;
- Montagem e desmontagem de palcos em horários inadequados, como durante a madrugada;
- Extensão do pós-evento até altas horas, mesmo com o encerramento oficial das atividades às 22h;
- Ocupação desordenada de ruas e praças, dificultando a circulação de pedestres e moradores.
Um dos polos mais tradicionais
O polo do Benfica é um dos 17 pontos oficiais do Pré-Carnaval da Prefeitura de Fortaleza. Esses polos, em sua maioria tradicionais, apresentam características distintas e estão distribuídos por diferentes bairros da cidade e variam também em tipos de espaços, indo de áreas da orla, como a Aterrinho, até praças, parques urbanos, e estabelecimentos culturais privados com forte reconhecimento do público e emblemáticos para a cidade.
Em 2026, o polo do Benfica teve mudança de endereço e as apresentações do Pré-Carnaval que ocorriam na Praça João Gentil foram para a Praça da Gentilândia, próxima ao IFCE.
Isso inclusive também gerou queixas, mas dos foliões, por ser uma área mesmo arborizada e menor proteção ao sol, tendo em vista que parte das apresentações ocorre durante o dia. A mudança do local, segundo a Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor) atendeu a solicitações dos próprios moradores do bairro.
No bairro, a programação oficial do Pré-Carnaval ocorreu nos dias 24 e 25 de janeiro, e seguirá nos dias 31 de janeiro, 1º, 7 e 8 de fevereiro. Aos sábados, o evento deve durar de 17h às 22h e aos domingos das 13h às 18h30.
Nos relatos registrados formalmente pelo MPCE na audiência pública e disponibilizados em forma de documento no sistema SAJ, o qual o Diário do Nordeste teve acesso, o grupo de moradores reforça que os impactos atingem de forma mais grave idosos, pessoas com deficiência e pessoas autistas.
Na ocasião, representantes da Secultfor afirmaram que os tradicionais festejos no Benfica fazem parte da política cultural da cidade e seguem a legislação vigente. Portanto, segundo a pasta, o pedido feito pelos moradores, de suspensão do edital da programação carnavalesca, não teria amparo.
Além disso, destacou que questões relacionadas à fiscalização, limpeza e controle após os eventos são responsabilidade de outros órgãos, como a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis).
No encontro, a Secretaria Executiva Regional IV informou que, para o período pré-carnavalesco, foram definidos pontos específicos para atuação de ambulantes, com autorização de 25 permissionários, escolhidos por sorteio entre mais de 200 inscritos. A gestão reconheceu que o bairro enfrenta dificuldades históricas de ordenamento urbano.
Já a Agefis explicou que mantém equipes fixas durante os dias de evento, com cerca de 12 fiscais atuando no Benfica, além do apoio da Guarda Municipal e da Polícia Militar. Mas, após o encerramento oficial da programação, a fiscalização passa a ser itinerante, o que limita a atuação no período da madrugada.
Uma das residentes que se queixa é a transcritora de Braille, Ana Paula Lopes, que mora nas proximidades da Pracinha da Gentilândia há 24 anos. Em entrevista ao Diário do Nordeste, ela reforça as reclamações:
“Hoje, em frente de cada praça, temos moradores idosos, numa faixa etária de 70, 90 anos, com problemas de saúde, como hipertensão, problemas cardíacos e Alzheimer. Os mesmos precisam de uma boa noite de sono e descanso. Se um idoso ou qualquer morador das proximidades do evento passar mal, fica difícil sair para um socorro, porque as ruas estão bloqueadas e cheias de pessoas, dificultando a passagem de carro ou uma ambulância".
E acrescenta que os efeitos vão além: “aqui, ficamos ilhados. Se sairmos das nossas casas antes do eventos só podemos voltar após o evento, e ao voltarmos corremos o risco de não conseguir entrar nas garagens, por terem carros estacionados impedindo a entrada nas nossas residências”.
A publicitária Maryana Viana, que é moradora do bairro há 29 anos, e aproveita as festas carnavalescas, pondera que a festa “têm pontos positivos e negativos”. Ela lembra que o Carnaval no Benfica “é um evento antigo no bairro, que já existia antes mesmo da Prefeitura organizar”.
“Antes, eram bloquinhos que passavam pelas ruas e envolviam principalmente moradores do próprio bairro. Com o tempo, o evento cresceu e passou a ter apoio da Prefeitura, com palco na praça. Isso acaba ajudando muito a economia local, porque os bares e restaurantes da região ficam mais movimentados. Além disso, muitos moradores aproveitam para vender comidas e doces em frente às suas casas”.
Em paralelo, aponta, “muitas vezes, o evento acaba e os jovens acabam permanecendo no local causando transtorno para os moradores, principalmente para quem mora perto da praça”.
Sobre a mudança de uma praça para a outra, ocorrida este ano, ela avalia que “causa mais impacto para quem vai ao carnaval, porque a praça nova não tem árvores como a antiga. Quando os eventos começam mais cedo, faz muito sol e isso atrapalha a folia. Para os moradores, o incômodo continua o mesmo. O barulho alto vai continuar e as pessoas que ficam depois da festa ainda ocupam as duas praças. Muitos moradores também reclamam das pessoas urinando na frente das casas, então o problema só muda de lugar”.
