Você teve uma? Fitas K7 completam 60 anos após revolucionar forma de ouvir música

Elas surgiram em 1963 como modo de tornar a reprodução de música portátil; desde essa época, garantiram lugar querido na rotina das pessoas e até hoje são recuperadas por artistas

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Legenda: Criação de um engenheiro holandês, as fitas K7 tiveram um boom sobretudo nos anos 1980 e 1990; hoje, são praticamente souvenires
Foto: Shutterstock

Rebobinar fita usando caneta Bic. Colar as fitas com durex para poder gravar. Esperar a música tocar no rádio e apertar REC. Usar walkman amarelo na cintura. Se você reconheceu esses passos, certamente teve uma fita K7. As pequenininhas completam 60 anos após revolucionar a forma de ouvir música e ditar o comportamento de toda uma geração.

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Surgidas em 1963, as K7 foram criação do engenheiro holandês Lodewijk Frederik Ottens (1926-2021), conhecido como Lou Ottens. Farto dos grandes e desajeitados gravadores da época que utilizavam sistemas de bobina, ele queria produzir uma maneira mais compacta e acessível para as pessoas ouvirem música.

“A fita cassete foi inventada por causa da irritação com o gravador existente, é simples assim”, disse. A ideia do gênio era que a K7 coubesse no bolso interno da jaqueta. O primeiro protótipo foi um compartimento de madeira, mas a oficial ganhou o mundo em uma feira de eletrônicos em Berlim com o slogan “Menor que um maço de cigarros”.

Legenda: Primeira fita K7 ganhou o mundo em uma feira de eletrônicos em Berlim com o slogan “Menor que um maço de cigarros”
Foto: Shutterstock

Desde esse tempo, foram vendidas mais de 100 bilhões de unidades em todo o planeta. Algumas foram parar nas mãos de Berg Menezes. O cantor e compositor cearense lembra com saudosismo da época em que gravava coletâneas específicas nas miudinhas – de rock inglês a instrumentais. “Elas têm uma característica diferente, e eu usei muito assim”, diz.

“Literalmente ficava no pé do rádio, ouvindo, e, quando o locutor anunciava que dali a pouco a gente ia ouvir, sei lá, Red Hot Chili Peppers, dizia a mim mesmo: ‘Opa, vou ficar atento’. Ao começar a música, eu gravava, apertando REC e Play. Assim que terminava, apertava Stop, e ia construindo minhas coletâneas. Isso é impagável nas fitinhas”.

Segundo ele, essa possibilidade proporcionada pelas K7 garantiram o charme e o carinho que o público passou a desenvolver por elas, sobretudo nas décadas de 1980 e 1990, quando se popularizaram. A bem da verdade, já nasceram acessíveis, embora com algumas pequenas complicações. O som, por exemplo, não era dos melhores. E se, no momento da gravação, o locutor da rádio interferisse muito, as falas ficavam ali também. 

“Tinha todo um processo pra gravar. Elas normalmente vinham com um lacre que, quebrando, não permitia gravação. Porém, ao passar uma fita ou colocar um pequeno plástico, tinha a possibilidade de usá-la como forma de registrar aquilo que você quer”, explica Berg, refletindo ainda sobre outra viabilidade da mídia.

Dependendo do deck (sistema de gravador de áudio), havia entrada de microfone, ou seja, também era possível gravar a própria voz por cima. Não à toa, as primeiras gravações realizadas pelo músico foram assim. Jeito de, cedinho, se sentir cada vez mais perto do som e da arte. “Brincava de rádio, de ser radialista, locutor, de cantar”.

Os colecionadores piram

Todo esse apreço fez o artista não abandonar as pequenas tão facilmente. Até hoje ele guarda fitas e mais fitas desse tempo em que produzia as próprias coleções. Tem de tudo: canções do Sepultura, Raul Seixas, Led Zeppelin, Cidade Negra, U2. Em uma, intitulada “Junta tudo”, o encarte feito à mão traz seleção contendo Linkin Park, Creed, Travis, entre outras bandas.

O amor transbordou para o próprio trabalho. Pouco tempo depois de lançar o álbum de estreia, “Pedra” (2016), Berg teve a ideia de criar um material de merchandising mais robusto, trazendo, por sinal, a versão em K7 do projeto. Embora com tiragem bem pequena, para ele foi interessante perceber essa mídia ganhando vida e função de novo.

Legenda: Pouco tempo depois de lançar o álbum de estreia, “Pedra” (2016), Berg teve a ideia de criar a versão em K7 do projeto
Foto: Arquivo pessoal

“As reações foram curiosas porque todo mundo achou muito legal. Mas, por conta do desuso das fitas, não teve uma venda bacana. As pessoas não sabiam como iam ouvir. Compraram mais como um ‘souvenir premium’, valorizando meu trabalho e tendo algo personalizado do projeto”, analisa. “É semelhante ao que acontece hoje com o CD, já num viés de desuso”.

Berg não foi o único a aderir ao movimento. Feito ele, diversos outros artistas lançaram fitas K7 recentemente, reativando uma memória bonita e nunca velha. Lady Gaga, The 1975, Selena Gomez, Dua Lipa e até Luan Santana entraram na onda. Ao que tudo indica, o produto vem ganhando aceitação por conta do charme retrô e, principalmente, porque os K7 de agora possuem som infinitamente superior aos que foram produzidos nos anos 80 e 90.

