Do K-pop aos artigos religiosos, Galeria Pedro Jorge mantém a aura da 'Galeria do Rock' viva

O Diário do Nordeste faz um passeio pela Galeria Pedro Jorge. O prédio resiste ao tempo e reflete o contexto social da cidade e o cenário de retomada do comércio local

Para ganhar tempo, salto dois quarteirões antes. Na calçada de uma loja de tecidos vende estampa de bandeirinha brasileira. Um dia após Zuckberg testemunhar a pane de seus brinquedos, o destino é a Galeria Pedro Jorge. O edifício 834 da Rua Senador Pompeu atravessa o quarteirão, oferecendo passagem à General Sampaio.

A configuração arquitetônica do lugar permite sombra e ventilação natural para quem ali trafega. Alento ao sol das 14h na capital cearense. Naquele comércio é possível cuidar da beleza, amolar lâminas e acertar relógios. Tem os segmentos ligados à religiosidade e óticas para enxergar melhor.  É também lar da “Galeria do Rock”.  

Ultrapassamos a marca de 600 mil mortes por Covid-19. Impossível separar o Centro da capital do cenário macabro do País. A agitação comum à região não é a mesma. Percebe-se ausência e certo silêncio. A Galeria integra este universo e resiste de braços abertos por clientes e pedestres.  

Percorro a extensão do pátio térreo com uma incômoda pergunta: "o que escrever da Galeria ?". É quando encaro a Disco Mania. Um Raul Seixas gigante saltando da fachada assinala o charme. O vendedor João Paulo troca as peças acrílicas de uma fileira de CDs. Muda tampas, observa estado dos disquinhos. "Qualquer dúvida estamos, aí", nos recebe.  

Desde 1985 

Verifico o acervo e a constatação "ainda estamos na pandemia" ataca o pensamento. É quando o LP do “Funk Brasil 2” (1990) aparece. DJ Marlboro suave em cima de um micro system e as melôs todas lá. "Sunda", Tonheta", “Silvia” e outras menos conhecidas. Outro achado é o disco "Hear 'n Aid" (1986), versão metal do "We Are The World". Foi fácil topar um Moraes Moreira, indefectível por detrás de óculos na capa do “Coisa Acesa” (1982).  

O paredão de CDs nas duas laterais da loja é marca registrada. Facilita a visualização do estoque. Tem Blu-ray e DVD. Com DNA de sebo, a Disco Mania pertence a Cosme Alberto. “CD o presente que mais toca” é o slogan da casa. Naquela tarde, segundo João Paulo, o proprietário tinha outros compromissos.  

É comum, por exemplo, sair para adquirir lotes de discos. Se você tem uma coleção e quer desfazer, ele faz negócio. Começou vendendo compactos quanto tinha 14 anos. Eram aquelas bolachinhas promocionais, geralmente, com duas faixas de cada lado. Chegou à Pedro Jorge em 1985, inicialmente no primeiro andar.  

Dois anos depois assume o ponto no qual continua até agora. “Tinha 65 quilos e uma cabeleira Black Power”, relembra Cosme via telefone. Os cabelos podem não ser os mesmos de outrora, mas boa parte dos clientes, sim. Muitos já com as crias adultas e também frequentadoras do espaço.  

Servido da experiência no ramo é taxativo: “A música não vai morrer”. E prova com fatos. No final de 2020, explica, a loja encomendou exemplares de “Serenata”, último álbum lançado por Raimundo Fagner. “Vendeu todo o primeiro pedido na primeira semana”, descreve. Detalhe, a Disco Mania não anuncia via internet. Precisar ir lá ou dar uma ligada antes. 

Para manter o funcionamento durante a pandemia foi preciso negociar com o dono do imóvel, realidade semelhante à dos vizinhos comerciantes. “Antigamente a Galeria funcionava com uma imobiliária. Hoje, cada loja tem um dono e cada valor é diferente”. O filho de Cosme, Guilherme passou a ajudar na Disco Mania. “Caso ele se interesse em permanecer”, projeta o pai. 

Via elevador 

Testemunha das transformações comercias do prédio, o elevador mantém as características. Da cor amarelada que sinaliza cada andar ao som do tranco quando as portas cerram. É no terceiro pavimento que a Galeria do Rock passou a contar sua história. Opus, Chakal, Gallery, Disco Voador, Cangaço eram algumas das marcas presentes.  

Dos anos 1990, continuam Bronx, Darkness e a Planet CDs. Esta última, desde 1997, mantém o segmento da música com um acervo que vai do metal ao jazz. Pôsteres, camisetas, canecas e action figures. Lá, os vendedores Elineudo e Fernando (com 21 e 12 anos de casa, respectivamente) conversam da realidade dos últimos meses. Resistir é lema.  

“Tamos aí. Dias bons, outros ruins, mas dando certo", conta Fernando. Os três meses iniciais da pandemia foram de portas fechadas. Com a segunda onda, a equipe investiu no virtual. “Ficava aqui interno e mandando o material via entregador. É tudo mais de cabeça, não tem nada catalogado, nós conhecemos o estoque, ficava mais fácil”, completa. 

Mesmo num momento de retomada, Elineudo observa que além dos compradores fieis, é comum caras novas pintarem pelos corredores do edifício. Sinal de que existe ainda o fascínio pela aura e história em torno da Galeria. “Todo dia aparece gente nova que não conhecia isso daqui. É invocado". 

Para Fernando, a chegada de outras vertentes comerciais tem um saldo positivo. “Outras lojas acabam chamando público para cá. A galera de street wear. Tem loja direcionada para K-pop. Isso acaba que o pai vem com a filha e aproveita para chegar aqui na loja”, estipula. 

Passagem

Já no pátio térreo, passa das 16h e alguns lojistas ensaiam baixar as portas. No outro dia, quem sabe, o movimento seja melhor. Já chega novembro e as luzes do Natal podem iluminar o cenário. Na entrada da Rua Senador Pompeu, apenas um rapaz ainda continua a entrega panfletos de piercing e tatuagem.  

No correr das décadas, as salas daquele empreendimento foram ocupadas por sindicatos, escritório de contabilidade e advocacia. Teve agência do Bando do Nordeste (BNB). No meio dos anos 1980, a cena rock local estabeleceu ali sua morada e templo de descobertas. 

A Pedro Jorge fica para trás e recordações fazem companhia. Da compra do “We Sold Our Soul for Rock 'n' Roll” do Sabbath no Chakal. Ou quando um chapa do Montese comprou um bootleg do Nirvana mesmo sem gostar da banda (e aproveitei para gravar uma fitinha).   

Nostalgia deixada de lado assim que a desolada Praça do Ferreira é avistada. Termômetro das demandas sociais, o Centrão terá a noite pela frente antes de tentar tudo novamente no dia seguinte. Ainda estamos na pandemia e sigo sem saber o que contar da Galeria Pedro Jorge. 

 
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