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Mas, ela também destaca que os percalços envolvendo os moradores do Benfica não são apenas festas carnavalescas. “O transtorno já é antigo e acontece por causa dos ambulantes e das pessoas que ficam nas praças com caixas de som até tarde. Se tivesse um horário certo para acabar tudo, como os ambulantes pararem de vender e as caixas de som serem desligadas, ajudaria muito os moradores, principalmente os idosos”.
Mas, quais saídas poderiam tentar equilibrar a questão?
O assunto que, ano após ano, ressurge nesse período, voltou a ganhar repercussão também nas redes sociais. No ambiente digital, as opiniões se dividem e vão de avaliações extremas, como a sugestão que os moradores incomodados se “mudem do local” a mais moderadas cobrando por equilíbrio e melhor organização, que podem vir via regulamentação do uso do território nesse momento específico de maior demanda e conflito.
Alguns perfis reforçam a relevância das festas como uma manifestação cultural popular que marca a identidade do bairro e agrega ainda moradores de áreas vizinhas. Outros ponderam que a festa é positiva, mas o pós-evento é sempre marcado por mau cheiro, sujeira, obstrução de espaços públicos e poluição sonora.
Entre as alternativas sugeridas nas redes sociais para tentar amenizar a situação, estão as seguintes ideias:
- Reduzir o porte e os horários dos eventos no Benfica, adequando a programação à capacidade das praças e ao perfil residencial do bairro;
- Garantir fiscalização fixa no pós-evento, com atuação integrada da Agefis, Guarda Municipal e Polícia Militar após o fim oficial dos shows;
- Coibir efetivamente paredões de som com apreensão de equipamentos e controle de acesso às vias;
- Avaliar a transferência do polo para praças do Centro, como a Praça Clóvis Beviláqua (conhecida como Praça da Bandeira) ou o rodízio de espaços durante a programação;
Para a transcritora de Braille, Ana Paula Lopes, uma das soluções seria realocar o Pré-Carnaval e o Carnaval “para um local mais adequado, não por perseguições culturais e nem perseguições aos comerciantes e sim a necessidade de priorizar a qualidade de vida dos moradores do entorno das praças”.
Ela também aponta que sempre que há queixas, “ouvimos que ‘se mudem’, ‘esse é o preço de morar no Benfica’, e isso está totalmente incoerente, ninguém tem o direito de chegar na casa de alguém e simplesmente manda-lá embora, ainda mais pessoas que moram a bem mais de 60 anos em um local”.
Já a publicitária Maryana Viana, também moradora do Benfica, reforça que “se houvesse um trabalho dos órgãos públicos mais focado para dispersar as pessoas quando os eventos terminassem, os transtornos do carnaval diminuiriam bastante”.
Outro ponto, indica ela, seria uma “parceria com os bares ao redor ajudaria, como limitar a venda de bebidas paras as pessoas fora dos bares durante esses períodos. Se as pessoas não continuassem bebendo nas praças e nas ruas depois da festa, isso poderia reduzir muito os problemas”.
Na audiência no MPCE, o órgão esclareceu que não tem atribuição legal para proibir a realização dos festejos no Benfica. Mas, solicitou à Prefeitura o plano operacional da Secultfor para o ciclo carnavalesco.
O MPCE também converteu a notícia de fato em Procedimento Administrativo e, na prática, isso significa que o órgão passou a acompanhar formalmente as medidas adotadas pelo poder público para reduzir os impactos do Pré-carnaval e do Carnaval no bairro Benfica.
O que a Prefeitura tem feito?
No último final de semana, atendendo a recomendação do MPCE, a Agefis intensificou a fiscalização no bairro em dias de Pré-Carnaval e prometeu estender a ação também aos 4 dias de Carnaval, conforme informado pela Prefeitura. A gestão aponta que “a ação busca conciliar a realização das manifestações culturais com o direito ao descanso, à segurança e à qualidade de vida dos moradores da região”.
Procurada pelo Diário do Nordeste, a Agefis informou, em nota, que intensificou a fiscalização durante os fins de semana do Ciclo Carnavalesco, especialmente nas áreas com 25 palcos.
Desde que o Pré-carnaval teve início, houve uma denúncia formal de poluição sonora no Benfica, onde um bar foi autuado, além de três infrações por obstrução de calçada.
As equipes também realizaram rondas pela cidade, resultando em cinco autuações por uso de paredões de som e apreensão dos equipamentos nos bairros Antônio Bezerra, Itaperi, Parque Dois Irmãos e Vila Peri, com a apreensão dos equipamentos.
Já a Secultfor, em nota, também reforçou que “o fomento às manifestações culturais da cidade, incluindo as realizadas no Benfica, é pautado pelo princípio do acesso democrático à cultura”.
Segundo a pasta, a definição da programação e dos locais dos eventos “não ocorre de forma unilateral, mas, a partir de critérios técnicos e de intenso e constante diálogo com o Fórum do Carnaval, constituído em 2025, para a construção coletiva das ações culturais do Ciclo Carnavalesco de Fortaleza”.
O Fórum conta com representantes dos blocos e agremiações e de artistas, escolhidos pelas próprias categorias nos encontros de avaliação do Carnaval, indica o órgão.
A Secultfor ressaltou que o Ciclo Carnavalesco “promove a oferta de serviços, a movimentação da economia local, a geração de trabalho e a renda, além de fortalecer o sentimento de pertencimento e da ocupação cultural dos espaços públicos”.