Dados revelados pela Official Charts – organização que compila várias tabelas musicais oficiais do Reino Unido – mostraram que as vendas de cassete mais que dobraram em 2020 na Grã-Bretanha. A empresa apontou um aumento de 103% nas vendas das miúdas no primeiro semestre de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019.

No total, foram comercializadas 65 mil fitas K7 de janeiro a junho de 2020 em território britânico, e os números indicavam vendas superiores, nos meses seguintes, a 100 mil pela primeira vez desde 2003. 

Legenda: Berg Menezes com a coleção de K7s: repertórios clássicos, contemporâneos e personalizados
Foto: Arquivo pessoal

Contudo, já em 2017, o mercado das fitinhas ganhou um pequeno boom com o lançamento do filme “Guardiões da Galáxia”, cujo material de divulgação da trilha sonora reflete as pequenininhas: 174 mil cópias ao todo. Resquícios delas também podem ser encontrados em séries como “Stranger Things”, ambientada nos anos 1980.

Apesar disso, considerando a realidade do Brasil, Berg observa que, por aqui, elas estão de fato em desuso, com os novos lançamentos apenas satisfazendo o gosto de colecionadores. O próprio artista comprou a K7 dos Los Hermanos na última turnê do grupo apenas por ser bastante admirador do quarteto. 

“Acho que esse movimento de lançar K7 hoje é muito da cena independente. Nesse sentido, quem fez um trabalho comigo foi o Ivan Timbó. Ele tem decks, então ainda consegue fazer o lance de copiar fita e tal. E quis lançar uma K7 de um projeto dele muito na perspectiva de ser para um grupo específico de pessoas, que gostam do trabalho e querem valorizá-lo, mas que não necessariamente vão usar aquela fitinha, ouvindo”, conta.

“Acredito ser muito difícil artistas que vendem isso em lojas ou sites com tiragem alta. Eu, por exemplo, acho que só tenho um exemplar da fitinha do “Pedra”; as outras ou enviei para a imprensa ou vendi algumas poucas unidades, mas não foi uma tiragem grande”.

E isso ainda vende?

Fato é que o nicho ainda resiste, atraindo inclusive a molecada mais jovem. Aqui cabe uma reflexão interessante: se antes, aparelhos como o walkman (leitor de cassetes portátil) permitiram que os adolescentes da época pudessem ouvir músicas preferidas fora do ambiente de casa – portanto distantes dos pais e onde quisessem, promovendo uma pequena revolução comportamental – hoje o fato de a nova geração ir em busca das fitinhas representa viver um tempo fora do tempo deles, mas ainda presente.

Na Amazon, por exemplo, é possível comprar a K7 do já mencionado “Guardiões da Galáxia” e de artistas como Tim Maia, Gilberto Gil e Paralamas do Sucesso. Os preços variam entre R$78 e R$99,90. Por outro lado, caso você queira uma experiência na própria loja, em vários sebos é possível encontrar, ou em lojas especializadas.

Localizadas na Galeria Pedro Jorge, Centro de Fortaleza, a Freelancer Discos e a Planet CDs contam com algumas poucas fitas K7 no catálogo. A primeira tem Roberto Carlos, Fábio Júnior, Exaltasamba e a trilha sonora da novela Mulheres de Areia, entre R$15 e R$20. A segunda possui das bandas Baiana System e Mukeka di Rato, lacradas, no valor de R$60.

Legenda: Planet CDs, no centro de Fortaleza: recanto é um dos lugares possíveis de encontrar fitas K7 para comprar na capital cearense
Foto: Reprodução/Instagram

Em pesquisa rápida feita pela reportagem, percebe-se que, apesar da presença delas no mercado cearense, pouquíssimas são as unidades em cada loja, o que reforça uma teoria de Berg: apesar de todas as mudanças no universo fonográfico, quem se consolida como verdadeira vedete é o vinil.

“Ele nunca perdeu a majestade. Talvez perdeu o recurso dos equipamentos de uso e, para ouvir, saiu um pouco de moda. Mas jamais caiu em desuso total, sempre teve um público muito fiel. No caso da K7, reitero: acho que, sim, caiu em desuso, porém com essa tendência de retornar como souvenir personalizado”.

Não deixa de incorporar a característica de clubinho, reunião Vip. Além disso, há muitos pontos a favor dela, sobretudo no que diz respeito à saudade: junto à imagem das máquinas de datilografia, por exemplo, fitas K7 são um dos ícones nostálgicos mais fortes no imaginário popular. Quem nunca viu uma servindo hoje como modelo de carteira ou até bolsa? A cultura geek, de gamers mais tradicionais, adora.

“A característica de elas serem editáveis também é bem importante. Essa possibilidade de gravação por conta própria, personalizada, sempre foi algo muito bacana – algo que não dava para encontrar no vinil e no CD”, pontua o cearense.

“Sinto muita saudade dessa época porque era um contato com a música de forma muito crua. Talvez seja semelhante à câmera fotográfica de filme: o momento do registro é único, não dá pra voltar e gravar de novo. Se não aproveitar, passou”.

Tímidas, nanicas e de gueto – nunca formando império, sendo, no máximo, a segunda opção de escolha para público e mercado – as K7 se tornam idosas beneficiadas pela memória. Feito disse o próprio criador diante da criatura: são fruto de uma irritação. Simples assim.

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